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(A) :: Ser normal é o novo normal

Ser normal é o novo normal

De Seguro, homem que os camaradas do próprio PS dizem não ter centelha de brilhantismo, espera-se que devolva alguma sanidade a um país que pareceu, em muitos momentos, um ingovernável ninho de cucos.

Miguel Santos Carrapatoso
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A política portuguesa presta-se, de facto, a muitas singularidades. O líder do maior partido, que calha ser o primeiro-ministro em funções e estar na plena posse dos seus poderes, anda preocupado com sombras e a desafiar os rivais internos (?) a irem a jogo. O líder do segundo maior partido, que calha ter sido merecedor de quase 1.8 milhões de votos nas últimas presidenciais, parece não saber o que fazer com tanto voto e suspira pelo regresso do fantasma que aflige o outro. E o líder do terceiro maior, que calha chefiar um partido que ninguém quer chefiar neste momento, anda acelerar calendários, prazos e debates internos para tentar ganhar uma legitimidade política que muitos, no partido e fora dele, não lhe parecem reconhecer — e que não reconhecerão por muitas eleições internas que faça.

O primeiro não encaixa a ideia de que as sombras só se agigantam quanto mais em baixo estiver o foco de luz. O segundo não descortina uma fórmula para juntar o útil (protestar e ter votos) ao agradável (propor e governar). O terceiro não compreende que é preciso mais do que esperar que o primeiro falhe para herdar o poder, porque o tempo da alternância entre os dois maiores partidos tradicionais parece ter chegado ao fim.

É este problemático triunvirato que António José Seguro vai herdar como Presidente da República. E também a eleição dele, do novo Chefe de Estado, é singular: sucede a um homem a quem todos reconhecem o brilhantismo mas que, de tão brilhante que foi, conseguiu que o seu legado fosse exatamente o contrário daquele que porventura queria deixar. Um Presidente, aliás, que terminou como começou: num supermercado, desrespeitando o momento, banalizando a palavra, incapaz de perceber o papel que lhe estava destinado.

Se quiser levar a sério aquilo que prometeu, e não há nada que aponte em sentido contrário, António José Seguro terá uma missão hercúlea pela frente. Primeiro, porque a seguir a um Presidente que quis ser o “populista do bem” não será fácil ser ele o portador de más notícias. Mas terá de necessariamente de o ser. Sem o pavor, que Marcelo tinha, de deixar de ser amado pelo povo. Com o cuidado de tratar os portugueses como adultos, sem os “enganar” e “sem paternalismo”, como pediu recentemente Pedro Passos Coelho. Não é fácil e custará muitos votos. Mas é esse o papel de um Presidente da República.

Ao mesmo tempo, António José Seguro terá de tratar os líderes dos três maiores partidos como adultos. Sem se intrometer na refrega, sem condicionar, sem passar recados através dos jornais, sem fazer comentários avulsos sobre a personalidade de cada um, o novo Presidente da República tem de exigir responsabilidade e resultados para que os três possam ser justamente julgados pelo que fazem e, sobretudo, por aquilo que não fazem. E isso aplica-se a Luís Montenegro, claro, mas também a André Ventura e a José Luís Carneiro.

O novo Presidente da República será testado até ao limite — acreditar que os três partidos poderão manter esta paz podre sem que nenhum deles tenha a tentação de provocar uma crise artificial é uma fezada. O Parlamento está bloqueado e viciado em eleições. Seguro enfrentará uma crise política e será convocado a decidir se é altura de coser ou de rasgar. A forma como reagir a ela será determinante no seu mandato. Já prometeu não dissolver em caso de chumbo orçamental. Nada mau. Mas a determinada altura não dependerá apenas de Seguro — Montenegro, Ventura e (ou) Carneiro terão igualmente de decidir o que querem verdadeiramente.

Houve duas notas importantes no discurso de António José Seguro que parecem apontar no bom sentido: a recusa do “frenesim eleitoral” dos últimos anos, e que teve sempre a impressão digital de Marcelo Rebelo Sousa; mas também a recusa da estabilidade como um “fim em si mesmo”. O país teve ambos. Teve eleições (muitas) e teve estabilidade (uma ‘geringonça’ de quatro anos e uma malograda maioria absoluta). Como se viu e como se vê, a estabilidade serve de pouco quando a resistência à mudança é muita e o poder é inútil quando só serve para vencer as próximas eleições.

Seguro pode patrocinar essa mudança, fazendo fé de que terá autoridade e influência suficientes para obrigar os outros três protagonistas a colocarem o interesse nacional à frente do interesse partidário de quando em vez. Não é preciso estarem de acordo em tudo. Mais: é desejável que não estejam de acordo em tudo. Mas não será pedir muito que consigam encontrar pontos de entendimento (à direita e à esquerda) em matérias fundamentais.

De António José Seguro, homem que os camaradas do próprio partido dizem não ter uma centelha de brilhantismo, espera-se que devolva alguma sanidade a um país que pareceu, em muitos momentos, um ingovernável ninho de cucos. O país sempre adorou os predestinados (Guterres, Marcelo, Costa). Seguro venceu como sendo um homem normal — banal, dirão os detratores. Talvez o país, cansado dos predestinados, possa desejar que a exigência na normalidade seja o novo normal.