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O dilema de Putin no Irão

O que a guerra no Irão revela sobre a Rússia pode acabar por ser mais importante do que aquilo que lhe traz

Manuel Castello Branco
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Com o eclodir da guerra no Irão, a atenção ocidental deslocou-se naturalmente do Leste Europeu para o Golfo Pérsico. Mas olhar para esta guerra de forma isolada, como se as suas consequências se limitassem ao Médio Oriente, seria ignorar ligações fundamentais que já estão a remodelar o conflito na Ucrânia. E talvez mais interessante ainda, seria ignorar a forma como esta nova guerra coloca Vladimir Putin numa posição estrategicamente ambígua, onde os ganhos óbvios escondem custos menos visíveis mas potencialmente mais significativos.

A narrativa mais imediata é simples e, em grande medida, correta. A guerra no Irão parece servir os interesses russos. A competição global por sistemas de defesa antimíssil Patriots intensificou-se dramaticamente nas últimas semanas. Há meses que Zelensky argumenta que sem reforços significativos à defesa aérea ucraniana será impossível parar as ofensivas russas de mísseis e drones que têm devastado infraestruturas críticas e cidades ucranianas. Trump tem negado sistematicamente esses pedidos, mas agora a situação agravou-se. Com ataques iranianos a bases americanas e infraestruturas civis nos países do Golfo, a procura por Patriots disparou. Os aliados americanos na região estão a exigir proteção, e cada sistema desviado para defender Riade ou Dubai é um sistema que não estará disponível para Kiev.

Esta assimetria é profundamente problemática para a Ucrânia porque, enquanto a procura por Patriots se intensifica globalmente, a Rússia mantém a capacidade de produzir internamente os seus drones Shahed, agora sob a denominação Geran. Mesmo que a guerra no Irão dificulte o fornecimento iraniano original, Moscovo estabeleceu linhas de produção domésticas que lhe permitem continuar a lançar salvas massivas. A Ucrânia, entretanto, vê o seu arsenal de intercetores sofisticados a diminuir precisamente quando a competição global por esses mesmos sistemas se torna mais feroz.

Mas a dimensão militar é apenas parte da história, e talvez nem sequer a mais significativa. O encerramento de facto do estreito de Ormuz e os ataques iranianos a infraestruturas de gás natural liquefeito, especialmente no Qatar, provocaram uma subida acentuada dos preços energéticos globais. O orçamento russo para 2026 foi desenhado assumindo que o petróleo se situaria em média nos 59 dólares por barril. Com os preços agora a disparar acima dos 90 dólares, Moscovo está a receber uma injeção financeira substancial precisamente quando a economia russa começava a mostrar sinais preocupantes de deterioração. A economia expandiu apenas 1% em 2025, as receitas de exportação estão a cair, e o défice orçamental não pode ser preenchido com receitas fiscais adicionais numa economia estagnada. Este era o cenário que alguns acreditavam poder eventualmente forçar Putin a considerar seriamente negociações sobre a Ucrânia, não guiado por um genuíno desejo de acabar a guerra mas antes por pura necessidade económica. A guerra no Irão parece ter mudado este cálculo, pelo menos temporariamente.

E a vantagem russa neste campo é dupla. Porque os fluxos russos de petróleo não dependem do estreito de Ormuz, a Rússia está em posição privilegiada para aproveitar a disrupção. Desde 2022, as sanções forçaram Moscovo a reorientar as suas exportações da Europa para a Índia e China, usando rotas através do Báltico, Mar Negro e portos do Pacífico. Em janeiro de 2026,  estima-se que a Índia comprou mais de 30% das exportações russas de petróleo, a China mais de 40%. Quando o estreito de Ormuz fechou, estas economias asiáticas que anteriormente dependiam de petróleo do Golfo ficaram subitamente sem fornecimentos alternativos imediatos. A Rússia reagiu rapidamente para preencher essa lacuna, e até os americanos parecem recorrer ao petróleo russo numa tentativa de baixar os preços globais. Para Moscovo, portanto, a combinação de preços globais mais altos com volumes aumentados vendidos a compradores asiáticos representa um importante alívio orçamental que pode funcionar para adiar ou eliminar a pressão para negociar fim da guerra na Ucrânia.

Esta leitura, contudo, ignora uma complexidade fundamental. Isto porque a guerra no Irão coloca Putin perante um dilema estratégico delicado que não tem solução óbvia. O líder russo precisa de manter algum apoio ao Irão para não ser acusado de abandono total dos seus supostos aliados, mas não pode apoiar demasiado abertamente sem arriscar antagonizar Trump precisamente quando precisa da boa vontade americana para negociar sobre a Ucrânia.

A relação entre Moscovo e Washington nos últimos meses tem sido cuidadosamente calibrada através de sinalizações e ameaças medidas. Quando o Kremlin fez circular a possibilidade de fornecer caças SU-35 ao Irão após a guerra dos 12 dias, Trump respondeu sugerindo que poderia dar mísseis Tomahawk a Kiev. Ambas as ameaças foram retiradas após conversações entre os dois líderes. O Irão funciona, nesta dinâmica, acima de tudo como um instrumento de negociação, uma carta que Putin pode jogar nas discussões sobre a Ucrânia.

Mas se o Irão é uma carta de negociação, essa carta perde valor se for jogada de forma demasiado evidente ou se o regime iraniano colapsar completamente. Apoiar visivelmente o Irão agora transformaria essa tal carta de negociação numa fonte de conflito direto com Washington, eliminando margem para as trocas implícitas que Putin tem procurado estabelecer. Deixar o Irão cair, contudo, revelaria algo que Moscovo tem tentado desesperadamente esconder: a sua fundamental incapacidade de proteger os regimes que dizia serem seus aliados.

Desde o início da guerra na Ucrânia, este padrão tem-se repetido. A Rússia não conseguiu impedir a ofensiva azeri em Nagorno-Karabakh, não salvou Bashar al-Assad na Síria, não evitou o colapso de Maduro na Venezuela. Cada um destes episódios expôs a mesma verdade: a Rússia não é uma superpotência capaz de projetar poder globalmente de forma sustentada, é um Estado cada vez mais limitado que concentra todos os seus recursos numa guerra regional na Ucrânia.

A queda do regime dos Ayatollahs confirmaria definitivamente esta leitura e destruiria qualquer credibilidade residual de Moscovo como parceiro estratégico fiável para outros Estados, nomeadamente na região do Cáucaso e na Ásia Central onde a Rússia tem perdido cada vez mais influência.

Putin tem navegado este dilema fazendo essencialmente o mínimo. Condenou retoricamente os ataques americanos e israelitas, expressou solidariedade com Teerão, e parece ter colaborado na partilha de algumas informações de inteligência sobre localização de ativos americanos para facilitar os ataques iranianos. Mas nada substancial que alterasse fundamentalmente a dinâmica do conflito ou que exigisse desvio significativo de recursos militares. É uma posição de equilíbrio precário: apoio suficiente para não parecer abandono completo, insuficiente para fazer diferença real. E esta ambiguidade, mais do que uma grande estratégia ou parte de algum plano sofisticado cogitado pelo líder russo, reflete sobretudo a sua incapacidade para fazer mais, para afirmar os seus interesses de forma mais furtiva, combinada com a tentativa de preservar alguma margem de manobra nas negociações com Trump.

O contraste com a postura ucraniana é, neste ponto, revelador. Enquanto Moscovo faz o mínimo para não abandonar visivelmente o Irão, Kiev tem desenvolvido uma contraofensiva diplomática inteligente, oferecendo sistemas e expertise ucranianas para ajudar os Estados do Golfo a defenderem-se contra os drones iranianos. Mesmo que as contribuições práticas ucranianas permaneçam limitadas, a sinalização diplomática é significativa, permitindo a Zelensky enquadrar a Ucrânia não como cliente perpétuo, mas como parceiro de segurança emergente cujas capacidades adquiridas em combate podem contribuir para a defesa coletiva em múltiplos teatros. A experiência única oferecida pelos ucranianos em contrariar ataques massivos de drones torna-se, assim, um ativo diplomático que reforça o argumento para integração acelerada nas estruturas Euro-Atlânticas. E implicitamente liga o destino da Ucrânia ao de outros parceiros, apresentando Kiev como um contribuidor líquido para as estruturas de segurança ocidentais.

O que a guerra no Irão revela sobre a Rússia pode acabar por ser mais importante do que aquilo que lhe traz. Expõe um Estado que já não consegue defender aliados quando isso exige custos reais, que instrumentaliza relações em vez de as cultivar, que é forte o suficiente para explorar crises mas não para moldar os seus desfechos. Putin ganha receitas com a guerra no Irão, mas perde margem de manobra estratégica. E, a longo prazo, essa troca pode revelar-se um mau negócio.