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De troco de autocarro a peça de museu: a viagem no tempo de uma moeda com 2.000 anos

Não foi descoberta numa escavação arqueológica, mas num baú de madeira de prendas de um avô para o neto. Moeda foi usada para pagar bilhete de autocarro nos anos 50. Está agora exposta num museu.

Mariana Furtado
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Uma moeda cunhada há cerca de 2.000 anos — na época em que o Império Romano dominava grande parte do Mediterrâneo — acabou, milénios depois, no lugar mais improvável: primeiro, na caixa de pagamentos de um autocarro britânico na década de 1950; depois, no baú de infância de um neto do antigo caixa-chefe da empresa de transportes. Depois da travessia pelo tempo, encontrou finalmente um lar no Centro de Descobertas de Leeds, no Reino Unido, noticiou a BBC.

O artefacto do século I a.C. terá sido produzido pelos cartagineses, herdeiros da tradição fenícia, na cidade de Cádiz, no sul de Espanha, indica o site do governo da cidade de Leeds. Milénios mais tarde, chegou à posse de James Edwards, antigo caixa-chefe da empresa de transportes Leeds City Transport.

Na década de 1950, Edwards era o responsável por contar as receitas diárias dos motoristas de autocarro e elétrico. Durante esse trabalho, separava regularmente moedas falsas, estrangeiras ou fora de circulação mas, em vez de as descartar, oferecia-as ao neto, Peter.

Durante mais de 70 anos, essas moedas permaneceram como recordações de infância no pequeno baú de madeira em que Peter as guardara. O neto, hoje com 77 anos, recorda que o avô costumava encontrar peças vindas de vários países, algo que, acredita, poderá estar ligado ao período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. “Não tinha passado muito tempo desde o fim da guerra, então imagino que os soldados tenham retornado com moedas dos países para os quais haviam sido enviados. Nenhum de nós era colecionador de moedas, mas ficámos fascinados pela sua origem e simbologia – para mim, elas eram um tesouro”, afirmou, citado pelo site do governo de Leeds.

Entre todos os presentes guardados, um intrigava-o particularmente. “A moeda sempre me fascinou porque era difícil decifrar a sua origem”, explicou Peter. A pesquisa que empreendeu acabou por revelar que a oferta do avô tinha sido produzida numa antiga povoação cartaginesa na costa espanhola.

De um dos lados da moeda surge o rosto do deus Melqart, a principal divindade da antiga cidade-estado fenícia de Tiro, posteriormente associado ao herói grego Hércules. Na época, era comum que algumas moedas fenícias incorporassem iconografia grega para facilitar a circulação e aceitação nas rotas comerciais do Mediterrâneo.

Ao aperceber-se do eventual valor histórico da peça, Peter decidiu contactar os Museus e Galerias de Leeds e doá-la à instituição, permitindo que passasse a integrar a coleção pública de moedas antigas. “O meu avô ficaria orgulhoso de saber, assim como eu, que a moeda está a voltar para Leeds. No entanto, como ela chegou lá será sempre um mistério.”

“Museus como o nosso não se destinam apenas a preservar objetos, mas também a contar estórias como esta e a inspirar os visitantes a refletir sobre a história que nos rodeia, por vezes nos lugares mais improváveis”, explicou a vereadora Salma Arif, membro executiva do Conselho Municipal de Leeds para a Assistência Social a Adultos, Estilos de Vida Ativos e Cultura.