O mundo já se habituou a ouvir falar de “mega centros” de dados, enormes infraestruturas tecnológicas instaladas em armazéns industriais de grandes dimensões. Agora, esses mesmos espaços estão a ganhar um novo uso nos Estados Unidos: o Departamento de Segurança Interna quer transformar vários destes edifícios em “mega centros” de detenção de imigrantes para o Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês) . O maior deles fica em Social Circle, no estado da Geórgia, onde um armazém com mais de 92.900 metros quadrados deverá ser adaptado para acolher 8.500 pessoas — um plano que está a gerar forte polémica entre autoridades e residentes locais, noticia o New York Times.
O interior do edifício representa uma área equivalente a cerca de 12 campos de futebol, o que faria desta infraestrutura a maior prisão do país. Especialistas em arquitetura, design prisional e centros de detenção ouvidos pelo jornal norte-americano alertam, no entanto, que o projeto levanta sérias questões de saúde, segurança e habitabilidade. Para vários, adaptar um armazém industrial para acolher mais de oito mil pessoas em condições dignas poderá ser uma tarefa extremamente difícil.
Raphael Sperry, arquiteto que ao longo de décadas estudou design ético de prisões, sublinha que a própria natureza do edifício levanta dúvidas para o uso pretendido. “Este volume de pessoas precisa de uma quantidade enorme de ventilação”, afirmou ao New York Times, acrescentando que armazéns não são concebidos para níveis de ocupação humana tão elevados.
De acordo com os planos preliminares, o primeiro piso deverá albergar cerca de 5.000 detidos, distribuídos por 80 módulos, cada um com aproximadamente 68 pessoas. Estes módulos funcionariam como pequenas unidades onde os detidos poderiam dormir, comer e tomar banho. Mas, para atingir a capacidade total prevista de 8.500 pessoas, o projeto implicaria ainda a construção de um segundo piso. Tudo isto num plano com apenas um único trajeto de saída de emergência para os milhares de detidos e as centenas de funcionários.
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O plano também está a gerar dúvidas entre autoridades locais e população, sobretudo devido à localização do centro, próximo de uma escola primária e de zonas residenciais, bem como à capacidade da rede sanitária da região. A polémica tem uma dimensão política particular: muitos dos habitantes da área ‘redneck‘ [designação para a população branca rural pobre do sul dos EUA] votaram de forma expressiva em Donald Trump nas eleições de 2024.
“O governo federal está a levar isto avante sem qualquer contribuição do governo local e aparentemente sem se importar muito com o que isso significa para a nossa comunidade”, afirmou o administrador municipal de Social Circle, Eric Taylor, um dos principais críticos do projeto. Para o autarca, a região não possui infraestrutura sanitária suficiente para suportar uma instalação que duplicaria a população local.
Também o senador democrata Raphael Warnock não poupou críticas. “Se este Presidente se concentrasse em expulsar criminosos violentos — como prometeu — Social Circle não estaria a sofrer as consequências da política de imigração descontrolada desta administração”, afirmou à cadeia de televisão Georgia Public Broadcasting.
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O projeto de Social Circle, que poderá receber os primeiros detidos em meados de maio, faz parte de um esforço mais vasto para expandir a rede de detenção de imigrantes nos Estados Unidos, uma das prioridades da agenda da administração Trump. O Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) já gastou mais de 900 milhões de dólares (cerca de 778,8 milhões de euros) na criação de 10 instalações semelhantes, que no conjunto acrescentam mais de 25 mil camas ao sistema norte-americano de detenção de imigrantes.