“Eu não quero estar a trabalhar em ballet ou ópera ou outras coisas que sejam do género ‘ei, mantém isto vivo’, apesar de já ninguém querer saber disto”. A frase foi proferida, entre risos, por Timothée Chalamet. Ainda pareceu tentar remediar as críticas — “com todo o respeito por toda a malta do ballet e da ópera” — mas voltou à carga: “acabei de perder 14 cêntimos em visualizações”, sugerindo que tanto o ballet como a ópera geram pouca mobilização.
As palavras do ator conquistaram rápido mediatismo. O seu papel como celebridade de Hollywood ou como namorado de Kylie Jenner seriam suficientes para dar alcance às considerações polémicas, mas a sua nomeação para os Óscares terá contribuído de sobremaneira. Chalamet é apontado como sendo o forte favorito à conquista do galardão de Melhor Ator Principal pelo papel de Marty Mauser, um jogador de ténis de mesa, em Marty Supreme.
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A resposta às declarações não se fizeram tardar e ecoaram um pouco por todo o mundo, com pessoas e instituições ligadas ao teatro, à ópera e ao ballet a procurarem desmentir as afirmações do ator (que é filho de uma professora de ballet e neto de uma antiga bailarina profissional). Em pouco tempo, as páginas de vários agentes culturais encheram-se de vídeos com as declarações de Chalamet em fundo enquanto passavam imagens de plateias cheias e palcos com produções elaboradas.
“O quê? O Timothée Chalamet não quer trabalhar connosco? O que devemos fazer, para manter “esta coisa” viva? Ninguém que saber?”, interroga, com ironia, o Teatro São Carlos, num vídeo publicado no Instagram, que remata com a resposta: “Estamos vivos e bem, porque muita gente se importa”. As imagens encerram com uma ovação de pé na única sala de ópera do País.
O modelo foi replicado por outras casas de ópera, como a Royal Opera House, de Londres, uma das mais importantes no mundo. “Todas as noites, na Royal Opera House, milhares de pessoas reúnem-se pelo ballet e pela ópera. Pela música, pela narrativa. Pela experiência mágica da performance ao vivo. Se quiseres reconsiderar, Chalamet, as nossas portas estão abertas”.
A Metropolitan Opera, de Nova Iorque, a Ópera de Zurique, a Ópera de Viena (que fez um convite pessoal ao ator — “o nosso palco está à espera”), o Teatro Real (de Madrid), e a Ópera de Paris acompanharam a reação, com alguma ironia à mistura, das palavras do norte-americano com ascendência francesa. Curiosamente, a casa de ópera na capital francesa até aproveitou para fazer publicidade a uma ópera em exibição até 20 de março que inclui… ténis de mesa.
Nos comentários das publicações, os desabafos repetem-se. “O que o leva a crer que conseguiria trabalhar em ballet ou ópera?”; “Ele fala como se conseguisse trabalhar em ópera ou ballet”; “A ópera continuará a ser estudada, cantada e amada muito depois de ele ser esquecido”.
Houve até quem aproveitasse a controvérsia para lançar promoções. A Ópera de Seattle, nos EUA, divulgou um código com o primeiro nome do ator para um desconto de 14% na obra Carmen, do francês Georges Bizet. A English National Opera ofereceu bilhetes grátis diretamente ao ator para o ajudar “a voltar a apaixonar-se pela ópera”.
https://observador.pt/2026/01/22/oscares-pecadores-lidera/
Nos comentários das publicações do ator, que não se retratou ou justificou pelos comentários, há quem manifeste o desejo de não o ver vencer o Óscar de melhor ator. Chalamet, que era apontado como o grande favorito, pode estar a perder lugar na corrida, como até aconteceu no ano passado com o filme Emilia Pérez. O filme de Jacques Audiard teve 13 nomeações, mas nas semanas que antecederam a aguardada entrega de prémios viu-se envolto em várias polémicas e acabou por ganhar apenas dois Óscares.
A gala dos Óscares está marcada para a noite de domingo/madrugada de segunda-feira, quando se saberá se as declarações do protagonista de Marty Supreme (que soma nove nomeações no total, incluindo Melhor Filme) não passaram de um burburinho acessório. O ator já esteve nomeado duas vezes para Melhor Ator Principal (pelo papel em “Chama-me pelo Teu Nome” em 2018 e no ano passado pelo papel na biografia de Bob Dylan.