Já passava das três da tarde quando, no final do almoço oferecido pelo novo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa desceu a rampa de Belém pela última vez. De dentro do carro fazia uma espécie de coração com as mãos a um grupo de jovens que por ali estava — eram de Penamacor e vinham para visitar os jardins do Palácio com o novo inquilino, António José Seguro. Com o novo Presidente falaram muito brevemente e sempre com os jornalistas ao longe.
Não há registo desses momentos no Palácio de Belém a menos de 100 metros de distância e, por isso mesmo, muito menos existem registos do que o Presidente conversou com a população quando os jardins foram abertos ao público. A primeira marca de Seguro por ali é a total mudança de estilo, para um mais recatado e cauteloso.
Mesmo antes de entrar em cena, já os jornalistas estão circundados por uma baia de segurança preta que os mantém bem afastados do local onde decorrem contactos. Não há improvisos e se acontecerem ninguém os vê. Um diferença significativa face ao antecessor que, de manhã, tinha feito um compasso de espera, pela Rua de São Bento, aproveitando para ir ao supermercado, a uma papelaria e ainda a um antiquário. Sempre seguido pela comunicação social, apanhada de surpresa — ainda que fossem incontáveis, nestes dez anos, os inéditos e improvisos de Marcelo.




No primeiro dia como ex-Presidente, fez tudo para cumprir a promessa de manter o silêncio. Mas manter-se calado é uma coisa, manter-se discreto é outra. No caso de Seguro, as duas misturam-se e a cerimónia decorre sem acrescentos ao protocolo e, por isso mesmo, cautelosa e sóbria. Mesmo com estas diferenças notórias de estilo, neste momento, o país tem um ex-Presidente remetido ao silêncio e um atual Presidente ao silêncio remetido. Até ver.
O que António José Seguro trazia para dizer no primeiro dia ficou dito no discurso da tomada de posse, na Assembleia da República. Ali fez uma “enumeração demasiado longa e pesada” dos principais problemas do país, para logo a seguir dizer que “nenhum destes desafios se resolve com improvisação” ou metas viradas para um “calendário eleitoral de egoísta conveniência”. Declarou fim ao “frenesim eleitoral” e, nos gestos durante o dia, quis pôr gelo no frenesim de Belém.
A distância voltou a mostrar-se quando, durante a tarde, voltou a manter a comunicação social numa sala à parte durante o encontro que teve com um grupo de jovens no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. “Estou aqui para vos ouvir. Agora calo-me“, declarou no início. Os jornalistas ouviram através de uma televisão, noutra sala, as dúvidas colocadas por alguns dos 52 jovens — entre eles estava Francisco Paupério, do Livre — e a resposta de três minutos de António José Seguro a prometer continuar a conversa numa iniciativa a organizar pela sua Casa Civil.




“Vamos continuar este diálogo que tem de ter consequência”, disse o Presidente que se compromete a fazer uma “coligação com os jovens”. Comparou-se com a geração para dizer que no seu tempo “tinha uma avenida enorme” à sua frente, enquanto eles “têm uma rua muito estreita“. Prometeu ouvi-los, na sua passagem por Belém, e disse-lhes que o problema do país é “falta de coragem e vontade política” para concretizar mudanças. À saída, os jornalistas ainda tentaram questioná-lo com o (não) andamento das negociações da reforma laboral, mas o novo Presidente justificou-se com a agenda apertada para sair sem nada dizer.
No Palácio Nacional da Ajuda, mesmo ali ao lado, já o esperava Marcelo Rebelo de Sousa, de pé sozinho no meio da sala dos Embaixadores (onde normalmente decorrem as posses do Governo), para receber a condecoração que, tradicionalmente, os novos Presidentes dão aos ex: o Grande Colar da Ordem da Liberdade. Foi o que Jorge Sampaio fez com Mário Soares (1996), o que Cavaco Silva fez com Sampaio (2006) e o que Marcelo fez com Cavaco (2016).
Ainda sem chefia para Casa Civil
António José Seguro evitou sempre fechar-se num modelo de Presidente. Todas as vezes em que foi questionado, durante a campanha, respondeu tirando um bocadinho de cada um (de Soares a Cavaco) para mais tarde poder construir o seu próprio perfil. Há um dado em que já se diferencia dos seu antecessores, pelo menos dos mais recentes: entra em Belém sem chefe da Casa Civil.
Em 2006, Cavaco Silva anunciou logo em fevereiro que Nunes Liberato ficaria à frente da sua Casa Civil e, em 2016, Marcelo cumpriu o mesmo calendário e anunciou Frutuoso de Melo para essa função. Assim que terminaram a corrida eleitoral, os dois designaram de imediato o braço direito para as funções em Belém. No caso de Seguro, um mês depois de eleito, ainda não terá esse nome fechado. Tanto que, no dia da posse, fez saber que terá de contar com uma solução transitória para essas funções, Cláudia Ribeiro.

É a nova secretária do Conselho de Estado e, por agora, vai também chefiar a Casa Civil, segundo fez saber a assessoria do novo Presidente durante o dia da posse. Tem experiência em Belém, já que nos últimos cinco anos foi consultora para os assuntos políticos do Presidente da República. Na nota curricular disponibilizada à comunicação social consta que é licenciada em Direito e tem mestrado em Gestão e Políticas Públicas. Foi assessora parlamentar, diretora do Centro de Formação Parlamentar e Interparlamentar, chefe de divisão de Apoio às Comissões e diretora de Serviços de Apoio Parlamentar.
Não há qualquer justificação avançada para ainda não existir chefe da Casa Civil, nem mesmo uma data para esse nome ser anunciado. Para chefe da Casa Militar, Seguro já escolheu o tenente-general Paulo Emanuel Maia Pereira que, até dezembro, foi vice-chefe do Estado-Maior do Exército. E indicou Manuela Teixeira Pinto para assessora diplomática da Casa Civil.

Em Belém, por agora, há uma equipa de transição, que mistura elementos da equipa do antigo Presidente com os do novo, nomeadamente ao nível da comunicação. Mas a estratégia, essa já foi virada do avesso, para ficar à imagem e semelhança de Seguro. Quase tanto como o menu composto para o primeiro almoço que ofereceu em Belém (para chefes de Estado, outras altas individualidades): sopa de peixe, mas também cabrito assado no forno, à moda da Beira Baixa de onde é natural, sericaia e vinho tinto Serra P, da sua produção em Penamacor.
À mesa também teve o Presidente cessante, que foi dos últimos convidados a sair de Belém. Já no final do dia, foi dos primeiros a sair do Palácio Nacional da Ajuda, quando lá dentro decorria a receção de António José Seguro. Foi o primeiro momento onde pode pôr em prática a palavra dada: ficar em silêncio. Por agora cumpriu, agradecendo apenas a “paciência” dos jornalistas. Mas lá está, calado é uma coisa, discreto é outra. Houve uma “marselfie” de despedida antes de entrar no carro.