Fala-se dos clássicos no futebol nacional, fala-se dos encontros nas competições europeias, fala-se pouco ou nada de eleições. Numa viragem completa de paradigma em relação ao que acontecia há não muito tempo, o sufrágio de 2024 do FC Porto centrou todas as atenções durante várias semanas perante o desafio de André Villas-Boas a um líder com mais de quatro décadas no poder chamado Pinto da Costa e as eleições de 2025 do Benfica tiveram um foco ainda maior perante o número recorde de seis candidatos, a possibilidade de uma segunda volta (que se confirmou) e registos sem precedentes a nível de votação. No Sporting, esse clube que de quando em vez parecia um partido político com uma equipa de futebol e modalidades, tudo mudou. E, na antecâmara de novo ato eleitoral, existem apenas duas listas para serem escolhidas pelos sócios.
De certa forma, a campanha, ou o esboço disso mesmo, acabou por ser o espelho disso mesmo. Frederico Varandas, que concorre a uma terceiro mandato consecutivo na liderança dos leões, colocou todo o enfoque nas necessidades do clube, praticamente não fez campanha e reservou para o debate na Sporting TV menos de 48 horas antes das eleições o único momento de posição pública sobre o sufrágio. Bruno Sá, empresário e antigo atleta do clube de 45 anos, foi dando algumas entrevistas, passou por Núcleos de Norte a Sul do País, apostou no contacto direto com associados para encontrar votos e vai ter agora no debate no canal do clube a oportunidade de explicar o porquê da candidatura. O que “esvaziou” a corrida? Os resultados. O sucesso de futebol e modalidades, os exercícios positivos da SAD, o investimento nas infraestruturas ou o aumento de sócios e receitas são reflexos de um mandato mais conseguido do que o primeiro. No entanto, e antes da 11.ª eleição com mais do que um candidato, nem sempre foi assim. Longe disso.
1984. Um hotel, 220 mil contos com o desafio “não aceite” e muitos nomes
Os sócios do Sporting andaram agitados com a campanha de 1984. Mais não fosse, pela novidade – nunca tinham vivido uma situação assim. João Rocha partia como favorito no sufrágio, até por ter mais de uma década de trabalho para mostrar. Por isso, o empresário não estava a preocupar-se muito até que Marcelino de Brito começou a largar cartadas para ganhar votos. Inicialmente, prometeu construir um hotel junto ao estádio para que a equipa estagiasse antes dos jogos; depois, voltou-se para o futebol. E choveram nomes.
Arthur Cox, técnico inglês que tinha conseguido a promoção do Newcastle ao primeiro escalão, era o escolhido para o comando técnico. Reforços? Para início de conversa, cinco: Craig Johnston, médio sul-africano que ganhara três campeonatos pelo Liverpool; Nico Claesen, avançado belga que brilhara no RFC Seraing; Jorge da Silva, dianteiro internacional uruguaio que estava no Valladolid; e a dupla Serra-Dito, na altura no Sp. Braga. Para o caso de não chegar, outra novidade – teria 220 mil contos para resolver os problemas do clube. Foi nesta altura que João Rocha reagiu e, numa jogada de mestre, disse alto e bom som que, se o adversário mostrasse os 220 mil contos, sairia da corrida e seria seu apoiante – algo que nunca aconteceu, como o líder em funções já antevia. Ao mesmo tempo, chegou a acordo com o galês John Toschak (antigo jogador do Liverpool que na altura comandara os galeses do Swansea) e garantiu Jaime Pacheco ao FC Porto (ainda tentaria António Sousa, com sucesso, e João Pinto, aqui de forma inglória).
O empresário não tardou a dissipar as dúvidas em relação a quem ganharia aquelas eleições, sendo que conseguia na altura “absorver” quase todas as camadas do eleitorado, dos mais jovens (recorde-se que os seus filhos foram fundadores da claque Juventude Leonina) aos de maior antiguidade. No dia das eleições, os resultados foram conhecidos apenas às seis da manhã, sendo que depois da meia-noite havia muita gente a votar. O Diário Popular tem até um pormenor interessante de reportagem – as filas para exercer o direito de voto só diminuíam à hora em que a RTP estava a transmitir a telenovela. A 29 de junho de 1984, 10.422 associados deram um voto de confiança grande à continuidade de João Rocha: 82,4%.

1988. Perseguições, assaltos e as “unhas de leão” do Bigodes
Jorge Gonçalves era despachante alfandegário e dava nas vistas pelo bigode farto, que funcionou como símbolo da campanha eleitoral de 1988. O Sporting tinha perdido a maior referência enquanto líder (João Rocha) e Amado Freitas não conseguira agarrar o clube, que estava mal em termos desportivos e financeiros. Havia um certo desânimo entre os sócios com o rumo tomado e Gonçalves capitalizou esse estado de espírito com uma frase: “Tenho o sangue verde dos sócios contra o sangue azul dos camarotes”.
Esta foi a primeira vez que alguém decidiu desafiar uma espécie de linhagem dinástica que o Sporting teve. E a campanha acabou por refletir isso mesmo. Andava tudo de coração na boca e sangue na guelra. Junho de 1988 não foi quente, tornou-se escaldante. Em algumas noites, ardeu: António Figueiredo, o coronel “eleito” internamente, foi um dia perseguido após um jogo por uma série de apoiantes de Jorge Gonçalves que lhe fizeram uma espera junto ao carro. Mais tarde, soube-se também que elementos ligados às duas candidaturas foram presos e levados para a esquadra de Telheiras, de madrugada, por terem tentado roubar os dados dos sócios que estavam na sede. António Simões, gerente do Brás&Brás que se tinha predisposto a colocar 600 mil contos no clube, era a terceira via. E ficou à frente de António Figueiredo.
O Sporting estava em ponto de rebuçado para mudar e Jorge Gonçalves deu aos sócios os “rebuçados” em falta para essa viragem. Chamou-lhe “as unhas de leão”. Já depois de ter trazido Frank Rijkaard a Lisboa – estamos a falar na altura de uma das maiores promessas do Ajax –, foi continuando a lançar nomes e nomes: os médios Douglas (internacional brasileiro com passagens por Cruzeiro e Portuguesa), Silas (internacional brasileiro do São Paulo), Darío Siviski (internacional argentino do San Lorenzo) e Carlos Manuel (que tinha saído do Benfica para o Sion), além do guarda-redes Rodolfo Rodríguez (internacional uruguaio do Santos) e do avançado Eskilsson (sueco do Hammarby). Sobre o treinador, nenhuma palavra. Mas todos sabiam que António Morais teria os dias contados, pela preferência que tinha por Manuel José (antes ainda veio Pedro Rocha mas o uruguaio acabou por não durar muito tempo em Alvalade).
A 24 de junho de 1988, as filas para o antigo pavilhão (onde está agora o Metro do Campo Grande) tinham centenas e centenas de metros. Todos os caminhos iam dar a Alvalade, dentro daquele espírito de carolice em que muita gente ia buscar os amigos a casa para votarem. Não havia desculpas para alguém não exercer o seu voto. Essa seria mesmo a maior votação de sempre a nível: 17.093 sócios exerceram o direito de voto até depois da meia-noite. Mais uma vez, os resultados só foram conhecidos a altas horas da madrugada. E os 72,3% de Jorge Gonçalves não deixaram dúvidas. Pelo menos, durante um ano…

1989. O banho do “Rei das Águas” depois de não haver fumo branco na Fundação Oriente
Jorge Gonçalves entrou numa espécie de lei de Murphy onde tudo o que podia ter corrido mal correu pior ainda: no futebol, nas modalidades ou nas finanças, o Sporting viu-se mergulhado numa grave crise que, após a demissão em bloco da Direção, obrigou a Assembleia Geral a convocar novas eleições apenas um ano depois. Em 1984 tinham sido dois candidatos; em 1988, três; agora, foram a votos quatro listas… incluindo o próprio Jorge Gonçalves e um vice-presidente do seu elenco, Miguel Catela, que teria pouco mais de 1%.
António Simões voltou a apresentar-se a sufrágio mas várias personalidades do clube de diferentes áreas (política, economia, sociedade etc.) juntaram-se como se fossem quase um Conselho Leonino de antigamente para escolherem um candidato mais abrangente, mesmo tendo em conta que Jorge Gonçalves “esvaziara” o poder do órgão ao passar nos Estatutos para um mero órgão consultivo. Muitos nomes foram ventilados nas (pouco) conhecidas reuniões na Fundação Oriente, por exemplo, até que Sousa Cintra avançou (antes falara-se de Pedro Santana Lopes, Carlos Monjardino e Reymão Nogueira, entre outros), ganhando de forma tranquila perante uma oposição que nunca se organizou nem conseguiu convencer os associados.
Foram feitas algumas promessas, falou-se de jogadores, mas a campanha foi relativamente calma a partir do momento em que o “Rei das Águas”, como era chamado, se atravessou com a fortuna pessoal, em caso de necessidade, e ninguém contestou essa intenção. Em paralelo, Cintra garantiu que Luís Figo e Emílio Peixe, dois dos maiores talentos da formação, não iriam para o Benfica. E não foram. Afinal, ele tinha o perfil certo naquele contexto: um misto de populismo (que conseguia apanhar aquele eleitorado que tinha votado Gonçalves em 1988, quebrando a série de “eleitos”) e provas dadas (pela vida empresarial). A 23 de junho de 1989 a invasão a Alvalade foi quase tão grande como no ano anterior (15.299 votantes) e Sousa Cintra venceu por larga margem (65%). O Sporting entraria então num período de maior acalmia eleitoral e nos sete atos seguintes só uma lista foi a sufrágio, com o empresário a fazer três mandatos de dois anos.

2006. E, de repente, os números e o património entraram no léxico leonino
Os sócios só voltariam a ser chamados às urnas para escolherem entre mais do que um candidato em 2006, altura em que a grande discussão era entre António Dias da Cunha, presidente até outubro de 2005 após a saída de José Roquette em 2000, e Filipe Soares Franco, que deveria ocupar o cargo só até às eleições mas decidiu recandidatar-se às mesmas, contrariando a vontade do antigo líder em proporcionar a Ernesto Ferreira da Silva esse estatuto. O universo verde e branco estava remetido a uma realidade onde já não se falava de jogadores e treinadores mas sim de números e património. Antes, Pedro Santana Lopes, José Roquette e Dias da Cunha tinham sido presidentes por eleição com lista única e/ou cooptação.
Filipe Soares Franco defendia que o Sporting deveria fazer uma reestruturação financeira tendo como base a venda do património não desportivo (Alvaláxia, Holmes Place, clínica CUF e edifício Visconde de Alvalade), que renderia um valor a rondar os 50 milhões para abater dívida e melhorar as taxas de juro. Já Sérgio Abrantes Mendes, desde sempre contra aquilo que se intitulou o “Projeto Roquette”, argumentava que o objetivo do adversário era transformar o Sporting num clube apenas de futebol, ao mesmo tempo que se rodeava de figuras carismáticas do universo verde e branco como Manuel Fernandes Jordão ou Oceano. Pelo meio, a equipa de futebol liderada por Paulo Bento, que rendera José Peseiro logo à sétima jornada de 2005/06, ganhava jogos de forma consecutiva com vários jovens da formação. O título era uma possibilidade real. E isso, mesmo não se confirmando no final da época, também teve uma relevância grande no escrutínio.
A 28 de abril de 2006 a afluência ficou um pouco aquém das expectativas mas Soares Franco conseguiu uma vitória esmagadora com 74,2%, contra 25,3% de Abrantes Mendes e 0,5% de Guilherme Lemos, um “ilustre” desconhecido que não teve a mínima hipótese de aparecer. A ideia de continuidade de projeto acabou por prevalecer, com tudo aquilo que a percentagem de Abrantes Mendes representava nos “descontentes”.

2009. Bento forever, Eriksson… never – ou como os últimos dias podem tirar votos
O tabu de Soares Franco prolongou-se durante meses mas o líder acabou por anunciar a saída do clube em 2009. Todos sabiam que, quem saísse desse nicho do eleitorado seria de certeza o futuro presidente, até porque o futebol do Sporting com Paulo Bento, mesmo sem ganhar o Campeonato (que foi até à última jornada em épocas como a de 2006/07), ia todos os anos à Champions e conquistara duas Taças de Portugal e outras tantas Supertaças. Por isso, muitos foram aqueles que se perfilaram para avançar nos bastidores. Pedro Pinto Souto e Dias Ferreira ainda anunciaram a intenção publicamente, mas acabaram por cair. Outros, como Rogério Alves ou Ernesto Ferreira da Silva, nem a esse patamar chegaram. E foi nesse contexto que acabou por aparecer José Eduardo Bettencourt, a figura conciliadora que se chegou à frente.
Bettencourt conseguia não só garantir a continuidade do trabalho feito até então – até por ter estado na equipa da SAD no último Campeonato, em 2002 –, mas também chegar a uma franja do universo verde e branco a que Soares Franco, por exemplo, não conseguia: todos reconheciam ser um fervoroso adepto do clube, daqueles que vai de cachecol para os estádios e que seguia de quando em vez as modalidades. Nem o facto de assumir que seria o primeiro presidente remunerado lhe tirou votos, também porque tinha “Paulo Bento forever”. Do outro lado surgiu uma figura conhecida da sociedade mas não pela ligação ao Sporting: Paulo Pereira Cristóvão, antigo inspetor da PJ que tinha estado envolvido no mediático “caso Joana”. Com uma lista jovem mas com algumas ideias disruptivas, tentou combater aquilo que seria uma corrida desigual com uma postura séria, credível e de aproximação aos sócios. Como Bettencourt sempre se recusou a fazer um debate, tinha de aproveitar as entrevistas que ia dando para mostrar qualquer coisa de novo ou “diferente”. Ainda assim, todas as sondagens continuavam a dar larga vantagem ao adversário.
Quando arriscou… piorou tudo: ao anunciar Sven-Goran Eriksson como treinador, gerou-se uma novela estéril sem razão durante dois dias, com a imprensa a colocar em causa esse acordo, quando Cristóvão tinha fotografias da assinatura de contrato com o sueco (que não revelou logo por uma questão de reserva, algo que aconteceu depois de forma natural). Isso prejudicou-o. Tanto como a possibilidade de contratar Pavel Nedved, Fabrizio Miccoli ou Juninho Pernambucano, como surgiu nos jornais na véspera do sufrágio, quando grande parte, ou mesmo todos, já tinham decidido o sentido de voto. A 5 de junho, Bettencourt venceu de forma esmagadora com 90,4%, entre um eleitorado de 11.360 votantes, numa noite estranhamente calma em Alvalade e que terminou com o novo presidente a saltar de cachecol nas mãos no auditório Artur Agostinho e Paulo Pereira Cristóvão a dizer que “Bettencourt era o presidente de todos os sportinguistas”.

2011. Cinco treinadores, 25 jogadores e uma noite (e madrugada) de terror e caos
Bettencourt durou apenas um ano e meio na presidência do Sporting. Falhou, em toda a linha: desportiva, financeira (apesar de ter fechado uma reestruturação que seria depois revista), de militância. Quase tudo correu mal apesar do contexto para que quase tudo corresse bem. Em janeiro de 2011 demitiu-se, tendo sido marcadas eleições para março. Não havia nenhum paradigma que não estivesse em causa nesta altura. O “Projeto Roquette”, acima de todos. Era um momento vital no Sporting. Entre as candidaturas prometidas, ameaçadas e confirmadas, os sócios verde e brancos teriam de escolher entre cinco nomes. Cada um com o seu treinador, os seus jogadores e as suas promessas – o clube tinha regredido aos anos 80, numa espécie de vale tudo sem mãos nem ringue. Para “ajudar”, foi nesta campanha que se realizaram os primeiros debates entre candidatos, algo que seria a chave para bipolarizar a luta entre Godinho Lopes, antigo dirigente com o pelouro do património, e Bruno de Carvalho, “desconhecido” que tinha estado no hóquei do clube.
Godinho Lopes conseguiu juntar várias personalidades na sua lista, entendendo que esta seria a única forma de dar uma segunda vida ao trabalho que tinha começado em 1995. Assim, foi com alguma surpresa que Carlos Barbosa, Paulo Pereira Cristóvão, Nobre Guedes e Rogério Alves, entre outros, formaram equipa com o apoio também de José Maria Ricciardi. As cartadas, essas, foram lançadas logo na apresentação – Luís Duque e Carlos Freitas ficariam com o futebol. O treinador nunca chegou a ser anunciado durante a campanha mas todos percebiam que estava escolhido (Domingos Paciência) e que só não saíra cá para fora porque liderava na altura o Sp. Braga. Nélson, Beto, Vidigal e Manuel Fernandes também regressariam a Alvalade. Jogadores? Falou-se de oito: Garay (central do Real Madrid que viria mais tarde para o Benfica), Rodríguez (central do Sp. Braga), Alex Silva (central do São Paulo), Wendt (lateral do Copenhaga), Zahavi (extremo do Hapoel), Jô (avançado do Manchester City), Hugo Almeida (avançado do Besiktas) e Bobô (avançado também do Besiktas). Como dizia Duque, “havia cheque e vassoura” para mudar o futebol.
Bruno de Carvalho foi a grande surpresa da campanha, com dois momentos-chave que o catapultaram como principal adversário de Godinho Lopes: o primeiro debate entre todos os candidatos e uma sondagem feita por um jornal desportivo em dia de jogo em Alvalade, que o colocou colado ao antigo vice-presidente. Depois de apresentar investidores russos para um fundo de 50 milhões (que proporcionaram imensas notícias, a maioria delas numa ótica negativa, mesmo depois de ter mostrado quem eram e o que faziam numa conferência em Moscovo), escolheu os ex-campeões Augusto Inácio e Virgílio para o futebol, que seria comandado pelo neerlandês Marco Van Basten. De jogadores, apenas três nomes vieram para a imprensa: Breno (central do Bayern), Vágner Love (avançado do CSKA Moscovo) e um tal de Bruno César, médio do Corinthians, que passaria mesmo por Alvalade mas mais tarde… e depois de ter jogado no Benfica com Jesus.

Dias Ferreira também apostou forte no futebol, escolhendo Paulo Futre para diretor desportivo. Ainda hoje a conferência de apresentação do antigo jogador é recordada, num dos episódios mais surreais da campanha. Frank Rijkaard seria o treinador, numa linha da escola neerlandesa e do Barcelona, e os jogadores referenciados eram pelo menos 12, apresentados por Futre com currículo, situação contratual e, em alguns casos, passaporte: Stekelenburg (guarda-redes do Ajax), Breno (central do Bayern), Taiwo (lateral do Marselha), Wendt (lateral do Copenhaga), Drenthe (ala do Hércules), Donadel (médio da Fiorentina), Trochowski (médio do Hamburgo), Pedro Léon (extremo do Real Madrid), Elia (extremo do Hamburgo), Canales (médio ofensivo do Real Madrid), Bojan (avançado do Barcelona) e Bryan Ruíz, médio ofensivo/avançado costa-riquenho que na altura jogava no Twente e que assinou mais tarde pelos leões. Além disso, havia o célebre jogador chinês, o melhor da atualidade, que iria trazer charters para Alvalade.
Pedro Baltazar, ao contrário de Bruno de Carvalho, perdeu espaço após o primeiro debate. Ainda assim, o maior investidor da SAD na altura não se coibiu também de apresentar o novo elenco para o futebol, com José Couceiro na estrutura e Zico como treinador. Possíveis reforços seriam quatro: Santon (defesa do Inter), Pedro Léon (extremo do Real Madrid), Adriano (avançado da Roma) e Quaresma, a grande aposta, então no Besiktas. Por fim, Sérgio Abrantes Mendes acabou por ser secundarizado pela postura nos debates, onde nunca quis entrar em discussões “em nome da verdade e contra o populismo”. Além de contar também com Couceiro para o futebol, via em Dunga o melhor treinador para recuperar o Sporting – apesar de ter conseguido entrar em contacto indireto com o técnico italiano Marcelo Lippi, sem sucesso – e apontava a dois avançados em caso de triunfo nas eleições: Miroslav Klose (Bayern) e Elmander (Bolton).
A noite eleitoral de 26 de março de 2011 ficou perpetuada como um dos momentos mais negros da história verde e branca. Depois de um dia onde houve alguns momentos de tensão entre listas e apoiantes, a sondagem à boca das urnas apresentada pelo jornal Record pouco depois das 20h00 deixou tudo e todos em alerta: Bruno de Carvalho seria o próximo presidente do Sporting. No entanto, e numa observação mais atenta, percebia-se que a diferença era de 0,2%, o que numa sondagem corresponde a empate técnico. Centenas de pessoas apoiantes do gestor começaram a juntar-se no interior e no exterior do hall VIP gritando “Acabou-se o tacho!”, enquanto nos camarotes disponibilizados para cada candidatura havia um ambiente de cortar à faca. Aos jornalistas chegava a informação de uma vitória de Bruno de Carvalho por 400 votos.
A altas horas da madrugada, Godinho Lopes era dado como vencedor. Mas ao mesmo tempo, Eduardo Barroso, da lista de Bruno de Carvalho, tinha ganho a Assembleia Geral. Gerou-se a confusão. A informação, que começou a correr em todo o lado, foi uma espécie de “gatilho” para episódios de violência. Quando o novo presidente, escoltado por dezenas de polícias e seguranças, tentou ir ao palanque discursar, houve tentativas de invasão e agressões entre associados. Choveram pedras e garrafas. E Godinho Lopes teve de refugiar-se de novo no Estádio José Alvalade, com Bruno de Carvalho a vir ao exterior pedir calma aos apoiantes. O líder não tinha tomado posse e já muitos pediam a sua demissão. O ato ainda foi alvo de uma providência cautelar mas não havia nada a fazer. Ainda hoje são muitos aqueles que não acreditam na transparência do sufrágio, sobretudo pelas cerca de 400 pessoas que pagaram quotas no dia, não passando pela zona de controlo onde passaram os 14.619 votantes, e pelas diferenças entre os votos e os votantes entre o que estava expresso em urna e nos cadernos eleitorais. Mas o que nasceu torto nunca se endireitou.
2013. Os votos ensopados e os carimbos de restaurante entre o fantasma de um PER
Quase dois anos depois, o Sporting estava novamente mergulhado numa grave crise diretiva, além da pior prestação de sempre no Campeonato. Já tinham entrado e saído dirigentes, técnicos e jogadores. Os resultados da SAD eram constantemente negativos. Uma confusão sem precedentes, adensada pelas acusações de golpe de Estado da Direção a Daniel Sampaio, vice da Assembleia Geral (que recebeu elementos das claques num escritório no Saldanha). Até que Godinho Lopes, no rescaldo de uma novela à volta de uma Assembleia Geral extraordinária, acabou por demitir-se com uma tesouraria que, não fosse a venda feita de forma antecipada de Ricky van Wolfswinkel para Inglaterra por dez milhões de euros, estava em sério risco. Bruno de Carvalho voltou a avançar. Carlos Severino, ex-jornalista que tinha sido diretor de comunicação do Sporting, também o fez. Faltava o “outro” – e foram várias as tentativas. De Luís Figo a Rogério Alves, muitas personalidades foram sondadas para avançar com uma candidatura, tendo a garantia do apoio da banca nessa ação. José Couceiro, ex-treinador e diretor do futebol, chegou-se à frente. E foi um combate renhido.
Bruno de Carvalho manteve a estrutura para o futebol mas adotou uma postura bem mais contida ao longo da campanha, como se percebeu na questão do treinador: mesmo sabendo que Jesualdo Ferreira, na altura técnico dos leões, não seria para continuar, defendeu sempre a estabilidade da equipa e não falou de qualquer nome. A sua prioridade era, sobretudo, mostrar que tinha um plano para resgatar o Sporting sem necessidade de enveredar por um PER (Processo Especial de Revitalização) que poderia afastar o clube das competições europeias pelo menos uma época. Já José Couceiro foi defendendo que teria o cariz certo para assumir a liderança porque o futebol devia estar entregue às pessoas que por lá tinham andado, um pouco à semelhança do modelo adotado pelo Bayern. Em paralelo, e para não ser visto como a “continuidade”, assegurou que ninguém da SAD iria transitar para um novo mandato, ao mesmo tempo que mostrou abertura para a entrada de investidores, mesmo se o clube, no limite, perdesse a maioria do capital.
Na estreia do voto eletrónico e do voto por correspondência, a 23 de março de 2013, nem tudo correu bem e, mais uma vez, teve de esperar-se pelas duas da manhã (já depois de uns pequenos incidentes em redor do estádio) para se saber o vencedor. Razões? Apesar de ser fácil saber em dez minutos os resultados do voto eletrónico, os votos por correspondência só começaram a ser contados após o fecho das urnas e com um cuidado extra, além do reconhecimento de assinaturas de notário ou advogado – uma inundação nos correios tinha deixado em muito mau estado os envelopes. Curiosidades: havia votos com carimbos, por exemplo, de restaurantes; e 400 duplicações, de pessoas que votaram por envelope e de forma presencial. A noite acabou com Bruno de Carvalho a ouvir no auditório Artur Agostinho que era o novo presidente e a sair para a rua, junto dos seus apoiantes, gritando “O Sporting é nosso outra vez!”.

2017. Uma luta que esteve inquinada e que até teve direito a imitações
O primeiro mandato de Bruno de Carvalho teve o condão de esvaziar possíveis focos de contestação que assumissem o risco de ir a votos contra si sabendo que era uma luta complicada de travar. Ainda houve muitas conversas entre mais pessoas do que na altura se poderia pensar, que entendiam que deveria haver um regresso ao passado em termos de projeto e costumes, mas acabou por ser Pedro Madeira Rodrigues, gestor que deixou então a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa para concorrer, a surgir como único candidato frente ao então número 1 do Sporting numa fase em que a realidade do clube era diferente.
Com uma estrutura nova para o futebol pronta para entrar em caso de triunfo, com Juande Ramos no lugar de Jorge Jesus, Laszlo Bölöni como coordenador geral e Delfim como team manager, Madeira Rodrigues foi tentando passar a ideia de que era possível fazer tanto ou mais ainda assente num outro estilo de liderança, com menos guerrilha e veia bélica, mas Bruno de Carvalho, escudado pelas promessas cumpridas como a reestruturação financeira, a criação da Sporting TV, o Pavilhão João Rocha ou aumento do número de associados, esteve sempre na frente, imagem que se adensou no único debate entre ambos que aconteceu na Sporting TV. Mais tarde, o líder que seria depois destituído fez uma “imitação” do adversário.
Os últimos dias tiveram algumas trocas de acusações mais graves, mas as eleições ratificaram de forma inequívoca a continuidade de Bruno de Carvalho, que venceu com um total de 86,13% contra apenas 9,49% de Madeira Rodrigues. No entanto, pouco mais de um ano depois e num ato inédito na história do Sporting, o então presidente, desgastado por vários episódios de confrontos internos e pela invasão à Academia de Alcochete que funcionou como último capítulo no seu reinado, foi destituído em Assembleia Geral Destitutiva no MEO Arena, ficando o clube leonino nas mãos de uma Comissão de Gestão transitória.

2018. Recorde de listas, recorde de debates e um vencedor com menos votantes
Acabaram por ser seis, podiam ter sido sete, pouco antes estiveram para ser quase dez. A crise institucional que se abateu sobre o Sporting no seguimento da invasão à Academia em Alcochete teve o condão de tornar as eleições de 2018 na corrida mais concorrida de sempre – e só não foi mais porque Bruno de Carvalho não teve autorização para voltar a concorrer apesar de todos os recursos que foi apresentando e porque Carlos Vieira, antigo vice com a pasta das finanças, viu também recusada a possibilidade de entregar as listas aos órgãos sociais que estavam prontas também por se encontrar suspenso da condição de associado, num processo disciplinar que foi conduzido antes das eleições e que sancionou todos os elementos que estavam então nos órgãos sociais liderados por Bruno de Carvalho e que não apresentaram a sua demissão. Pedro Madeira Rodrigues, que tinha essa “bandeira” de ter sido o único a desafiar o antigo líder, estava a ponderar entrar de novo na corrida mas, na fase decisiva, acabou por desistir pela falta de “espaço”.
Assim, e apesar de todas as diligências para encontrar pontos de contacto que pudessem promover a união ou fusão de listas sobretudo envolvendo aqueles que seriam os três candidatos mais votados, o Sporting teve pela primeira vez uma luta a seis pela liderança: Frederico Varandas, que saiu do comando do departamento médico na sequência da invasão a Alcochete, foi o primeiro a anunciar uma candidatura ainda em maio numa fase em que muitos grupos tentavam ainda encontrar uma solução “presidenciável”, João Benedito colocou-se também cedo na corrida, José Maria Ricciardi não gostou dos cenários em cima da mesa e pela primeira vez protagonizou ele próprio uma lista depois de integrar vários elencos anteriores, Dias Ferreira entendeu que os leões atravessavam uma crise demasiado grande para ficar de fora, Fernando Tavares Pereira e Rui Jorge Rêgo foram as cartas que saíram do círculo “habitual”. Havia gostos para tudo e todos.
Houve muitas mais opções colocadas na órbita verde e branca. Tomás Froes, João Viegas Soares e Paulo Lopo foram três nomes falados, Miguel Poiares Maduro recusou a possibilidade de envolver-se de forma direta na corrida, Artur Torres Pereira e Sousa Cintra tiveram sondagens para transformarem a Comissão de Gestão numa lista. A discussão seria intensa, com essa particularidade de pela primeira vez envolver dois debates com todos os candidatos, duelos 1×1 na Sporting TV e muitas entrevistas em todos os canais de informação do cabo. Varandas parecia ganhar vantagem, por ter sido o primeiro a avançar e por ter nomes de peso consigo numa “máquina” que arrancou antes de todas as outras, mas o confronto direto com Ricciardi acabou por colocar mais dúvidas em relação a um triunfo face ao crescimento que Benedito tinha. Em termos genéricos, os mais novos estavam com o antigo capitão de futsal, que se encontrou durante a campanha com a estrutura do Bayern para perceber o funcionamento do clube, e se o eleitorado mais “velho” (ou com mais votos) começasse a cair muito para Ricciardi, a margem do médico poderia ficar reduzida.
Não foi isso que aconteceu, no epílogo de semanas de duelos que tiveram nos últimos dias movimentações que fizeram a diferença. Numa fase em que todos os órgãos eram votados em conjunto, tirando a possibilidade de haver um Conselho Fiscal e Disciplinar eleitor por método de Hondt, Varandas conseguiu agarrar os associados com mais votos também pelo discurso mais bélico que Ricciardi foi tendo e foi isso que fez a diferença num sufrágio onde, pela primeira vez, o presidente eleito teve menos votantes do que o segundo classificado, João Benedito: a lista A teve mais 1.018 votantes do que a lista D (9.735-8.717) mas a lista D conseguiu ter quase mais 6.000 votos (45.019-39.187), ganhando com 42,32% contra 36,84%.

2022. Dois nomes por motivos distintos e a “cartada” de Varandas que valeu goleada
Houve um antes e um depois da chegada de Ruben Amorim ao longo dos quatro anos do primeiro mandato de Frederico Varandas, a ponto de, na estreia do novo treinador da equipa de futebol em Alvalade frente ao Aves, o dia ter ficado marcado por uma manifestação com milhares de adeptos que pediam a demissão de toda a Direção. A divisão entre a massa associativa era notória, com o número de pessoas que apoiavam o presidente eleito tendencialmente a diminuir com o aumento da contestação. Depois, tudo mudou: os leões quebraram o maior jejum sem vitórias no Campeonato em 2021, as modalidades conseguiram vários títulos internacionais, as contas da SAD foram estabilizando apesar dos desafios advindos da pandemia de Covid-19. Ainda assim, houve mais duas caras novas na corrida contra o recandidato Frederico Varandas.
Por um lado, Nuno Sousa acabou por encabeçar uma lista que nasceu do grupo de reflexão “Movimento Sou Sporting” e que pretendia ir buscar ainda uma “ala brunista” para a partir daí entrar em choque com aquilo que tinha sido desenvolvido por Varandas sobretudo até março de 2020. Por outro, Ricardo Oliveira, gestor e presidente da Federação Portuguesa de Padel, contava com alguns nomes “sonantes” dentro do universo verde e branco para apresentar projetos que fossem disruptivos para o clube incluindo um empréstimo de 200 milhões de euros a uma taxa de juro melhor que permitisse não só recuperar os VMOC mas também renegociar a dívida e projetar uma nova Cidade do Desporto. Varandas, esse, pouca ou nenhuma campanha fez: deu uma entrevista na CNN Portugal, fez duas aparições públicas em Núcleos, defendeu os sucessos desportivos alcançados no único debate promovido na Sporting TV e guardou uma última “cartada”.
Na antecâmara do ato eleitoral, a Direção anunciou um acordo para a recompra da maior parte dos VMOC que eram pertença do Millennium BCP, algo que acabaria depois por alargar-se ao Novo Banco. Ou seja, e quando se falava nesse “fantasma” da perda da maioria do capital social da SAD, o Sporting garantia quase 90% das ações e com isso, em paralelo, reduzia aquilo que era o peso da Holdimo na sociedade. Se dúvidas ainda existissem, a vitória ganhou outro “volume” com um triunfo por claros 85,8% que só não foi maior porque, perante o resultado mais do que anunciado, foram votar “apenas” 14.795 em 54.000 sócios.

Este artigo é uma atualização do compêndio feito na altura das eleições do Sporting em 2017
https://observador.pt/especiais/eleicoes-no-sporting-as-noites-longas-com-esperas-assaltos-e-invasoes/