Quem vive na região de Setúbal e precisou de serviços de urgência tendo o hospital do Barreiro como unidade de referência sabe bem como funciona mal. O grau de desumanidade é em geral significativo e é vulgar ouvir-se recomendações de evitar o mais possível a ida a esse hospital. Obviamente que, quem consegue, tenta evitá-lo, mas nem sempre é possível e nem todos têm poder de compra para seguir essa recomendação. Não estão em causa os profissionais, mas sim a falta deles e de condições do hospital para a procura que tem.
Os autarcas da região conhecem obviamente o problema que os seus munícipes enfrentam. Mas alguma vez em alguma ocasião manifestaram a sua preocupação com os problemas que lhes eram reportados? Alguma vez, em alguma ocasião, procuraram soluções com o Governo ou em conjunto? Que tenha sido noticiado, nunca isso aconteceu. Ignoraram o problema, como se não existisse.
Mas quando a ministra da Saúde Ana Paula Martins, mal ou bem, tenta mudar alguma coisa, os municípios dão sinal de vida. E os autarcas de Almada, Alcochete, Barreiro, Moita, Montijo, Palmela, Seixal, e Sesimbra e Setúbal, que fazem parte da Comunidade Intermunicipal da Região de Setúbal, tomaram uma posição conjunta por causa da decisão de encerrar as urgências de obstetrícia e ginecologia do hospital do Barreiro, dando lugar à nova urgência regional para a Península de Setúbal. Mais: todos os partidos, pelo menos no Barreiro, assumiram-se contra o encerramento daquela urgência.
Dizem os autarcas que é essencial perceber a estratégia que acompanha essa transformação na garantia de serviços de saúde para a região. Pressupõe-se, pela preocupação manifestada, que consideram que o funcionamento neste momento é fantástico, não requerendo qualquer tipo de mudança. Parece que o importante é ter o serviço aberto, interessando pouco se existem profissionais suficientes que garantam o acesso e a qualidade na prestação de cuidados de saúde.
No caso do presidente da Câmara do Barreiro Frederico Rosa, nas sucessivas declarações que foi fazendo sobre o tema, a sua preocupação parecia ser maior com o facto de ser ou não recebido pela ministra do que em responder à questão da qualidade na prestação de serviços. Os autarcas sabem, ou deviam saber, que não há médicos. Não se percebe aliás qual é parte de “não há médicos” que ainda não compreenderam.
A actuação dos autarcas da região de Setúbal sobre a criação de uma urgência regional de obstetrícia e ginecologia é o mais acabado exemplo de populismo no seu pior. Em vez de contribuírem para melhorar a qualidade do acesso à saúde e a literacia em saúde dos seus munícipes resolvem ir ao encontro daquilo que pensam ser o desejo dos seus eleitores.
Para o cidadão comum é obvio que o ideal era ter um hospital em cada esquina, como uma autoestrada a passar perto de casa. Um político tem a obrigação de fazer compreender os seus eleitores de que isso é impossível, que todos ganhamos com a centralização, especialmente numa altura em que a mobilidade é tão fácil e há tanta falta de médicos. Fazer manifestações contra decisões impopulares mas necessárias para melhorar o SNS são incompatíveis com a qualidade de um político. A dimensão de um político não está na sua capacidade de agradar, mas no poder de conseguir concretizar as medidas que são difíceis e impopulares quando elas garantem melhores serviços aos cidadãos.
Não são novas as manifestações contra encerramentos de serviços para darem lugar a uma rede que garanta melhores serviços aos cidadãos. O então ministro da Saúde Correia de Campos foi uma das primeiras vítimas desse populismo quando tentou racionalizar a rede de maternidades. Foi nessa altura que começaram a nascer bebés em ambulâncias, notícia que rapidamente desapareceu quando a racionalização da rede de maternidades caiu, tal como o ministro.
Sendo certo que não se pode nem deve generalizar, alguns autarcas têm revelado mais talento para a politiquice do que para se concentrarem na resolução de problemas concretos. Há problemas nos seus municípios que estão identificados há muito, mas que lhes merecem a total indiferença. Mas quando um Governo pretende mudar alguma coisa estão prontos para gritar que são contra, numa suposta defesa do interesse dos seus munícipes. No caso do hospital do Barreiro serviam muito melhor os cidadãos se se unissem para melhorar o acesso e a qualidade dos seus serviços.