É fascinante observar como a passagem do tempo e as conveniências do “realismo” político operam milagres na memória e na retórica de quem dirige o Observador.
Recentemente, José Manuel Fernandes e Miguel Pinheiro usaram a página do Observador para fustigar a esquerda portuguesa, acusando-a de um “anti-ocidentalismo visceral” e de uma pureza de “meninos de coro” que desconhecem as “dificuldades labirínticas” da política externa.
Contudo, convém recordar que o suposto pragmatismo que hoje apregoam tem um rasto histórico de destruição que os próprios preferem manter sob uma névoa de esquecimento, bastando recuar a 2003 para encontrar José Manuel Fernandes como um dos mais entusiastas arautos da invasão do Iraque.
Na altura, as mentiras sobre as armas de destruição maciça serviram de tapete vermelho para uma catástrofe humanitária (o conflito matou mais de 1 milhão de iraquianos) cujos custos a Europa pagou com uma vaga de atentatos terroristas do Estado Islâmico e uma crise migatória sem precedentes. Quem falhou o diagnóstico de forma tão retumbante no passado, confundindo propaganda com realidade, deveria ser mais cauteloso ao rotular de “patético” quem hoje apela à diplomacia.
Esta geometria variável do Direito Internacional é igualmente visível na dualidade de critérios de Miguel Pinheiro, que se apressa a descartar princípios universais como “sinalização de virtude” quando o agressor é membro da NATO. É curioso notar que, quando a Federação Russa invadiu a Ucrânia, o Direito Internacional e a soberania nacional foram correta e veementemente invocados por estes autores como princípios sagrados, mas perante o bombardeamento do Irão, esses mesmos valores tornam-se subitamente um “mantra” para esconder agendas ocultas.
Não pode existir uma ordem global baseada em regras em que o ataque a infraestruturas civis seja um crime em Kiev, mas um “choque de valores” aceitável em Teerão. Defender a legalidade internacional não é um “tique de Pavlov” anti-americano (até porque a maioria dos norte-americanos se opõe à guerra), mas a única garantia de que a força bruta não se torne o único critério de legitimidade num tabuleiro mundial cada vez mais perigoso. Entendem os autores que Portugal também devia ter defendido a anexação da Gronelândia pelos EUA?
O cinismo atinge o seu auge quando se tenta branquear o massacre de Minab, onde o bombardeamento da escola primária Shajareh Tayyebeh matou quase 200 pessoas, na sua esmagadora maioria meninas entre os 7 e os 12 anos. Enquanto Donald Trump tentava, sem provas, atribuir a responsabilidade ao regime iraniano, investigações jornalísticas ocidentais e análises de imagens de satélite indicam que o ataque foi realizado pelos Estados Unidos. A descoberta de restos de um míssil Tomahawk, armamento que o Estado de Israel não possui e que é exclusivo das forças norte-americanas neste conflito, no complexo naval adjacente à escola é uma evidência física que nenhum “realismo” pode apagar.
Chamar “almas sensíveis” a quem se recusa a ignorar o sangue de crianças sobre murais escolares não é uma crítica política, é uma confissão de falência moral por parte de quem prefere o silêncio perante crimes de guerra.
O alinhamento acrítico de Portugal com estas agressões não serve o interesse nacional. A fatura deste conflito já está a chegar ao bolso dos portugueses, com o aumento recorde do preço dos combustíveis e do gás com as consequências diretas na formação dos preços de bens básicos. Além do choque energético, a inflação na zona euro corre o risco de disparar, o que poderá travar a descida das taxas de juro e agravar as prestações das casas.
Portugal defende os seus cidadãos ao bater-se pelo Direito Internacional, evitando que o país se subjugue a estratégias externas que apenas geram caos e inflação. A diplomacia não é para “meninos de coro”, dizer não a Trump exige a coragem de sobrepor a autonomia europeia aos interesses particulares da Casa Branca, mas também não deve ser um manual para aprendizes de feiticeiro que, depois de incendiarem o Médio Oriente, se surpreendem com o fumo que lhes chega à porta.