As últimas horas da guerra ficaram marcada por ataques da coligação EUA-Israel a território iraniano focados na destruição da Força Aérea e Marinha do regime, bem como de infraestruturas ligadas a forças de repressão como as milícias Basij. Por outro lado, o Irão manteve os ataques os países do Golfo, ao mesmo tempo que o Hezbollah se focou nos ataques a território israelita.
O conflito estende-se cada vez mais. O Iraque está a tornar-se palco de mais confrontos entre as forças dos Estados Unidos e as milícias pró-Teerão estabelecidas no país. Na Turquia, foi intercetado mais um míssil balístico.
Politicamente, vários países, incluindo a Rússia, felicitaram o novo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei. Vladimir Putin tem intensificado os esforços de mediação, tendo falado ao telefone com o Presidente Donald Trump. Este, por seu turno, garantiu que a guerra irá acabar “rapidamente”, mas ao mesmo tempo sublinhou a necessidade de os Estados Unidos obterem “a vitória derradeira”.
A crise energética degradou-se, com as petrolíferas da Arábia Saudita e do Bahrein a reduzirem operações e, no caso do Bahrein, a interrompê-las. O preço do petróleo atingiu os 100 dólares por barril, o valor mais alto desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022.
Estes foram os desenvolvimentos na guerra no Médio Oriente ao longo da segunda-feira, dia 9 de março:
No Irão
- Houve mais ataques da ofensiva militar norte-americano e israelita ao longo desta segunda-feira, com ataques registados nas cidades de Teerão, Isfahan, Karaj e Ahvaz. Teerão foi bombardeada intensamente na madrugada e há relatos do possível uso de munições anti-bunker.
- As IDF atingiram três lançadores de mísseis, incluindo no complexo de mísseis de Esfahan. Garantem também ter atingido o quartel-general de comando de drones da Guarda Revolucionária, cuja localização não é pública.
- Israel confirmou que atingiu seis bases aéreas iranianas desde o início da guerra.
- As forças EUA-Israel atingiram a corveta Shahid Soleimani na costa de Bandar Lengeh (província de Hormozgan). Ao todo, os Estados Unidos dizem já ter afundado mais de 30 navios iranianos desde o início da guerra.
- Os norte-americanos e israelitas atingiram uma base das milícias Basij, uma força paramilitar responsável por grande parte da repressão dos manifestantes, em Teerão. Ao todo, garantem já ter destruído 11 bases das Basij desde o início da guerra.
- Foi também atacada a Unidade de Alívio do LEC (Comando de Aplicação da Lei) em Teerão e outra em Kermanshah. As unidades do LEC também se focam na repressão de protestos.
- As forças EUA-Israel atacaram as instalações da empresa Sahab Pardaz, que está ligada à censura online feita pelo regime.
- As IDF anunciaram que já mataram 1.900 comandantes e soldados iranianos desde o início da guerra.
- A Guarda Revolucionária garante ter desmantelado um grupo armado anti-regime na província curda no nordeste do Irão. Um membro terá morrido, seis terão sido detidos e várias armas e munições foram apreendidas.
- O Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, felicitou Mojtaba Khamenei pela sua eleição como Líder Supremo e desejou-lhe sorte para construir um “Irão independente”.
- O Hezbollah e os Houthis também felicitaram Mojtaba Khamenei.
- Outros países que deram cumprimentos ao novo Líder Supremo foram o Azerbaijão, o Tajiquistão, o Iraque e o Omã — um país do Golfo que já foi atacado pelo Irão nesta guerra. O Presidente russo, Vladimir Putin, emitiu uma mensagem pessoal de felicitações a Mojtaba Khamenei.
- Ali Larijani, chefe de segurança do Irão e figura destacada neste período de transição, avisou que o Estreito de Ormuz não será seguro enquanto a guerra continuar.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, fez uma publicação no X onde escreveu que “o Irão não quer causar dano a americanos comuns que votaram em massa para acabar com o custoso envolvimento em guerras no estrangeiro”. Vários analistas apontam que o regime iraniano está crescentemente preocupado com a possibilidade de os Estados Unidos recorrerem a “botas no terreno” ou missões com as operações especiais, incluindo missões coordenadas com grupos insurgentes como os curdos ou os balúchis.
- O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano Kamal Kharrazi declarou que o Irão está preparado para um conflito prolongado e que a diplomacia só será possível depois de os EUA sentirem as consequências da pressão económica causada pelo conflito.
- O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, disse que o Irão só irá aceitar o fim da guerra se tiver garantias de que um conflito deste género não se repetirá.
- O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou que os Estados Unidos pretendem “uma partição do país” e “tomar o petróleo”.
Em Israel e no Líbano
- Mais ataques com mísseis por parte do Irão em direção a Israel. Alguns dos ataques foram feitos com recurso a munições de fragmentação, que atingiram sete localizações diferentes em Israel, matando um civil e ferindo três outros. Os analistas militares acreditam que o uso de munições de fragmentação está a ser feito para compensar a falta de precisão dos seus mísseis balísticos normais.
- O Irão diz ter feito um ataque com drones que atingiu uma refinaria em Haifa.
- Um homem morreu devido aos seus ferimentos perto do aeroporto de Telavive. O número de mortos em Israel é neste momento de 11.
- O Hezbollah fez mais ataques a território israelita. Esta segunda-feira, diz ter lançado vários mísseis e rockets contra uma base aérea em Haifa, contra um campo das IDF em Ramla e contra vilas perto da fronteira com o Líbano.
- As IDF confirmaram que o Hezbollah está a usar projéteis de longo-alcance contra Israel, algo que evitou fazer na guerra de 2024.
- Israel acredita que o Hezbollah vai aumentar o ritmo e intensidade dos seus ataques “nos próximos dias”, para “desviar a atenção de Israel” do Irão. Os comandantes transmitiram ao primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que o Hezbollah ainda tem um grande número de lançadores e capacidade para manter a ofensiva.
- As IDF mataram um dos comandantes do Hezbollah, Abu Hussein Ragheb, responsável por um dos setores do sul do Líbano.
- Um padre maronita libanês foi morto num ataque israelita na aldeia de Qlayaa, no Líbano.
- A ONG Human Rights Watch acusou Israel de ter usado munições de fósforo branco sobre áreas residenciais na cidade de Yahmar (Líbano) a três de março. O uso de fósforo branco sobre populações civis é proibido pela Convenção de Genebra.
- O Parlamento libanês decidiu adiar as próximas eleições legislativas e estender o seu mandato durante dois anos.
- Várias fontes avançaram ao jornal Axios que o Governo libanês propôs negociações de paz com Israel e os EUA, mas Israel terá recusado.
- O número de vítimas mortais nos ataques israelitas ao Líbano é agora de 486, com mais de 700 mil deslocados.
No Golfo
- O Irão atacou a base aérea de Al-Udairi, no Kuwait, com drones e mísseis de cruzeiro — a base era usada para aterragem de helicópteros que podem ser usados na ofensiva pelos norte-americanos.
- Os Emirados Árabes Unidos dizem que os iranianos dispararam 15 mísseis balísticos e 18 drones contra o seu país esta segunda-feira, o que significa uma redução face aos dias anteriores.
- O Qatar intercetou uma série de mísseis durante a madrugada.
- O Ministério da Defesa da Arábia Saudita diz que o país intercetou um drone que tinha como alvo o campo petrolífero de Shaybah.
- O Irão fez um ataque de drones à ilha Sitra, no Bahrein, ferindo 32 pessoas, incluindo crianças. Uma refinaria foi atingida.
- O Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse que 11 países pediram o apoio da Ucrânia para lidar com os drones iranianos Shahed. Zelensky não disse especificamente quais os países em causa, mas disse serem vizinhos do Irão, o que indicia que serão provavelmente países do Golfo.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros saudita declarou que os ataques iranianos terão um forte impacto nas relações do país com o Irão “agora e no futuro”.
- O primeiro-ministro do Qatar disse que o Irão “traiu” o Golfo e destruiu as suas relações com os países da península.
- O responsável máximo da Aramco, a petrolífera estatal saudita, avisou que a guerra poderá ter graves consequências no mercado petrolífero mundial e anunciou uma redução na produção em dois campos de petróleo. A petrolífera Bapco, do Bahrein, anunciou force majeure — uma alínea contratual que permite o não cumprimento de obrigações por motivos de força maior.
- Os analistas indicam que multinacionais como a Amazon e a Microsoft estão a preparar planos de contingência para retirar data centers dos países do Golfo e deslocalizá-los para a Índia e Singapura.
No resto do mundo
- O ministro da Defesa da Turquia anunciou que um míssil disparado do Irão entrou no espaço aéreo turco e foi intercetado pelas defesas aéreas da NATO. É o segundo incidente do género, depois de outro míssil ter sido intercetado no dia 4 de março.
- O ministro dos Negócios Estrangeiro iraniano negou que o país tenha disparado em direção à Turquia, ao Chipre e ao Azerbaijão ao longo dos últimos dias.
- A Turquia enviou seis F-16 e sistemas de defesa aérea para a zona norte do Chipre.
- O Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, acusou o Irão de estar a dar “passos provocadores”.
- A Rússia apresentou o primeiro rascunho de uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas para travar o conflito. A China emitiu comunicados a pedir o fim dos ataques.
- O Presidente norte-americano assegurou que a guerra “vai acabar rapidamente”. No entanto, Donald Trump disse a congressistas republicanos que os EUA “ainda não ganharam o suficiente” e que procura “a vitória derradeira”. Trump também disse não estar “feliz” com a escolha de Mojtaba Khamenei para Líder Supremo, depois de dias antes dizer que a sua nomeação seria “inaceitável”.
- O Pentágono confirmou a morte de mais um soldado norte-americano, o sargento Benjamin N. Pennington, de 26 anos. Trump afirmou que a família lhe pediu para que “acabasse o trabalho” no Médio Oriente.
- Donald Trump e Vladimir Putin falaram sobre a situação na região ao telefone.
- França anunciou que está a preparar uma missão naval para proteger o tráfego marítimo, em particular no Estreito de Ormuz.
- A Guarda Revolucionária disse ter atingido a base aérea norte-americana Harir, em Erbil, no Curdistão iraquiano.
- Mais ataques dos EUA e Israel às bases iraquianas controladas por milícias pró-Irão. Uma destas milícias atacou uma antiga base norte-americana no aeroporto de Bagdade.
- A milícia pró-Irão Kataib Hezbollah, no Iraque, ameaçou atacar “os interesses económicos” dos curdos iraquianos, caso cooperem com outros grupos curdos para afetar o Irão.
- O embaixador do Kuwait no Iraque afirmou que foram registados ataques ao Kuwait que tiveram origem em território iraquiano, muito provavelmente por parte das milícias pró-Teerão.
- A Austrália deu vistos às jogadoras da seleção iraniana de futebol que estavam em risco de ser castigadas por se terem recusado a cantar o hino num jogo da Taça Asiática.
- O preço do barril de petróleo ultrapassou pela primeira vez desde a invasão de larga escala da Ucrânia o preço de 100 dólares por barril.