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 O comunismo e a (falta de) ética

A ética comunista é um instrumento para chegar a um objectivo, não uma escolha independente.

Luiz Cabral de Moncada
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1 Passadas tantas décadas e o que resta hoje da herança do comunismo que arregimentou gerações e alimentou as melhores esperanças? Nada ou quase nada.

A crítica económica e filosófica do comunismo está feita e mais que feita e nem vale a pena insistir aqui nisso. Mas o comunismo reivindica ainda certa vantagem moral. Ora, bem vistas as coisas, é este o seu ponto mais fraco.

Durante algum tempo li mas não dei importância à crítica ética e antropológica do comunismo. Confesso agora que fiz mal. Mas pensava nessa altura que o comunismo devia ser derrotado no plano económico e filosófico e as outras críticas cheiravam-me a palavreado eclesiástico e moralista.

Na verdade, a concepção comunista do homem é disforme. O homem é visto sempre como um resultado das condições económicas e sociais em que vive e não como a fonte delas. Mesmo quando Marx nos diz e por palavras suas que no comunismo, finalmente atingido, o homem depois de trabalhar umas horas em prol do bem comum pode ocupar o resto da manhã a pescar e a tarde a caçar, se assim é, é porque pode fazê-lo pois que o sistema económico e social lho permite, não porque quis livremente fazê-lo, arrostando com todas as consequências daí resultantes.

A liberdade é um conceito desconhecido para Marx. A liberdade de escolher, mal ou bem, mas de escolher. Para Marx a liberdade é sempre um produto condicionado de uma realidade anterior que transcende o homem e que lhe impõe determinada conduta. Não existe verdadeira liberdade; só há condicionamentos. O homem é sempre um resultado.

A ética não existe como valor autónomo. É sempre uma resposta situada e comprometida. Não redime o homem, situa-o e compromete-o.  A ética está feita, não se vai fazendo ao sabor da liberdade de cada um. A ética está inscrita na nossa situação económica e sociale daqui não se pode sair, a não ser por extravagância como no caso dele. Existe assim uma ética proletária, claro que interpretada pelo partido, e uma ética burguesa, uma ética colonial e uma ética imperialista e os seus resultados são avaliados apenas em função do seu contributo para o «progresso» do comunismo.

Não é a primeira vez na história que estas concepções irracionalistas vingam. Na Idade Média havia toda a espécie de indulgências para os pecadores que, em nome da Palavra revelada, esganavam o ímpio, e a denúncia, mesmo que falsa, servia de elevador social para os familiares do santo ofício, tal como durante a Convenção em França acusar os reaccionários, mesmo sem razão, era prova de «patriotismo», assim como as insinuações eram premiadas e levadas em boa conta durante a ditadura salazarista, tal como no pós-25 de Abril era meritório denunciar os «fascistas« e hoje na Jihad mais radical o paraíso espera os terroristas. A história repete-se. Sou do tempo em que perseguir colegas «reaccionários» e «fascizantes» era bem visto por um núcleo de alunos mais ou menos imbecis e até por professores infelizmente mais numerosos do que se pensa, e nada me convence que quem o fazia não retirava daí dividendos. Do mesmo modo, falsificar a história era sintoma de «progresso».

De um ponto de vista ético o comunismo actual é o herdeiro directo de uma velha tradição, que quis sempre passar falsamente por ética, comprometida com os resultados, com o poder e com a ausência de escrúpulos. Sem quiserem ver a mais vil e despudorada concepção de «ética» que se possa imaginar leiam essa infame obra que é «A nossa moral e a deles» do Trotsky. É de horrorizar.

2 A concepção comprometida e parcial da ética típica dos comunistas continua hoje. A indignação dos comunistas só funciona quando lhes convém. É direccionada para o ataque a tudo aquilo de que não gostam ou dissimula e esconde o que lhes não agrada. Chega ao inexcedível ponto de desculpar e proteger aberrações como a situação das mulheres no Irão, não vá isso dar alento moral ao ocidente cristão. Calam as mutilações que o regime iraniano inflige aos descontentes porque denunciá-las seria branquear o capitalismo. A situação das mulheres iranianas não os preocupa: o que importa é denunciar os norte-americanos e a hedionda civilização europeia. As perseguições aos católicos nos países muçulmanos mais radicais não os incomoda nada porque a única coisa que releva é organizar excursões em defesa dos palestinianos, apoiar a Ucrânia não, porque isso favorece e desculpabiliza o rearmamento europeu e a influência norte-americana, denunciar as ditaduras venezuelana e cubana fica mal porque valoriza a democracia «burguesa» ocidental. As perniciosas alterações climáticas são obviamente da exclusiva responsabilidade dos países europeus e norte-americanos pois que toda a gente sabe que os russos, os indianos e os chineses adoram o ambiente. Todas as religiões acolhem e redimem, menos a católica, evidentemente. Todas as bombas são desculpabilizadas desde que colocadas no ocidente e matando brancos, de preferência católicos etc… Estamos habituados.

Não aprenderam nada com décadas de propaganda comunista? Já se esqueceram? Os comunistas são profissionais da mentira e da dissimulação.

3 A conduta moral dos comunistas é sempre condicional. Não resulta de regras universais nem do consenso procurado com os adversários. Ora, a ética não é independente da razão pelo que não pode viver numa guerra civil com o próximo. É racional o que significa que é aberta ao próximo e dialogante. A razão ética é a da razoabilidade das soluções a encontrar por consenso, não a da coerência com os pontos de partida que se tomam sem pensar nos outros e nas consequências. A ética, dizia, não existe sem a razão e esta, por sua vez, não está dada de uma vez por todas, não é axiomática: é argumentativa. É pela argumentação que se chega a resultados comuns e quanto mais comuns estes são, mais próximos estão da valia ética por serem razoáveis. O consenso alicerça-se, portanto, em regras não universais mas universalizáveis. Sem pontos comuns não há consenso possível.

É precisamente isto que o comunismo exclui. A ética comunista é um instrumento para chegar a um objectivo, não uma escolha independente. Os argumentos não valem por si mas só enquanto estão alinhados com o objectivo à partida determinado ou seja, com o compromisso e em seu nome torce-se a realidade. Não chega para fundamentar uma ética.

Os comunistas não têm qualquer autoridade moral. A moral precisa de referências. Mas para eles a única referência é a do endeusado partido, dito «colectivo», senhor absoluto da classe operária e dos outros «democratas» que transitoriamente admitem ao seu serviço.