O papel da mulher na sociedade tem evoluído de forma profunda ao longo das últimas décadas, mas continua a exigir coragem, resiliência e uma capacidade extraordinária de equilíbrio. A mulher contemporânea não ocupa apenas um espaço, mas vários, simultaneamente e permite-se transformar cada um deles com a sua presença única.
A mulher mãe é, por si só, uma missão exigente e nobre. É educar, orientar, amar incondicionalmente e preparar cidadãos para o futuro e este será um dos desígnios mais importante da sua missão e a mais altruísta. É estar presente nos momentos de fragilidade e celebrar cada conquista. A maternidade revela uma força extraordinária, ímpar, mas ao mesmo tempo silenciosa, feita de uma entrega diária, organização e uma capacidade infinita de dar.
Essa capacidade de dar reproduz-se noutras dimensões de responsabilidade, profissional e social com a mesma entrega e dedicação. Como mulher profissional da área da Medicina, especialmente numa área tradicionalmente exigente como a Ortopedia, que requer rigor científico, tomada de decisões sob pressão e uma dedicação constante ao bem-estar dos outros, como cuidar, operar, acompanhar a recuperação, a mulher, alia competência técnica ao humanismo.
Na década de 80, escolher ser médica já era um desafio exigente. Mas escolher ser ortopedista era, para uma mulher, um ato de ousadia.
A Ortopedia era vista como uma especialidade apenas para quem usava calças. Exigia força física, presença firme no bloco operatório e uma resistência que, de forma preconceituosa, muitos acreditavam não ser compatível com a construção da imagem frágil do que então, a mulher representava e do seu papel na sociedade. Nos corredores dos hospitais, ecoavam vozes graves, e transpirava-se masculinidade. A imagem de uma mulher a empunhar instrumentos cirúrgicos causava estranheza, mas sobretudo desconfiança.
Nesse final do século, uma mulher que entrasse nessa especialidade precisava de provar, todos os dias, que merecia aquele lugar, estar ali. Não bastava ser competente; era necessário ser irrepreensível. Cada decisão clínica era observada com mais atenção, cada erro tinha um peso maior, cada conquista demorava mais a ser reconhecida, quando o era. Muitas vezes, a dúvida surgia antes mesmo da oportunidade.
Ser mulher é também aceitar os desafios silenciosos; a dificuldade em conciliar horários exigentes com a vida familiar, a solidão de ser “a única mulher” numa equipa. O ambiente foi duro, competitivo, nada sensível às necessidades específicas de quem, além de médica, também era mãe.
Mas foi precisamente esta resiliência que abriu caminho às gerações seguintes. A mulher ortopedista do início dos anos 90, não pediu espaço, conquistou-o. Este espaço foi feito com estudo, dedicação, coragem e uma enorme resiliência emocional. Cada cirurgia bem-sucedida era mais do que um ato médico; era uma afirmação de competência. Cada passo dado era um precedente criado.
Hoje, a presença feminina na Ortopedia é uma realidade crescente. E muito desse progresso deve-se às mulheres que, numa época de maior resistência e preconceito, decidiram não recuar. Tenho orgulho em ter sido uma das pioneiras não apenas na técnica cirúrgica, mas sobretudo na transformação cultural dentro dos hospitais.
Mas para além do papel de mãe e profissional, a mulher assume alguma vezes, ainda que em proporção minoritária, o dever cívico de servir o próximo, envergando lideranças políticas e este foi também um papel que abracei em consciência e sentido de responsabilidade, um compromisso que assumi com a comunidade e com o debate público. Esta participação ativa na política tem sido realizada com um elevado sentido de missão, defesa de valores e com uma determinação inabalável de contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária.
O meu exemplo mostra que o papel da mulher na sociedade não é limitado por rótulos. Pelo contrário, é múltiplo, complementar e transformador. A mulher pode ser mãe, profissional de excelência, líder política, não porque tenha de provar algo, mas porque tem capacidade, visão e determinação para ocupar todos esses espaços com mérito.
Mais do que conciliar papéis, a mulher integra-os. E, ao fazê-lo, inspira outras mulheres, jovens e meninas a acreditarem que o seu lugar é onde quiserem estar; com competência, dignidade e impacto real na sociedade.