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A escola pública não é o TikTok

Em nome de não parecerem antiquadas ou autoritárias, as direções escolares demitiram-se do seu papel de curadoria e de educação.

Alberto Veiga
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A recente investigação sobre influenciadores misóginos nas escolas não surpreende quem, como eu, acaba de sair do ensino secundário. As Associações de Estudantes tornaram-se feudos de popularidade onde as ideias não sobrevivem ao algoritmo.

Tenho 18 anos. Saí das salas de aula do ensino secundário público há poucos meses, o que me coloca numa posição peculiar: já tenho a distância necessária para analisar o sistema, mas a memória suficientemente fresca para não me deixar enganar pelas reações de choque de quem agora descobre o que se passa nos nossos recreios.

A recente investigação do jornal Público — que revelou que pelo menos 79 escolas públicas abriram as portas a influenciadores digitais promotores de conteúdos sexuais e misóginos a pretexto da animação das campanhas para as Associações de Estudantes (AE) — causou espanto nacional. Houve indignação nas redes sociais, inquéritos instaurados e até o poder político a exigir explicações à tutela. Mas, para quem esteve lá dentro recentemente, o único espanto é que esta realidade tenha demorado tanto tempo a ser notícia.

A verdade inconveniente é que as eleições para as Associações de Estudantes em Portugal deixaram, há muito, de ser um exercício de cidadania ou um debate de ideias. Transformaram-se num autêntico circo de futilidades e num concurso de popularidade onde o mérito é a primeira vítima.

Durante os meus anos de secundário, assisti de perto a este fenómeno. Nas semanas de campanha, os manifestos eleitorais eram papel molhado. Ninguém queria saber das propostas para melhorar a qualidade da comida da cantina, dos planos para criar clubes de debate ou das exigências de melhor manutenção das infraestruturas desportivas. As listas não ganhavam com medidas; ganhavam com a melhor festa, o brinde mais vistoso e, claro, o influenciador digital com mais seguidores no TikTok ou no Instagram. A eleição era comprada não com argumentos, mas com o capital social de quem se levava a reboque.

O que a investigação do Público expõe é a consequência inevitável e perigosa deste esvaziamento. Quando a métrica de sucesso de uma lista de estudantes passa a ser exclusivamente o “hype”, o critério na escolha dos convidados desaparece. Traz-se para dentro dos portões da escola quem gera mais barulho e mais visualizações, independentemente de o conteúdo que produzem ser lixo digital, misoginia ou uma hipersexualização doentia.

Mas a culpa não é apenas dos jovens de 15 ou 16 anos que, imersos na cultura das redes sociais, procuram a validação fácil. A verdadeira responsabilidade recai sobre o sistema escolar e sobre os adultos na sala. Onde estavam as Direções destas 79 escolas? Como é que figuras que promovem ativamente valores antagónicos à educação cívica e ao respeito mútuo recebem luz verde para entrar num espaço que deveria ser seguro e formativo?

A resposta é tão triste quanto simples: por inércia, por falta de literacia digital de quem dirige as escolas ou por uma complacência disfarçada de “respeito pela autonomia dos estudantes”. Em nome de não parecerem antiquadas ou autoritárias, as direções escolares demitiram-se do seu papel de curadoria e de educação. Deixaram que o recreio fosse colonizado pelo algoritmo.

A escola pública tem o dever de ser um elevador social e um espaço de formação de cidadãos críticos. Se permitimos que as primeiras experiências democráticas dos nossos jovens sejam governadas pelo menor denominador comum da internet — onde quem grita mais alto e de forma mais javarda leva a taça —, não nos podemos queixar do estado da nossa política no futuro.

É urgente devolver o debate às escolas. Exigir que as campanhas se façam de ideias e não de likes. Caso contrário, continuaremos a formar gerações que confundem popularidade com competência e audiência com razão. E o preço dessa confusão, como agora descobrimos da pior forma, é demasiado alto.