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412.830 - É falsa toda a segurança do centro-esquerda

Os 412 803 votos não são apenas um crescimento estatístico de André Ventura entre as duas voltas presidenciais. São um potencial rombo eleitoral na AD

Tomás Cunha
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O país real foi a votos nas presidenciais e deixou um recado simples, mas tóxico para quem ainda pensa em “maiorias naturais”: Portugal já não está organizado na velha linha esquerda/direita.

O que estas presidenciais mostraram não foi uma maioria pronta a governar por soma de Chega + AD. Mostraram um centro que, no momento decisivo, preferiu encostar-se ao PS a legitimar o Chega — e fez isso de forma pública, sem vergonha e sem drama, como quem assina um recibo.

A ideia de que a direita tinha um quadro parlamentar e eleitoral que nunca fora tão favorável porque bastava somar partidos, assenta num pressuposto que as presidenciais queimaram com ácido: a AD e a IL não se comportam como aliados naturais do Chega.

Se existisse um “bloco de direita” somável, então, numa escolha binária, o centro-direita teria convergido para Ventura como destino natural. Não convergiu. O centro preferiu o socialista.

Isto é politicamente enorme: significa que, na linguagem prática do poder, a liderança da AD e IL está mais perto do PS do que do Chega — pelo menos quando o custo é legitimar o Chega como alternativa de poder.

Logo, a fotografia verdadeira não é “direita versus esquerda”. Hoje há três blocos com gravidades próprias. É isto:

• Um bloco de direita que, na prática, é o Chega:, identitário, plebiscitário, pró-vida (contra ideologia do género, aborto e eutanásia), feito para ganhar pelo choque e pelo contraste.

• Um bloco de centro, a AD:, institucional, burocrático, gestor, ambíguo no âmbito dos valores, obcecado com o risco reputacional e com a palavra “responsabilidade”.

• Um bloco de esquerda, liderado pelo PS, próximo da ideologia woke (pró-aborto, eutanásia e ideologia de género), ao qual a extrema-esquerda se junta quando é preciso fechar fileiras para impedir o Chega.

Esta divisão tem uma consequência imediata: em Portugal, o centro pode impedir a direita (Chega) juntando-se à esquerda. E pode impedir a esquerda juntando-se à direita? Em teoria, sim. Na prática, fica preso à sua própria aversão ao Chega. Ou seja: o centro fica com poder de veto, mas perde capacidade de liderança. E isso abre espaço para o Chega crescer por dentro do eleitorado do centro.

E é aqui que entra o número que interessa: 412 803.

O rombo eleitoral

Entre a 1.ª e a 2.ª volta, André Ventura passou de 1 326 942 para 1 739 745 votos. Mais 412 803. Chamem-lhe “dinâmica de segunda volta” se precisarem de uma expressão com ar solene. No mundo real, chama-se outra coisa: um rombo eleitoral — e a fatura, por defeito, cai no colo da AD.

Porque estes 412 803 votos não são um presente caído do céu, nem uma geração espontânea de patriotas indecisos. São votos com morada anterior. Estavam noutro lado na primeira volta e, quando o boletim foi reduzido a duas opções — sem saídas de emergência, sem candidatos “para enviar mensagem”, sem voto ornamental — mudaram de mãos. Isto é o que interessa. Não é poesia; é mecânica.

E, por simples geografia política, a explicação mais plausível não está à esquerda. A esquerda não tem massa nem vocação para oferecer meio milhão de votos a quem quer derrotar. A esquerda, quando fecha fileiras, fecha-as para o seu lado. Quem tem massa disponível, quem tem incentivos claros (voto útil, voto contra o PS, voto de castigo ao “centrão”) e quem tem o eleitorado suficientemente elástico para fazer este tipo de “transferência de última hora” é o centro-direita — o universo onde a AD costuma ir buscar oxigénio.

A AD pode apontar para o boletim das legislativas e dizer: “ainda estamos à frente”. Está. É como um banco a dizer “a conta ainda tem saldo” no próprio dia em que descobre uma fuga enorme no cofre. O rombo não está refletido no número oficial das legislativas de 2025; está no comportamento de 2026. Está no preciso momento em que gente que passava a vida a repetir “não voto nisso” descobriu, na prática, que afinal vota. Bastou a escolha ser binária e o tabu transformar-se num instrumento.

É aqui que o contraste dói: um partido de centro vive de hábito, de automatismo, de “em caso de dúvida, vota-se pelo seguro”. Desta vez, a ironia foi literal: o candidato do centro-esquerda chamava-se mesmo Seguro. Só que estas presidenciais mostraram uma coisa desconfortável para a AD — “Seguro” já não é sinónimo de “centro”, é apenas o nome do adversário. Mostraram que o centro deixou de ter exclusividade sobre o eleitor descontente à direita. E quando o centro perde exclusividade, perde o seu superpoder: a capacidade de ser o destino automático de quem não quer “aventuras”.

O estrago, portanto, não é apenas contabilístico; é psicológico. Uma fronteira foi atravessada. E fronteiras atravessadas uma vez deixam de ser muralhas — viram portões. Na primeira vez, o eleitor sente que está a cometer uma heresia. Na segunda, sente que está apenas a repetir uma escolha que já justificou a si próprio. A primeira travessia custa reputação; a segunda custa muito menos.

Quem acha que isto é “só uma segunda volta” está a confundir termómetro com febre. O termómetro marcou 412 803. A febre é esta: o tabu já não protege o centro.

A conta que destrói a tranquilidade

A AD teve 1 971 558 votos nas legislativas.

A distância entre essa “régua” e Ventura foi:

644 616 votos na 1.ª volta (1 971 558 − 1 326 942)
231 813 votos na 2.ª volta (1 971 558 − 1 739 745)
Ou seja: o fosso encurtou violentamente.

Agora o exercício que assusta porque é demasiado simples:

Se os 412 803 são, em termos políticos, um rombo no universo AD (isto é, votos que o centro-direita deixou escorrer para Ventura num confronto binário), então a AD “descontada” desse rombo ficaria em:

1 971 558 − 412 803 = 1 558 755

Compare-se com o patamar que Ventura já atingiu:

1 739 745

Neste cenário, Ventura fica 180 990 votos acima dessa AD “pós-rombo”.

Isto não é futurologia. É a tradução numérica de uma realidade política: se a AD começa a perder eleitores diretamente para o Chega, a disputa pelo primeiro lugar muda de natureza. Já não depende de “o Chega chegar aos 2 milhões”. Depende de a AD cair enquanto o Chega sobe. E quando há transferência direta, cada voto vale por dois: entra num lado e sai do outro.

Porque é que a soma “AD + IL + Chega” é uma fantasia

A ideia de que “as estratégias partidárias deram cabo de um quadro esquerda/direita nunca tão favorável à direita”, parte de um pressuposto que estas presidenciais desmentiram em direto: que AD, IL e Chega pertencem ao mesmo campo operacional. Não pertencem.

Quando a escolha ficou binária, o centro (AD e IL) não se comportou como “direita” no sentido de convergir para Ventura. Comportou-se como centro: preferiu o candidato socialista para travar o Chega. Isso significa, na prática, que AD e IL se consideram mais compatíveis com o PS do que com o Chega em matéria de poder e legitimidade institucional.

Isto é decisivo: a fronteira relevante já não é esquerda/direita clássica. É centro versus direita plebiscitária.

E é por isso que a AD tem um problema: para travar o Chega, aproxima-se do PS; ao aproximar-se do PS, perde nitidez; ao perder nitidez, alimenta o Chega. É uma armadilha circular.

O ponto que torna tudo mais provável: o tabu já foi pago

Muita análise continua presa à ideia de “linhas vermelhas”. Só que uma linha vermelha que é atravessada em eleições nacionais deixa de ser linha; vira memória.

O bloco de direita (Chega) já não precisa de “convencer” o eleitor do centro-direita. Precisa de o reter. E reter é mais fácil do que converter porque o gesto simbólico já aconteceu: já houve um voto Ventura vindo de fora.

O que falta para transformar este rombo pontual numa drenagem estrutural em legislativas? Reduzir o prémio de risco.

Se Ventura moderar o suficiente para que o eleitor emprestado da AD/IL não sinta que está a entrar numa aventura — e se, ao mesmo tempo, explorar a ideia de que o centro é apenas “PS com outro logótipo” — então o rombo de 412 803 não é um acidente de segunda volta. É um ensaio geral.

E aqui vai o ponto mais incómodo: todo o sistema político também ganha se Ventura fizer isso. Porque um Chega que começa a preparar governo com antecedência, com pessoas credíveis e competências reconhecidas, e que abandona parte do radicalismo performativo, torna-se menos histerizável e mais responsabilizável. Obriga os adversários a discutir substância, não demónios. Mas, ao mesmo tempo, torna-se mais votável. A normalização reduz o custo do voto. E quando o custo desce, o eleitor repete.

Conclusão

Os 412 803 votos não são apenas um crescimento estatístico de André Ventura entre as duas voltas presidenciais. São um potencial rombo eleitoral na AD, sem os quais a votação AD nas legislativas fica inferior à de Ventura nas presidenciais: são a demonstração, em condições reais, de que existe uma massa relevante do seu universo capaz de votar Chega quando o sistema aperta. A partir daqui a política portuguesa deixa de ser um debate sobre “maiorias de direita” por soma e passa a ser uma disputa de propriedade: quem manda no eleitorado da direita e do centro-direita?

A AD pode continuar a viver da fantasia de que o Chega é apenas “protesto” e de que tudo volta ao lugar nas legislativas. Mas protestos, quando começam a roubar base eleitoral ao partido do centro, deixam de ser protestos. Tornam-se sucessões.

E este é o ponto final, sem delicadeza: se a AD não fechar este rombo — e rapidamente — o Chega não precisa de conquistar Portugal. Precisa apenas de continuar a conquistar, voto a voto, a direita que já começou a largar a mão do centro.