Há mais de quinhentos anos, os portugueses compreenderam algo que a geopolítica contemporânea continua a confirmar, quem controla os estreitos controla o comércio, e quem controla o comércio molda o poder global.
Muito antes de o petróleo transformar o Golfo Pérsico num dos centros nervosos da economia mundial, o Estreito de Ormuz já era um ponto de passagem vital. Por ali transitava um comércio vibrante de cavalos árabes, pérolas do Golfo e mercadorias vindas da Índia e da Pérsia. Era uma porta marítima que ligava o oceano Índico ao coração do Médio Oriente.
Afonso de Albuquerque percebeu isso com uma clareza estratégica extraordinária para o seu tempo. Na arquitetura do império português na Ásia, Ormuz não era apenas mais uma cidade. Era aquilo que o próprio chamou de a “terceira chave” “do sistema imperial”, ao lado de Goa e Malaca.
Se Goa garantia o domínio político e militar na Índia e Malaca controlava a passagem para o sudeste asiático, Ormuz fechava o triângulo que permitia vigiar o Golfo Pérsico e as rotas comerciais que ligavam a Índia à Pérsia e ao mundo árabe.
A primeira tentativa portuguesa de controlar Ormuz ocorreu em 1507. Albuquerque surgiu diante da cidade com uma frota surpreendentemente pequena, apenas sete navios e cerca de quinhentos homens. Mesmo assim, conseguiu impor ao soberano local um tratado que o obrigava a pagar tributo anual ao rei de Portugal.
Pouco depois iniciou a construção de uma fortaleza, Nossa Senhora da Vitória, destinada a consolidar a presença portuguesa.
Mas a história raramente se faz sem turbulência.
Nesse mesmo ano ocorreu o chamado “Motim dos Capitães”, um episódio de insubordinação em que três capitães abandonaram Albuquerque, interrompendo o projeto e obrigando os portugueses a retirar temporariamente da cidade.
A derrota foi apenas momentânea.
Em março de 1515, Albuquerque regressou com uma força muito maior, vinte e sete navios, cerca de mil e quinhentos soldados portugueses e setecentos auxiliares malabares. A 1 de abril retomou o controlo da cidade e reiniciou a construção da fortaleza, desta vez dedicada a “Nossa Senhora da Conceição”.
Com esse gesto consolidou-se o domínio português sobre um dos pontos mais estratégicos do comércio global.
Durante décadas, Ormuz funcionaria como uma verdadeira válvula de controlo das rotas do Golfo Pérsico.
O que impressiona hoje não é apenas o feito militar, mas a visão estratégica que o sustentava.
Sem satélites, sem mapas modernos, sem teorias geopolíticas formais, os portugueses do século XVI compreenderam intuitivamente aquilo que estrategas contemporâneos continuam a repetir, o poder marítimo depende do controlo de “pontos de estrangulamento”.
Ormuz era um desses pontos.
Tal como hoje o são o estreito de Malaca, o canal de Suez ou o estreito de Bab el-Mandeb.
Se olharmos para o mapa atual da energia mundial, percebemos que o Estreito de Ormuz continua a ser uma das artérias mais sensíveis do planeta. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por aquele corredor marítimo.
Ou seja, aquilo que para Albuquerque era uma chave do comércio asiático continua a ser, cinco séculos depois, uma chave da economia global.
A história portuguesa em Ormuz não foi apenas um episódio de expansão marítima. Foi uma demonstração precoce de pensamento estratégico global.
Portugal, um pequeno reino europeu na periferia do continente, percebeu antes de muitos outros que o mundo moderno seria definido pelo domínio das rotas marítimas.
Não se tratava apenas de explorar mares desconhecidos.
Tratava-se de compreender o mapa do poder.
E nesse mapa, Ormuz era uma peça central.
Cinco séculos depois, o mundo continua a girar em torno das mesmas passagens estreitas que ligam oceanos, economias e civilizações.
Talvez a verdadeira lição de Ormuz seja esta, a geografia muda pouco, mas quem a compreende primeiro costuma escrever a história.