Quem nasceu na viragem para a década de oitenta e cresceu nos pátios das escolas sabe que o recreio era uma selva de cimento com código penal próprio e zero supervisão das Nações Unidas. As alcunhas não tinham filtros, não passavam pelo crivo dos recursos humanos, nem respeitavam qualquer cartilha do politicamente correcto. A fisionomia de um miúdo ditava a sentença. Eras o “Gordo”, o “Quatro Olhos”, o “Amarelo”, ou o “Cenoura”. O teu nome de baptismo desaparecia no primeiro dia de aulas. Sobrevivemos a isso com os joelhos esfolados no alcatrão, a disputar penáltis imaginários e a jogar à bola com dois paralelos a fazer de baliza.
Felizmente, crescemos. Evoluímos nas palavras, mas relativizamos a escuta. A mesma geração que sobreviveu àquelas alcunhas brutais veste-se hoje de fato e senta-se no Parlamento a gerir o país. E o que fizeram? Substituíram a frontalidade rude da infância pela cobardia refinada do “aparte”. O pátio mudou-se para dentro da Assembleia da República, agora com ar condicionado e subsídio de deslocação.
Para governar este “pátio”, láá na frente, sentado à secretária principal, temos o professor frustrado e os seus estagiários igualmente desesperados, que são o Presidente da Assembleia da República e os seus Vice-Presidentes essa direção de turma em burnout permanente. Passam as sessões a ligar e desligar microfones, a suplicar por uma ordem que nunca chega. Se estivessem verdadeiramente no ensino público a lidar com uma turma destas, já teriam metido baixa médica por esgotamento nervoso ou estariam estrategicamente afetos a um sindicato qualquer, apenas para não terem de lidar com esta falta de educação diária.
Vejamos então a dinâmica desta turma indisciplinada.
Sempre que o recém-eleito Presidente da Associação de Estudantes, Luís Montenegro, se levanta com o seu restrito grupo para tentar apresentar o seu programa para a escola, o fundo da sala entra em ebulição. A seu lado, irrequieto, está Leitão Amaro, o clássico cromo da rádio da escola. Anda sempre de microfone na mão, a tentar fazer os anúncios do recreio a uma velocidade estonteante, embrulhando as novidades para ver se a malta adere, mas o barulho de fundo quase nunca o deixa brilhar e, quando deixa, percebe-se que o anúncio também não era assim tão brilhante.
Mas o Presidente da Associação tem o seu mais fiel e cego seguidor. Logo na fila da frente salta Hugo Soares. Se antigamente ele era o mítico “chibo” que corria para o professor a queixar-se dos nomes que lhe chamavam, hoje assumiu o papel do verdadeiro graxa do líder, o “escova”. Sempre pronto a defender a Associação de Estudantes cegamente, atira-se a qualquer um que ouse olhar de lado para o chefe, usando as defesas da honra como escudo para abafar as críticas.
Do outro lado, José Luís Carneiro, o eterno “menino da mamã”, tenta pedir a palavra com a candura de quem pede fotocópias extra na reprografia. É aquele aluno que é deixado mesmo à porta da escola pelos pais, com medo que algum dos rufias o apanhe na curva. Mas com aquela voz serena é imediatamente engolido pela gritaria, como um aviso de biblioteca no meio de um concerto dos Metallica. Ele bem pede um espaço de diálogo, enquanto assiste ao líder da CDU a comunicar em código.
O nosso eterno “Careca” comunista (que hoje exige não ser alvo de bodyshaming capilar) até é bastante reservado nos apartes sonoros. O seu desporto é outro. Na falta de voz, passa o tempo a esbracejar e a abanar a cabeça no fundo da sala, numa coreografia indignada e constante, como se gesticulasse para o professor ver que ele está sempre contra o capital e a cantina privatizada.
Nas filas laterais temos a “Betinha” líder da Iniciativa Liberal. A bonitinha da turma que sabe perfeitamente que é gira, que tem sempre o estojo em tons pastel e o MacBook aberto na aula, e que vive na doce ilusão de que o mundo, no fundo, é só muito “giiiiro”, desde que não haja Estado a estragar. Quando atira apartes, é sempre com aquele revirar de olhos e um sarcasmo elitista de quem acha que o Estado é pouco “cool” e claramente incapaz de fazer “onboarding” à geração dela.
O que ofende profundamente Paulo Núncio, “O beato” de serviço, o aluno que levava o catecismo para a escola e sublinhava os pecados a amarelo fluorescente. Na absoluta falta de ideias brilhantes para o debate, busca protagonismo nos expedientes parlamentares, levantando o dedo em todas as aulas, mesmo sem ter estudado, exigindo a reposição da matriz conservadora do silêncio, mas fazendo um barulho tremendo no processo.
E claro que não podíamos esquecer Rui Tavares, “o cromo nerd”. Aquele miúdo que se sentava na primeira fila com a enciclopédia aberta. Hoje é o sonso da turma. Morre de medo do gangue dos bullies, por isso faz a sua guerrilha pela calada, atirando apartes murchos e citações de filósofos franceses sussurradas para o ar, sempre pronto a esconder-se debaixo da carteira se a coisa aquecer.
Noutro canto senta-se Inês de Sousa Real, fechada na sua bolha de ecologia radical e suspira ao microfone não pela falência da democracia, mas porque o volume dos apartes causa ansiedade aos pombos do telhado de São Bento.
Mas a peça central deste ecossistema escolar desregulado mora no fundo da sala. André Ventura é o assumido “bully” da turma, aquele terror do pátio que roubava o lanche aos mais fracos. Hoje não pede a palavra, ele exige-a aos berros. E nunca anda sozinho. A seu lado, de peito insuflado, está Pedro Pinto, o clássico capanga do recreio. É a encarnação em formato adulto do “agarrem-me senão vou-me a eles!”, que passa a vida a distribuir empurrões de ombro nos corredores só para o chefe poder passar. O mais assustador não é o discurso, é o coro tático. Sempre que o líder fala, o seu grupo não debate, mas grunhe, bate nas mesas e uiva em uníssono. É um bullying acústico desenhado para intimidar quem pensa de forma diferente.
Riríamos desta caricatura, se ela não fosse tragicamente real e não tivesse um custo moral e financeiro pesadíssimo.
Quando olhamos para as galerias do Parlamento e vemos dezenas de turmas de miúdos em visitas de estudo, o coração aperta. Que testemunho lhes estamos a dar? A mensagem que passa é terrivelmente clara. Se quem ganha as discussões é quem mais grita e faz barulho, então na escola e na vida os mais novos sentem que podem fazer o mesmo. O Parlamento destrói, numa tarde de plenário, a autoridade cívica que as famílias e os professores demoram anos a construir.
A política, como nos recorda frequentemente a Doutrina Social da Igreja, deve ser uma das formas mais altas de caridade, porque busca o Bem Comum, e não um passatempo de recreio para adultos atrasados na educação emocional. Mas não há Bem Comum onde impera a vaidade e o ruído.
E aqui chegamos à fatura mais dolorosa de todas, que é o custo das discussões estéreis. O tempo desperdiçado em apartes foleiros e invocações regimentais não são um mero detalhe folclórico, são um roubo. O tempo não pertence aos deputados, pertence aos portugueses. É pago com os impostos de quem trabalha arduamente, conta trocos no fim do mês e ainda tem de ouvir que “o sistema é complexo”. Cada minuto perdido a gerir o ego de um político é tempo roubado à discussão sobre a saúde dos mais frágeis, à habitação das famílias e à dignidade do trabalho, temas que parecem continuar no fim da pauta à espera de vez.
Perdeu-se o respeito sagrado pela palavra do outro. E, no entanto, é no silêncio que nasce a verdadeira escuta e é na moderação que se encontra a firmeza. A verdadeira liderança faz-se pelo serviço e pelo exemplo. Exige-se aos nossos representantes um exame de consciência antes de entrarem no hemiciclo, pois estão ali para servir e não para se servirem do palco.
O recreio acabou. É tempo de a nossa classe política voltar a dignificar a palavra, honrar os recursos que lhe confiámos e começar, finalmente, a trabalhar no silêncio fecundo que constrói o futuro, mesmo que isso dê menos “likes” do que um bom escândalo em horário nobre.
Nota Legal e de Intenção: O presente texto constitui uma crónica de opinião e um exercício de ficção satírica, encontrando-se integralmente protegido pelo direito à liberdade de expressão e de pensamento. As personagens, cenários e situações aqui descritas são caricaturas metafóricas das dinâmicas político-institucionais. Qualquer semelhança com figuras públicas ou comportamentos reais é um recurso puramente humorístico e alegórico, não constituindo, em momento algum, a imputação de qualquer facto ilícito ou ofensa à honra, bom nome ou consideração de terceiros. Felizmente, vivemos numa democracia madura que ainda compreende que o humor e a sátira são ferramentas indispensáveis de reflexão cívica e moral, especialmente quando o Parlamento insiste em oferecer material novo todas as semanas.