(c) 2023 am|dev

(A) :: Mojtaba Khamenei. A escolha que preserva o regime e reforça o confronto com EUA e Israel: “O mundo vai sentir saudades da era do pai”

Mojtaba Khamenei. A escolha que preserva o regime e reforça o confronto com EUA e Israel: “O mundo vai sentir saudades da era do pai”

A Assembleia de Peritos escolheu o filho de Khamenei para Líder Supremo. Um sinal da crescente militarização do regime, guiada pela Guarda Revolucionária, e de provável desafio a EUA e Israel.

Cátia Bruno
text

Os manifestantes gritavam “Mojtaba bemiri rahbari ro nabini”. Estávamos em 2009 e milhares de iranianos saíam à rua, para protestar contra a reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadinejad, que consideravam fraudulenta. Entre as palavras de ordem, surgia o nome de “Mojtaba”, o filho do Líder Supremo Ali Khamenei, que estava envolvido na organização da repressão dos protestos. Por isso, os manifestantes pediam a sua morte, para que nunca chegasse à liderança.

Menos de 20 anos depois, Mojtaba herdou mesmo o cargo do pai e lidera agora um Irão debaixo de fogo norte-americano e israelita. Com apenas 56 anos, é uma figura que pode revigorar o regime, mas não em direção à modernidade. As suas parcas credenciais religiosas — não tem formalmente o título de aiatola — não travaram a sua ascensão. Uma das primeiras memórias de Mojtaba é a da polícia política do regime do Xá, a SAVAK, a deter o seu pai — e, apesar disso, nem o facto de a sucessão dinástica ser semelhante à do regime que os Khamenei derrubaram atrapalhou a sua nomeação.

Aquilo que sustenta a nomeação de Khamenei filho como Líder Supremo são antes as suas raízes profundas no sistema político e militar do regime. “Representa a continuidade e vai ser apoiado pelo ‘deep state’ iraniano”, resumiu ao New York Times Sanam Vakil, diretora do programa para o Médio Oriente do think tank Chatham House.

Mais do que isso, é a prova de que o regime é agora controlado com mão de ferro pela Guarda Revolucionária, de quem Mojtaba é muito próximo. “O sistema clerical mantém os ornamentos formais da autoridade, mas o poder decisivo está agora noutro lado”, resume ao Observador Ali Alfoneh, investigador especializado na crescente militarização do sistema que governa o Irão. “A Guarda Revolucionária emergiu como o árbitro final do regime.”

https://observador.pt/2026/03/09/filho-de-khamenei-ex-combatente-e-proximo-da-guarda-revolucionaria-quem-e-mojtaba-khamenei-novo-lider-supremo-do-irao/

Uma transformação que augura um provável aumento da repressão interna e uma resistência feroz à ofensiva militar de Estados Unidos e Israel. “A eleição de Mojtaba Khamenei assegura a continuidade do âmago do regime, ao mesmo tempo que envia uma mensagem desafiadora a Israel e aos EUA”, acrescenta Alfoneh.

A falta de pergaminhos religiosos de Khamenei revela que regime abdicou da “pura teologia”

Formalmente, Mojtaba é um clérigo xiita que poderia um dia ocupar o cargo de Líder Supremo. Mas até a sua formação religiosa revela como a sua escolha é um sinal de radicalização do regime, dadas as suas posições.

Em 1999, o filho de Ali Khamenei começou os seus estudos no seminário de Qom Shia, um dos mais conservadores do país. Os seus orientadores foram religiosos particularmente extremistas, como o aiatola Mohammad Taqui Mesbah-Yazdi. Este defendia que o Irão tem o direito a obter “armas especiais” — leia-se armamento nuclear — e que “o Islão não é compatível com a democracia”. Em 2002, emitiu uma fátua onde pedia a morte dos jovens iranianos que promovessem comportamentos próximos da “imoralidade ocidental”.

“Ele era um taleb [estudante de teologia] muito diligente, lia muitos livros de teologia”, notou ao Figaro Amir Farshad Ebrahimi, antigo amigo de juventude de Mojtaba que acabou no exílio por ter desertado das milícias populares Basij. Acabou por atingir o nível académico mais alto do seminário e dar aulas. No entanto, até hoje não tem o título honorífico de aiatola, o mais alto do Xiismo e essencial para se ocupar o cargo de Líder Supremo — é apenas hojatoleslam, um título clerical intermédio.

“A escolha da liderança no Irão nunca foi uma questão de pura teologia, constitucionalismo ou princípio. Reflete antes os imperativos do regime: sinalizar continuidade aos lealistas, projetar desafio aos adversários estrangeiros e refletir o equilíbrio de poder interno — neste caso, a força da Guarda Revolucionária.”
Ali Alfoneh, investigador do Irão

“Tal como aconteceu com o seu pai, as qualificações teológicas de Mojtaba Khamenei são questionáveis”, nota Alfoneh. No caso de Ali Khamenei, a situação foi resolvida com uma emenda constitucional: “E, depois disso, ele foi promovido a aiatola do dia para a noite. As credenciais religiosas de Mojtaba podem levar a um escrutínio semelhante.”

Alguns dos 88 membros da Assembleia dos Peritos, responsável pela nomeação do Líder Supremo, não terão gostado da ideia de nomear Mojtaba, seja pela falta de qualificações religiosas, seja por preferirem um moderado, com Alireza Arafi (que fez parte do conselho de transição) ou Hassan Khomeini (neto do aiatola Ruhollah Khomeini).

Ao site ligado à oposição Iran International, duas fontes garantiram que pelo menos oito membros faltaram à sessão de quinta-feira, em protesto pelo que consideraram ser a “alta pressão” da Guarda Revolucionária para que a escolha recaísse sobre Khamenei. Já o Instituto para o Estudo da Guerra nota que um dos clérigos mais radicais da Assembleia, o aiatola Mohammad Mehdi Mir Bagheri, tentou pressionar os outros membros para que a votação fosse o mais rápida possível, de forma a impedir que se criasse uma dinâmica anti-Khamenei.

“Isto mostra que a escolha da liderança no Irão nunca foi uma questão de pura teologia, constitucionalismo ou princípio”, aponta Ali Alfoneh. “Reflete antes os imperativos do regime: sinalizar continuidade aos lealistas, projetar desafio aos adversários estrangeiros e refletir o equilíbrio de poder interno — neste caso, a força da Guarda Revolucionária.”

A força política de Mojtaba, “o poder por trás das vestes”

As ligações de Mojtaba à Guarda Revolucionária são profundas e remontam à sua juventude, como veremos mais à frente, mas foram trabalhadas ao longo das últimas décadas através de um poder na sombra. Isto porque Khamenei filho se tornou o líder de facto do Beyt, o órgão que garante a ligação do Líder Supremo a todos os organismos do Estado e esferas da sociedade.

Manteve sempre uma presença discreta: existem muito poucas fotografias com o seu rosto e, conta o Economist, era conhecido por se deslocar para o seminário num velho Paykan, um antigo modelo de carro iraniano. Mas no Beyt alargou a sua influência: “Há muito pouca transparência na ação do Beyt e as suas ações são muitas vezes baseadas em jogos de poder e clientelismo”, notou à France 24 Jonathan Piron, historiador especialista no Irão.

No final dos anos 2000, os cabos diplomáticos relevados pela Wikileaks davam conta da influência de Mojtaba Khamenei dentro do regime: descrito como uma figura “capaz e forte”, era apelidado como sendo “o poder por trás das vestes [religiosas]”.

A sua verdadeira posição em termos das fações políticas dentro do Irão é, contudo, uma incógnita, como nota o investigador Alfoneh: “A verdade é que não sabemos.” No entanto, o seu amigo de juventude Amir Farshad Ebrahimi garante que Khamenei filho “sempre foi um firme defensor da linha dura do regime”. Segundo Ebrahimi, Mojtaba juntou-se ao coro de críticos do aiatola Ali Montazeri, um reformista, declarando que “ele era pago pelo Ocidente” e que “deveria ser castigado com o afastamento da sua condição clerical”.

Certo é que, nota o mesmo amigo, Mojtaba rapidamente assumiu o papel de “embaixador” do pai. “Quando lhe queríamos enviar uma mensagem ou quando ele queria falar connosco, tínhamos de falar através do Mojtaba.”

Como Khamenei se uniu à Guarda Revolucionária para esmagar protestos no passado

O que a escolha de Mojtaba Khamenei para o cargo de Líder Supremo revela é sobretudo a sua proximidade da Guarda Revolucionária.

Uma relação que vem de longe. Quando tinha 17 anos, como contam os académicos Saeid Golkar e Kasra Aarabi num artigo publicado no Atlantic Council, Mojtaba juntou-se à Guarda Revolucionária para combater na Guerra Irão-Iraque, onde fez parte da 27.ª Divisão Mohammad Rasulullah e do Batalhão Habib. O primeiro fora criado por Ahmad Montevaselian, fundador do Hezbollah; o segundo era comandado por Esmail Kowsari, atualmente deputado, cujo toque de espera da sua linha telefónica, de acordo com o Wall Street Journal, é um cântico que diz “América, morte ao teu engano, o sangue da tua juventude pinga da tua garra”.

[Depois de anos em fuga, o guru é finalmente detido. Mas o movimento de yoga e as escolas em todo o mundo continuam a funcionar. Ouça o último episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto e aqui o quinto episódio]

“Mojtaba Khamenei passou algumas semanas na frente em 1986 e pode ter forjado algumas amizades com membros da Guarda Revolucionária”, diz ao Observador Ali Alfoneh. “Mas o único contacto conhecido é Hossein Taeb, que mais tarde serviu como diretor dos serviços de informações da Guarda Revolucionária.”

Uma relação que floresceu em 2009. Quando milhares de iranianos saíram às ruas contra a reeleição de Ahmadinejad, Khamenei filho e Taeb combinaram forças para esmagar os protestos. A informação é sustentada num relatório das próprias secretas da Guarda Revolucionária que vazou, nota o Atlantic Council, e em dados citados pelo grupo United Against Nuclear Iran, que garantem que Mojtaba mantinha reuniões no Beyt com figuras destacadas do órgão militarizado, “fazendo micromanagement de como a Guarda deveria esmagar os iranianos nas ruas”.

O vice-ministro da Administração Interna, Mostafa Takzadeh, foi preso depois de classificar o resultado das eleições como “um golpe eleitoral”. Mais tarde, declarou que a sua prisão foi resultado “de um desejo direto de Mojtaba Khamenei”.

Estas ligações indiciam que, com Khamenei filho no poder, o mais certo é acentuar-se ainda mais a militarização do regime. Uma tendência que se reforçou com Ali Khamenei e pode agora ter continuidade. “A morte de Khamenei libertou-os”, sentenciou ao Economist um empresário iraniano no exílio, sobre os membros da Guarda e das milícias populares como a Basij. “Estão mais militantes, nacionalistas e empoderados.”

“Sentimentos crus e de vingança”? Guerra com Washington e Telavive deverá intensificar-se

Não é por isso de admirar que, quando a nomeação de Mojtaba Khamenei como Líder Supremo foi anunciada, a Guarda Revolucionária tenha sido dos primeiros organismos a reagir positivamente, descrevendo o momento como “uma nova alvorada” para a Revolução.

“[Khamenei filho] pode estar a ser guiado por sentimentos crus e de vingança, que reforça a ideologia de confronto existencial da República Islâmica com a América e Israel.”
Patrick Clawson e Farzin Nadimi, do Washington Institute

Mas o mais certo é que, com Khamenei filho na liderança, o regime endureça ainda mais e se foque na continuação da guerra com os Estados Unidos e Israel. Afinal, os ataques destes países mataram não apenas o pai de Mojtaba, como também a sua mãe e a mulher, com alguns relatos a falarem na morte de um dos seus filhos e outros na sua irmã e cunhado. “Ele pode estar a ser guiado por sentimentos crus e de vingança, que reforça a ideologia de confronto existencial da República Islâmica com a América e Israel”, notam os analistas Patrick Clawson e Farzin Nadimi num artigo publicado pelo Washington Institute.

A estratégia do Irão, acredita Alfoneh, será agora a de focar os seus ataques nas infraestruturas de energia: “‘Tentem derrubar o regime de Teerão e lidem com uma crise económica global’”, resume o analista. Ao mesmo tempo, o mais certo será um endurecimento ainda maior do aparelho repressivo interno, sobre os iranianos que ousem questionar a escolha na continuidade de Mojtaba. “O mundo vai sentir saudades da era do pai”, desabafou à Reuters um responsável próximo do regime.

Dias antes da escolha de Mojtaba, o Presidente Donald Trump descreveu-o como um “peso-pluma” e disse taxativamente: “O filho de Khamenei é inaceitável para mim.” Foi exatamente isso que o regime lhe entregou.