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(A) :: A desfilosofia da medicina portuguesa

A desfilosofia da medicina portuguesa

Felizmente, a urgência de uma "re-humanização" médica já está a desenhar o futuro além-fronteiras em universidades de excelência.

Guilherme Teles
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Nome? Idade? O que comeu hoje? Quantas vezes foi à casa de banho? Onde lhe dói? Dói muito? O médico escreve. O processo é guardado. O computador imprime. Tem cancro. Este é o tratamento. Boa sorte. Próximo. Nome? Idade?

Um ciclo vicioso, automatizado e ininterrupto. O médico moderno ampara-se num invejável arsenal técnico-científico que lhe permite equacionar um diagnóstico diferencial em poucos passos e aplicar uma terapêutica exímia, ditada pelas “mais recentes guidelines”. Contudo, este código padronizado confunde-se facilmente com o processador de um computador. O médico torna-se apenas mais uma engrenagem numa longa linha de montagem, onde os vestígios de humanidade se dissipam a cada consulta.

No meio desta maquinaria, emerge uma questão central: onde moram a reflexão e o pensamento crítico? Se, como afirmava o classicista Werner Jaeger, “de todas as ciências humanas (…), é a Medicina a mais afim da ciência ética de Sócrates”, o que garante hoje à nossa prática esse título? Atualmente, o profissional de saúde assemelha-se perigosamente a uma máquina dispensadora de procedimentos e prescrições.

Esta metamorfose não ocorreu ao virar de uma página, mas ao longo de densos volumes da nossa história. A expulsão da filosofia do currículo médico não foi um mero detalhe académico; enraizou-se profunda e silenciosamente, tornando-se no verdadeiro motor da exaustão atual, da erosão da empatia e da inaptidão para gerir a complexidade humana no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Para compreender esta crise, é forçoso olhar para trás. Galeno defendia que “o melhor médico é também um filósofo”. Não por acaso, quando o ensino da medicina se estabeleceu em Portugal, com o Estudo Geral de Coimbra, em 1290, o “físico” (médico) repudiava o trabalho manual. A cirurgia era marginalizada e o foco residia, quase exclusivamente, no debate ontológico do doente como um todo. A viragem começou com a Reforma Pombalina (1772), que trouxe a necessária luz do método experimental a Coimbra, mas plantou a primeira semente do mecanicismo. Mais tarde, entre a escola anátomo-clínica do século XIX e a padronização laboratorial do século XX, a machadada final foi desferida: as humanidades foram banidas em prol do rigor exclusivo das ciências exatas. O corpo convertera-se, em definitivo, numa máquina avariada.

Esta pesada herança histórica desagua, hoje, diretamente nos anfiteatros e corredores hospitalares, deformando silenciosamente o pensamento do estudante durante os seus anos formativos. Fechado na “gaiola” de um denso currículo, o aluno sofre uma mutação estrutural na forma como perceciona o Outro.

Aprofundando este fosso, o jovem estudante é rapidamente imerso na ilusão da certeza, promovida pela atual interpretação reducionista da Evidence-Based Medicine. Embora estatisticamente inestimável, esta abordagem ensina o aluno a tratar a “média estatística” através de protocolos rígidos. O resultado é o atrofiar do pensamento crítico, uma vez que o futuro médico não é ensinado a gerir a incerteza e a ambiguidade inerentes à prática clínica real, ficando refém e sem respostas perante o indivíduo único (ou o chamado “N=1”) que teima em fugir à norma das guidelines.

Essa abstração estatística evapora-se no contacto com o doente real. Recordo-me de, durante uma colheita da história clínica, perguntar a uma mulher com doença oncológica quais os tratamentos que já tinha realizado. Esperava ouvir a sequência habitual de ciclos de quimioterapia, cirurgias ou procedimentos. A resposta desviou-se desse guião: “Fui vítima de violência doméstica durante mais de trinta anos. Agora levo este tratamento até ao fim.” Por um momento, a medicina pareceu pequena para conter uma vida inteira.

O preço de toda esta formatação reflete-se naquilo a que a literatura médica chama o “currículo oculto”: uma queda abrupta e documentada dos níveis de empatia a partir do terceiro ano, momento em que se dá o choque letal com a prática clínica nas enfermarias. Lançados para a linha da frente sem um espaço seguro, formal ou filosófico para processarem o impacto esmagador da dor, da miséria e da morte, os jovens estudantes adotam o distanciamento clínico para sobreviver. A alienação, traduzida num foco hiperespecializado no problema em detrimento da pessoa como um todo, ergue-se não como uma falha de caráter, mas como o seu último e trágico mecanismo de defesa.

A reflexão filosófica exige tempo; um bem escasso que o estudante descobrirá ser o seu maior inimigo no SNS. Um incessante treino pela perfeição na janela dos quinze minutos, enquanto é obrigado a olhar, falar, compreender, analisar exames e admitir terapêuticas para alimentar a máquina capitalista da produtividade. Sem a devida base filosófica, o jovem estudante não sabe lidar com o erro e morte natural, passando a encará-los como “fracassos técnicos” por pura incapacidade de lidar com a finitude humana.

Felizmente, a urgência de uma “re-humanização” médica já está a desenhar o futuro além-fronteiras. Em universidades de excelência como Columbia e Harvard, a Medicina Narrativa e a Medicina Social assumem o protagonismo, ensinando o estudante a descodificar a gramática do sofrimento e a compreender as profundas raízes sociais da doença. Em simultâneo, de Stanford a Oxford, as artes e a filosofia moral abandonaram o estatuto de mero adorno para se assumirem como verdadeiras vacinas contra o burnout e bússolas indispensáveis perante a complexidade ética da finitude humana. Num contraste gritante, o ensino médico português parece caminhar arrastando uma âncora invisível, imerso numa letargia onde cada tímida tentativa de resgatar o pensamento crítico esbarra num peso institucional sufocante. A academia local e nacional continua refém de um medo paralisante da falha técnica, validado pelo dogma utilitarista de que “ninguém quer um médico que erre, sendo a precisão a sua única e inquestionável obrigação”. Presos a esta obsessão pela infalibilidade do procedimento, sacrificamos a reflexão para formar mecânicos perfeitos, esquecendo-nos de que a técnica, por si só, repara o corpo, mas é incapaz de amparar a alma.