Passou num tempo em que as séries juvenis portuguesas eram raras. Lançou atrizes como Paula Neves e Ana Rocha de Sousa, teve no elenco nomes como Pedro Penim ou Nuno Lopes. Está na memória de uma geração de espectadores. Mas hoje é praticamente impossível rever os episódios exibidos na RTP no final dos anos 1990. A estação pública conserva as cassetes, mas está impedida de exibir a série porque não detém os direitos de transmissão.
Frequentemente recordada à sombra do sucesso de Morangos com Açúcar, exibida anos mais tarde na TVI, Riscos foi um marco na história da televisão portuguesa quando se estreou no final de 1997. Internacionalmente, o fenómeno não era novo: nos Estados Unidos, Beverly Hills 90210 (1990) já tinha provado o êxito de histórias focadas na vida de adolescentes. Por cá, a RTP tinha experimentado o formato com Os Melhores Anos (1991), mas sem o impacto que a brasileira Malhação conseguiu quando aterrou na SIC em 1996. Foi essa conjuntura (e as audiências) que motivou a criação uma série que apelasse aos jovens portugueses.
Riscos estreou-se a 4 de outubro de 1997 na RTP1 e foi a revolução que prometia: entrava nos corredores da escola para retratar as dores próprias da idade. O tom era arrojado para a época. Abordava as amizades, as paixões e os conflitos familiares típicos da adolescência, mas também temas mais delicados e socialmente relevantes, como o bullying, a anorexia, a gravidez adolescente ou o consumo de drogas.
“A pedrada no charco dos Riscos foi os temas. Aquilo pretendia mesmo ser o que os miúdos na época pensavam e diziam, os problemas”, recorda Maria São José, diretora de produção da série. “E depois era o tipo de realização, e isso deve-se ao Manuel Amaro [realizador]. Foi no início das séries americanas de hospitais em que a câmara se mexe. As pessoas mexem-se e a câmara segue-as ao ombro. Isso cá nas novelas não se usava. Ou seja, do ponto de vista estético também foi um marco. Não era só as histórias, era a forma como eram contadas.”

O entusiasmo pela série começara, no entanto, ainda antes da estreia. O elenco reunia atores experientes (Alexandra Lencastre, Ana Zanatti, José Wallenstein ou Diogo Infante) com jovens intérpretes, descobertos através de um mega casting nacional que levou centenas de miúdos às instalações da RTP, com direito a vidros partidos. Da Avenida 5 de Outubro saíram atores em início de carreira, como Paula Neves (Anjo Selvagem só chegaria em 2001), Edmundo Rosa, Fernando Martins, Sara Gonçalves ou Ana Rocha de Sousa (a realizadora de Listen).
“Foi a primeira vez que se falou tão abertamente das coisas”, recorda Paula Neves. “Houve uma série juvenil anterior à nossa, mas não era tão revolucionária nos temas, era mais conservadora. A nossa foi das primeiras a abordar temas como a droga, o namoro, o bullying, a violência, as más notas, as relações com os pais, os abusos dos professores, eram tantos temas que eram ali falados, coisas que não eram abordadas na televisão portuguesa. [Riscos] foi muito revolucionária. Mostrou a mudança de uma geração, de quem viveu os 90s, houve uma revolução de hábitos e de maneiras de estar. Penso que apanhámos esta revolução de costumes. Faz parte da memória de quase toda a gente que viveu essa década.”
A atriz não tem nenhum registo da série. “Infelizmente não [tenho]. Sei que alguns colegas têm em VHS, mas não tenho nada”, lamenta. “Acho muito mal [não estar disponível], quem me dera que fosse possível. Recebo muitas mensagens a perguntar porque é que não passa [na televisão]”.
Provavelmente são pedidos dos muitos jovens que paravam em frente à televisão ao fim-de-semana para ver as peripécias destes estudantes a quem, aparentemente, tudo acontecia.“Eles estão aí. Sempre prontos a surpreender-te. Para o melhor e para o pior. São assim as coisas. São assim os teus riscos. Não percas, amanhã, depois do Telejornal”, ouvia-se na promo da série, que demonstrou que este público tinha lugar na ficção nacional.
De acordo com o registo de transmissões, consultado pelo Observador nos arquivos da RTP, depois da primeira exibição, a RTP voltou a transmitir Riscos três vezes. A primeira foi logo um ano depois, em 1999, na RTP 2, com a segunda temporada a espraiar-se pelo ano 2000. Em 2001, Riscos tornou ao primeiro canal, com episódios até 2002. A última vez que a série passou na estação pública foi em 2003, na RTP Madeira, prolongando-se até 2004.
Desde então, não mais se ouviu falar de Riscos. Mas ela vive na memória de alguns. Rui Cruz, humorista e guionista, e um dos confessos obcecados com a série da sua adolescência, não tem perdido a oportunidade de perguntar pelas “cassetes” desde que começou a navegar no universo audiovisual. “Aquilo não me saía da cabeça”, diz ao Observador.
Chegou mesmo a ter uma rubrica num programa na extinta rádio Super FM em que procurava mais informação sobre a série. “Riscos era uma série juvenil que passou nos anos 90 na RTP e que marcou a vida de muita gente como eu. Foram os Morangos com Açúcar, mas era mais marijuana com Sumol”, dizia num episódio em 2013. Em “Dona Branca e os Seus Três Maridos”, programa que fazia com Vasco Duarte e Diogo Batáguas, constava sempre a rubrica “Onde está o famoso e o André dos Riscos?”, em que recuperavam uma personalidade célebre e tentavam obter mais informação sobre o ator que desempenhava a personagem da mítica série. Mas nem André, nem Riscos. “O mais próximo que chegámos foi um ouvinte que ligou a dizer que o tinha visto em Alenquer”.

Entre dentes, nos corredores, o comediante ouviu várias teorias sobre o desaparecimento de Riscos do pequeno ecrã. “Uma vez ouvi uma história de uma inundação na RTP em que se tinha perdido as cassetes, depois que tinha sido um produtor que tinha entrado em incompatibilidade com a RTP e que teria emigrado para o Brasil e que tinha levado os conteúdos todos com ele. Se é verdade ou não, não tenho a certeza”, admite.
Um imbróglio: afinal, quem detém os direitos dos Riscos?
Quase três décadas depois da estreia de Riscos, ninguém parece saber ao certo quem detém os direitos de exibição da série. Nem guionistas, nem realizadores — e nem sequer a Sociedade Portuguesa de Autores conseguem apontar um titular claro.
“Os guionistas abdicaram dos direitos de autor por uma cláusula contratual. Só tínhamos direitos de autor sobre o próprio guião”, diz Vanda de Sousa, uma das guionistas da série, ao Observador. “Era comum acontecer naquela época.” Também Manuel Amaro da Costa, um dos realizadores, garante não ter direito sobre a obra — diz não ter sequer cópias da série. “Na altura não era comum, não eram distribuídas cópias”, afirma ao Observador, por telefone. “Sei que há alguns excertos na internet.”
Contactada pelo Observador, a Sociedade Portuguesa de Autores confirma que desconhece a quem pertencem os direitos de exibição da série. “Face à cessação de atividade por parte da produtora FIT, desconhecemos a quem pertencem, de momento, os direitos da série Riscos”, refere a entidade, por e-mail.
A FIT — Filmes e Vídeo LDA é a produtora cujo logótipo cor-de-laranja com letras brancas surgia no ecrã no final cada episódio de Riscos. A empresa foi fundada pelo Serge Weissman, produtor brasileiro radicado em Londres, explica ao Observador Maria São José, a diretora de produção de Riscos. “Fui contactada pelo Serge Weissman para ir a Londres. Ele queria produzir uma série juvenil que estava já vendida à RTP”, recorda a profissional que na época trabalhava na TVI. Quando São José entra no projeto, Weissman já tinha firmado contrato com a RTP e iniciado contactos com a argumentista brasileira Ana Maria Moretzsohn, conhecida pelo trabalho na novela Malhação. Seria ela a assumir a “autoria” de Riscos, como se comprova nos créditos no início de cada episódio. “A Ana Maria mandava o que se chama uma “escaleta” e depois os três guionistas [Pedro Castro, Vanda de Sousa e Victor Barra] faziam os diálogos”, recorda a diretora de produção.
São José foi contratada por Weissman através da Focus International Television, empresa que tinha sede no Reino Unido, onde o brasileiro estava radicado. Os contratos com a RTP terão sido celebrados com essa empresa, e não com a FIT, uma empresa que, segundo documentos consultados pelo Observador, nasceu apenas a 18 de fevereiro de 1997, ano da estreia de Riscos. “Todas as semanas enviavam dinheiro para a conta da FIT, porque lá em Londres recebiam diretamente da RTP. Depois iam-nos transferindo tranches mensais”, explica São José. “Fizemos uma planificação do dinheiro e entregámos os episódios.” Durante a produção da série, diz, tudo funcionou na FIT sem sobressaltos. “Pagávamos aos atores à semana. Se fossem gravar um dia, recebiam logo nesse dia. Corria lindamente.” Mas as coisas mudaram quando, depois de a série terminar, a FIT se preparava para produzir um novo projeto também para a RTP: Diário de Maria (1998).

“O diretor financeiro deles, que vinha cá de vez em quando ver as coisas, foi despedido pelo Serge em Londres. Depois vinham cá dois senhores e um diretor financeiro novo que vinham dizer que para a série do Diário de Maria, que estava em início de pré-produção, não precisavam do João Pedro [Lopes, então diretor financeiro da FIT] porque a direção financeira do projeto ia ser toda feita de Londres”, conta Maria São José. “Disse-lhes que sem o João Pedro tinha de pensar [se queria continuar no projeto]. Perguntaram-me se me estava a despedir [risos]. E eu disse que quando chegasse um fax a despedir o João Pedro eu decidia. No dia seguinte vieram dois faxes, um a despedi-lo a ele e outro a mim”, recorda. “E apareceram dois senhores das Chaves do Areeiro a mudar a fechadura. Tivemos uma manhã para retirar as coisas do escritório, com eles a assistir, para irmos embora.” São José fechou as suas contas e desvinculou-se da produtora. “Depois sei que do ponto de vista financeiro aquilo correu mal para todos”, solta.
A informação é corroborada por Paula Neves, que depois de Riscos também participou em Diário de Maria. Quando perguntamos à atriz pelo nome Serge Weissman, a resposta sai disparada: “Fugiu”. “De repente desapareceu com os bolsos recheados. Fugiu. Nunca mais foi visto e deixou os compromissos financeiros por cumprir cá. A minha agência [Central Models] foi para tribunal e conseguiu resolver tudo, mas houve pessoas que não conseguiram, mesmo em tribunal”, relata. “Há 30 anos que não se consegue encontrar o homem. É grave principalmente porque foi uma série feita com dinheiros públicos…”
“Serge Weissman era uma personagem muito particular”, diz João Pedro Lopes, CEO da SP Televisão, que chegou a desempenhar o cargo de diretor geral da FIT. “Era um tipo com muitas ideias, algumas muito boas, mas se calhar prometia aquilo que não tencionava cumprir. No meu caso, no período da rescisão foi tudo muito simples, mas ele depois desapareceu e não recebi um centavo do acordo que andámos a negociar. O que levou à minha saída da empresa foram os modelos de gestão um bocadinho… fantasiosos.”
João Pedro Lopes chegou a procurar o produtor brasileiro, mas sem sucesso. “Tentámos alguns contactos porque existiam dívidas. Ainda contratei um advogado para receber estes valores, tentei junto da Focus em Londres, mas já nessa altura não conseguimos localizar ninguém.” “Isto já em 1999, 2000 no máximo”, sublinha. “Nunca mais ouvi nem soube dele.”
De facto, depois de Diário de Maria, que foi transmitida entre 1998 e 1999, o rasto da FIT perde-se. E definitivamente em 2008, quando a empresa fecha. A dissolução da sociedade FIT Portugal — Filmes e Vídeos, LDA data de 6 de junho de 2008. A última sede conhecida é no 4.º esquerdo do número 40 da Calçada Marquês de Abrantes, em Lisboa. Nas redondezas, não há memória da produtora e no dito prédio funciona um hotel boutique.
“O Serge Weissman esfumou-se. Não sei se ele morreu, se vive das rendas dos prédios dos pais. Até pode estar a fazer projetos no Sri Lanka, mas a sua atividade desapareceu”, diz Maria São José. O Observador tentou localizar o produtor brasileiro, sem sucesso.
O desaparecimento da produtora deixou os direitos da série num limbo jurídico. Uma “sociedade extinta não pode ser titular dos direitos”, explica João Assunção, advogado e associado coordenador na NLP, sociedade de advogados especializada em propriedade intelectual. “Com o registo do encerramento da liquidação, a sociedade considera-se extinta, e deixa de ter capacidade jurídica, nomeadamente para ser titular de direitos”. Nesse cenário, o “mais provável”, considera, é que esses ativos da sociedade — no caso, os direitos de exploração da série — “tenham passado para os sócios com a liquidação da sociedade”. É, no entanto, possível que estes possam “ter posteriormente transmitido esses direitos a terceiros” e também há “a possibilidade de no próprio processo de liquidação ter sido necessário vender esses direitos para satisfação de eventuais dívidas da sociedade”.
De acordo com João Assunção, “a transmissão sucessória dos direitos deve também ser documentada e registada para assegurar a sua eficácia”. Se tal documento de transmissão de direitos existe, não chegou à Sociedade Portuguesa de Autores, que “não está em condições de confirmar a quem pertencem os direitos da série, pois desconhece o teor da generalidade dos contratos supostamente celebrados entre os seus diversos autores e a produtora associada ao projeto, bem como o acordo firmado por esta com a RTP”. Já a Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC) afirma não dispor no “arquivo de qualquer registo de obra relativo a uma obra audiovisual com o título Riscos“.
De acordo com a informação disponível na Conservatória do Registo Comercial de Lisboa, a extinta FIT tinha apenas dois sócios e quotas, detidos pela mesma entidade, a Focus International Television. A informação é corroborada pela prestada pela RTP ao Observador, que ao confirmar que “não tem direitos para licenciar o conteúdo a terceiros ou para publicar online o conteúdo pretendido”, indica que “os direitos pertencem à FOCUS International Television, Lda”. Numa curta resposta por e-mail, asseguram que não têm contactos da dita entidade.
“Nunca percebi se tinham outras atividades. Era um escritório com duas ou três pessoas em Londres. E eram todos da área financeira, não havia ninguém da área de produção. É provável que já nem exista”, diz João Pedro Lopes.
A Focus International Television tem como última sede conhecida em Heathgate, 75-83 Agincourt Road, Hampstead, Londres NW3 2NT. A morada é atualmente ocupada pelo Span Group Ltd, uma promotora imobiliária que, contactada telefonicamente sobre o paradeiro da Focus International Television, limita-se a dizer: “Não confirmo, mas também não seria algo que pudesse confirmar”, recusando prestar mais esclarecimentos e terminando a chamada.
Nos documentos disponíveis na Conservatória do Registo Comercial de Lisboa consta que, em 1999, a FOCUS International Television designou como gerente Christopher William Rowe. Mais um nome no processo — e mais um sem rasto.
RTP diz que “não está em cima da mesa readquirir direitos”
“Independente de tudo isto, os Riscos valeram a pena. Foi dos projetos que mais gostei de estar envolvido”, admite João Pedro Lopes que, confrontado com o teor da reportagem, solta: “Achei que nunca ia receber nada… [Se descobrir de quem são] podia ir cobrar os direitos. Sempre podíamos todos jantar”, ri.
Este impasse em torno dos direitos da série não é uma novidade para todos. É o caso da realizadora Ana Rocha de Sousa. Em declarações ao Observador, recorda “um trabalho de equipa e de conjunto que é raro encontrar-se ao longo da vida”. “Talvez por ter sido um dos meus primeiros trabalhos tenha reservado um lugar tão quente no coração”, admite. “Ficámos um grupo super unido, de tal forma que continuamos a comunicar”, continua, revelando que chegou a cogitar voltar à história. “Gostávamos de fazer um remake bastante anos mais tarde e foi assim que passei a saber que havia questões não resolvidas que impediam essa possibilidade à partida. O que é uma pena”, considera. “Surgiu essa ideia há bastante tempo e um tempo depois vieram a fazer [um remake] dos Morangos Com Açúcar”.
O departamento de comunicação da RTP garante, porém, que “não está em cima da mesa readquirir direitos da série mencionada”. Gonçalo Madaíl, diretor da RTP Memória, não respondeu aos contactos do Observador. Nos arquivos da estação pública continuam guardadas as duas temporadas de Riscos (68 episódios no total). O material pode ser consultado presencialmente, mediante agendamento e pagamento: 50 euros por hora de visionamento, acrescidos de IVA.
“Por acaso tenho em VHS”, diz Ana Rocha de Sousa. “Os meus pais tinham um gravador de VHS e gravavam tudo”. Tirando casos isolados como este, rever a série tornou-se praticamente impossível. Sem que ninguém consiga identificar claramente quem detém os direitos, Riscos continuará inacessível ao público. A série existe, está preservada em arquivo, mas para a maioria dos espectadores continuará fora da vista.