Terminou ontem a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, o político que provou que, ao contrário do que diz o cliché, o Presidente não é uma figura decorativa. Mostrou-se, aliás, uma figura decoradora: na sua irrequieta ânsia, parecida com a de uma dona de casa entediada que remodela a cozinha a cada dois anos, foi o responsável por trocarmos tantas vezes de Governo em tão pouco tempo. Parecia um arquitecto de interiores entusiasmado com o novo catálogo da Cin.
Durante a Presidência de Marcelo ocorreram inúmeros episódios – alguns mais sérios, outros mais rocambolescos – que têm sido recordados nos balanços publicados na comunicação social. Desde os passou-bem extremamente vigorosos com que sacudia os seus interlocutores, Donald Trump incluído, passando pelas declarações precipitadas, ainda Pedrógão ardia, de que “o que se fez foi o máximo que se podia fazer. Não era possível fazer mais”, até à novela das gémeas brasileiras e da cunha que o seu filho terá metido no SNS, são vários os acontecimentos que vão ficar para a história. É uma Presidência que fica marcada por inúmeros eventos, como bexigas na cara de um adolescente atreito ao acne.
Gostaria, no entanto, de destacar uma borbulha em especial. Não que me pareça particularmente emblemática, mas porque ainda não vi ninguém referir-se a ela nos últimos tempos e, mais do que certeiro, prefiro ser original. E também porque, de todas as situações que distinguem o consulado de Marcelo, esta foi a primeira. Ocorreu minutos depois da tomada de posse, a 9 de Março de 2016. Recém empossado, Marcelo Rebelo de Sousa tinha acabado de jurar sobre a Constituição, assinar o auto de posse, trocar de lugar com Cavaco Silva e proferir o discurso inaugural do seu mandato e todo o auditório se levantou para aplaudir. Governo, deputados, convidados, público, toda a gente se pôs de pé para saudar a estreia de Marcelo a dirigir-se aos portugueses. Quer dizer, não foi bem toda a gente: os deputados do PCP, do Bloco de Esquerda e dos Verdes optaram por permanecerem sossegados nos seus lugares, com as mãozinhas nos regaços, não fosse alguém pensar que celebravam, ainda que cerimonialmente, a tomada de posse do novo Presidente da República. Na altura, estes partidos tinham um acordo com o PS e apoiavam o Governo. Apesar dessa proeminência institucional, quiseram assinalar, com a sua imobilidade, a rebeldia malcriada e falta de fair play ao receber o novo Chefe de Estado.
Bom, isto passou-se.
Entretanto, uma das maiores críticas que se faz a Marcelo Rebelo de Sousa é ter-se assistido, na última década, à progressiva polarização da política portuguesa, com crispação, baixo nível, degradação da linguagem, a que não é alheio o aparecimento e crescimento de um partido populista da direita radical. Crítica justa? Talvez. Os deputados do Chega têm-se revelado um grupo um bocado ordinário. Mas ontem, por acaso, levantaram-se para aplaudir António José Seguro.
PS – Quem não teve de passar pelo vexame de aplaudir ou não aplaudir o novo Presidente (ambas as opções seriam humilhantes) foi Augusto Santos Silva, que ontem preferiu ser o militante socialista amuado com as críticas que há anos António José Seguro fez ao PS e que disse que Seguro não cumpria os requisitos mínimos para ser candidato à eleição que viria a ganhar, em vez de ser o ex-Presidente da Assembleia da República e cumprir a sua obrigação protocolar. Realmente, durante o mandato de Marcelo assistiu-se a uma crispaçãozinha.