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(A) :: A pobreza de espírito e o fim da confiança 

A pobreza de espírito e o fim da confiança 

A verdadeira miséria de um país não aparece apenas no extrato bancário; sente-se quando as instituições deixam de ser um abrigo e passam a ser uma fonte de ruído. 

Felso Ganhane
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Costumamos medir a riqueza das nações pela força das exportações ou pela saúde das contas públicas. É um erro de perspetiva. Em 2026, o que nos está a empobrecer de verdade é o desgaste silencioso da confiança. Olhamos para quem decide e para os edifícios que representam a autoridade e já não vemos ali um garante de justiça, mas um eco de um mundo que se está a desfazer. Esta pobreza não se resolve com subsídios; é uma falência de propósito, um sentimento de que o contrato que nos unia foi rasgado sem aviso.

O problema é que a política deixou de ser um plano para o futuro e passou a ser uma luta pela sobrevivência do dia a dia. Vivemos obcecados com a reação imediata, com a sondagem da próxima semana ou com o barulho da última polémica nas redes sociais. Nesta pressa, sacrificamos o amanhã. O que as elites não percebem é que as instituições são lentas por natureza, e quando tentam correr atrás do ritmo frenético do digital, acabam por perder a dignidade e a eficácia. O resultado é este: um sistema que gere danos em vez de abrir caminhos.

Sempre que surge uma crise, a nossa primeira reação tem sido fechar a porta e procurar culpados. É mais fácil apontar o dedo a quem vem de fora – imigrantes ou refugiados – do que admitir que as nossas próprias estruturas estão a falhar. Este hábito de usar o “outro” como saco de pancada pelos nossos erros coletivos é o sinal mais triste da nossa decadência. Não é apenas uma questão de falta de ética; é uma prova de que a sociedade perdeu a capacidade de se olhar ao espelho.

Onde esta pobreza dói mais é na pele de quem tenta pertencer e não o deixam. É um desperdício imperdoável de vida e de talento. Imagine-se a criança que, em pleno recreio de uma escola portuguesa, é posta de lado porque o seu sotaque francês – herança dos pais que foram trabalhar para fora – a torna “estrangeira”. Ou a jovem que nasceu aqui, filha de cabo-verdianos, e que ouve o insulto “volta para a tua terra” quando a sua terra é, precisamente, onde ela está.

Estas histórias não são apenas “casos sociais”; são falhas graves na construção de uma nação. Quando insistimos nestas fronteiras invisíveis de cor e origem, estamos a tornar Portugal e o mundo lugares mais pequenos e mais pobres. Uma nação que exclui os seus próprios filhos condena-se à irrelevância.

Enquanto nos perdemos nestas guerras de identidade, as grandes decisões fogem-nos das mãos. O Direito Internacional, que devia ser a regra para todos, tornou-se um menu à la carte: as grandes potências usam-no quando lhes convém e ignoram-no quando lhes atrapalha. E enquanto discutimos política à moda antiga, a tecnologia – a inteligência artificial, a robótica, o mundo dos algoritmos – está a mudar as regras do jogo sem nos pedir licença. Se já não confiamos nas instituições para o básico, como vamos confiar nelas para gerir um futuro onde a própria definição de humano está em causa?

Para os jovens que nasceram depois de 2000, o cenário é pesado. Eles herdam uma conta que não pediram para pagar: uma dívida ambiental, económica e de valores que lhes rouba o fôlego. Que esperança lhes damos quando as potências mundiais estão mais preocupadas em medir forças do que em garantir que o mundo continue a ser um lugar onde se pode viver?

O caminho não passa por promessas mágicas, mas por uma honestidade brutal entre gerações. Precisamos de ouvir quem vem depois de nós, não por simpatia, mas por necessidade de sobrevivência. E temos de aceitar que o progresso não é igual para todos: o que funciona em Lisboa pode ser um erro em Maputo. Cada sociedade tem o seu ritmo e a sua história, e nada de bom nasce quando se tenta impingir uma agenda que não respeita a realidade local.

No fim, voltamos sempre ao mesmo ponto. Se não encontrarmos um propósito comum, se não percebermos que o destino de quem nasce em Belém está ligado ao de quem chega agora de outro continente, a pobreza será, de facto, perpétua. O futuro não é um destino inevitável; é o resultado das escolhas que fazemos hoje.

Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.