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Detenção de irmãos mariachi premiados agita republicanos e democratas no Texas

Antonio e Caleb Cuellar chegaram a ser convidados há nove meses para serem homenageados pela congressista texana no Capitólio e agora enfrentam a ameaça de deportação para o México.

João Paulo Godinho
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De vencedores de um concurso mariachi e convidados em junho passado para visitar o Capitólio dos Estados Unidos a detidos pelos agentes anti-imigração do ICE (Immigration and Customs Enforcement): esta é a história dos irmãos Antonio e Caleb Cuellar, de 18 e 14 anos, respetivamente, cuja detenção está a agitar o Texas e a unir democratas e republicanos nas críticas a excessos na implementação da agenda anti-imigração da administração de Donald Trump.

Os dois irmãos, símbolos da comunidade mariachi no sul do Texas, estão detidos desde o dia 25 de fevereiro com o seu irmão mais novo, Joshua (12 anos), e os pais, tendo sido levados para o centro de detenção de Dilley, no Texas. Estas instalações já estiveram sob forte polémica recentemente, pois foi aqui que estiveram detidos Liam Conejo Ramos, o menino de 5 anos levado do estado do Minnesota, e o seu pai.

A família dos irmãos mariachi chegou aos Estados Unidos em 2023, através da fronteira de Brownsville, no Texas, ao abrigo de um pedido de asilo e fixou-se na cidade de McAllen, segundo conta o The New York Times. O pai, Luís Martinez, revelou ao jornal que tomaram a decisão de rumar aos EUA, depois de ter sido sequestrado por um cartel e de ter recebido ameaças em San Luis Potosí, no México.

Em pouco tempo integraram-se com sucesso na comunidade local, sobretudo através da música. Antonio e Caleb são membros da banda Mariachi Oro, do liceu de McAllen, que já se sagrou campeão estadual por oito vezes. O êxito levou-os, inclusive, a serem elogiados e convidados pela congressista republicana Monica De La Cruz para virem ao Capitólio, com a detenção a deixar agora a representante do 15.º distrito do estado texano preocupada e crítica de eventuais excessos na repressão à imigração.

https://twitter.com/monica4congress/status/2030390591008251961

“A história da família Gámez-Cuéllar parte-me o coração. Os texanos do sul sabem melhor do que ninguém que podemos proteger a nossa fronteira e ainda assim tratar as pessoas com dignidade — esses valores não são incompatíveis. Tenho insistido repetidamente que a aplicação da lei deve visar aqueles que realmente ameaçam as nossas comunidades, e não pessoas boas, cumpridoras da lei e talentosas que estão a seguir o processo legal”, afirmou, numa mensagem publicada na rede social X.

No passado, a congressista republicana tinha elogiado os dois irmãos pelo “trabalho árduo, talento e dedicação” e salientara o orgulho da respetiva comunidade. Monica De La Cruz garantiu ainda estar em comunicação com o Departamento de Segurança Nacional — que tutela o ICE —, a Patrulha de Fronteira e líderes comunitários “para explorar todas as opções legais disponíveis para ajudar a família Gámez-Cuéllar”.

“O meu gabinete também solicitou uma visita ao centro de detenção em Raymondville. Estas pessoas são nossos vizinhos, amigos e membros valiosos da comunidade”, reforçou.

A polémica em torno deste caso estendeu-se também aos democratas, com o representante Joaquin Castro e questionar as razões na base da detenção dos dois irmãos e da sua família.

“Donald Trump disse que iria atrás dos criminosos”, referiu, numa publicação nas redes sociais, continuando: “Disse que iria atrás das pessoas que representavam perigo para os americanos. Bem, como é que estes dois jovens eram bons o suficiente para se apresentarem no Capitólio dos Estados Unidos a convite da sua congressista? Eles eram seguros o suficiente para visitar a Casa Branca. No entanto, o governo Trump colocou-os numa prisão“.

A família, conta o New York Times compareceu sempre às audiências judiciais obrigatórias e tinha até sido ouvida pelas autoridades em janeiro, recebendo indicação para regressar somente em junho. Contudo, voltou a ser contactada pelos serviços do ICE para marcar presença numa diligência a 25 de fevereiro, dia em que ficou detida.

Entretanto, o mais velho dos irmãos, Antonio, foi separado da família e levado para outras instalações em Raymondville, no Texas, a mais de 320 quilómetros de distância. “Disse-lhes que ele é uma criança. Ele estava a chorar quando o levaram algemado“, afirmou o pai, Luis Martinez, assegurando que as autoridades do ICE têm pressionado a família para se voluntariar para a deportação de volta para o México.

Apesar das supostas pressões, a família deverá comparecer perante um juiz na próxima segunda-feira, na qual, segundo Luís Martinez, se espera que seja apresentado um habeas corpus a fim de permitir a sua libertação.