Os bancos têm mais depósitos das empresas do que créditos dessas mesmas empresas, uma “situação anómala que acontece pela primeira vez em 45 anos”, critica o ministro da Economia e Coesão Territorial. Manuel Castro Almeida afirma que, apesar de todas as linhas de garantia pública, as empresas de um modo geral continuam a queixar-se de uma excessiva “retração” no crédito por parte dos bancos.
As críticas do ministro da Economia e da Coesão Territorial foram feitas numa conferência organizada pelo Jornal Económico, o Fórum Banca 2026, com os líderes dos principais bancos a operar em Portugal entre a plateia de cerca de 500 pessoas, num hotel em Lisboa. Castro Almeida considera que, num contexto de capitalização sólida e baixo nível de incumprimento, “a banca deixou de ser um problema” e passou a ser um ativo estratégico de Portugal, tal como também são as “contas públicas equilibradas”, o desemprego baixo e um ritmo de crescimento económico que “é superior à média europeia”.
Isso é um “sinal encorajador e positivo”, afirma o ministro da Economia. “Entre 1995 e 2023 Portugal aproximou-se zero pontos percentuais da UE em PIB per capita e paridade do poder de compra, ao passo que em 2024 e 2025 aproximámo-nos 1,5 pontos percentuais“, destaca o responsável, salientando que “ainda faltam 17 pontos percentuais” para se chegar à média da UE nestes indicadores de riqueza.
Para isso, para que o “potencial da economia portuguesa, que existe”, a banca tem de ser mais pro-ativa, defende Castro Almeida. O Governo continua, no entanto, a ouvir queixas das empresas em relação aos bancos”, que mostram demasiada “retração” mesmo quando o Estado tem plataformas de garantia pública que assegura até 80% dos valores.
O que existe, muitas vezes, diz Castro Almeida, é que os bancos estão a “transferir” créditos de linhas sem garantia do Estado para outras linhas com garantia, sem a concessão de novo crédito. O ministro da Economia e Coesão Territorial diz que o Estado está a fazer o seu papel na mobilização destas garantias, incluindo tendo reprogramado no PRR um valor de 932 milhões de euros que não iriam ser executados e que foram colocados em linhas de investimento privado conhecida pela sigla IFIC.
“Estamos a resolver o pecado original do PRR, que era ter demasiado dinheiro para o Estado e pouco para as empresas“, afirma Castro Almeida, numa crítica direta ao governo anterior, que negociou o plano de investimentos com Bruxelas.
Governo não tem “fetiche” sobre crescimento económico
O ministro da Economia assegurou, também nesta terça-feira, que não há um “fetiche” sobre os números do crescimento económico e do saldo orçamental, salientando que o Governo vai procurar que sejam positivos mas com as pessoas como primeira preocupação.
“Não há aqui um fetiche sobre se o crescimento vai ser 2% ou 1,9% ou 2,1% ou se o saldo vai ser de 0,1% positivo ou 0,1% negativo”, disse Manuel Castro Almeida, em declarações à margem do Fórum Banca 2026, reforçando que o Governo vai procurar que seja positivo e ter contas equilibradas, mas “em primeiro lugar, a primeira preocupação, são as pessoas”.
O ministro apontou que o ano ainda está no início, pelo que “a meta de crescimento só se vai avaliar daqui a um ano”, salientando que o foco “tem que ser procurar manter as contas públicas equilibradas”, que são “uma vantagem enorme que a economia portuguesa adquiriu” e que não se devia perder. Ainda assim, ressalvou que também há “outra obrigação a cumprir, que é de ajudar a ser solidários com as empresas e com as pessoas que foram afetadas pelas calamidades”.
Não vamos deixar de ser solidários com as pessoas para manter a todo custo as contas públicas equilibradas”, garantiu, reiterando que o Governo vai “tentar conseguir as duas coisas mas, se não for possível, o foco vai estar em ter solidariedade com quem precisa da solidariedade dos portugueses, pessoas e empresas, porque foram apanhadas por uma situação totalmente imprevisível, da qual não têm nenhuma responsabilidade”.
Questionado sobre a possibilidade de um alargamento das medidas de apoio na sequência do mau tempo, o ministro apontou que o Governo “acompanha atentamente o que está a acontecer e, perante desequilíbrios que sejam estranhos, exteriores à atividade económica normal das empresas”, vai estar atento “para poder corrigir situações que possam causar um dano estrutural à economia”.