119 dólares por barril. É preciso recuar ao ano em que começou a invasão da Ucrânia para encontrar preços tão altos para o petróleo Brent. O máximo atingido nas primeiras horas de negociação esta segunda-feira foi o maior salto diário na cotação do petróleo, uma subida de 28% face ao fecho de sexta-feira. O mercado acalmou com o anúncio de que as maiores economias do mundo reunidas no G7 podiam libertar reservas, mas este alívio pode ser de curto prazo.
De acordo com a BBC, as sete maiores economias do mundo podem libertar até 300 milhões de barris das suas reservas estratégicas para por água na fervura do mercado petrolífero, numa ação concertada com a Agência Internacional de Energia. A confirmar-se, esta intervenção de emergência seria a maior até agora, e representaria mais do dobro das reservas libertadas após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Apesar de corresponder quase a um quarto dos sotcks, esta quantidade equivale apenas a três dias do consumo mundial ou a 15 de tráfego normal no Estreito de Ormuz.
Apesar dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão se terem iniciado há mais de uma semana, só na passada sexta-feira é que ficou mais clara a dimensão do choque que está a atingir o mercado energético. E que pode não se limitar à subida de preços, embora esse seja o primeiro sinal de alarme.
O ministro da Energia do Qatar avisou que a guerra no Médio Oriente ia obrigar os países do Golfo a parar toda a produção de petróleo e gás no prazo de “dias”. Em declarações ao Financial Times, Saad al-Kaabi acrescentou que a paragem da indústria petrolífera da região, por onde passa um quinto do petróleo e do gás natural do mundo, irá “arrastar para o fundo as economias mundiais” com o petróleo a atingir 150 dólares por barril, um valor que pulveriza o recorde de 2008 quando o petróleo atingiu os 147 dólares por barril.
Depois de se ter aproximado dos 120 dólares por barril, no final do dia, o Brent estava a ganhar “apenas” 7% e a negociar um pouco abaixo da fasquia dos 100 dólares por barril.
Ataques a instalações energéticas afetam produção de vários países do Golfo
Sem deixar grande margem para o otimismo, o ministro da Qatar alertou também que mesmo a guerra rápida prometida por Donald Trump terá consequências a mais longo prazo nos preços. O Qatar, que viu a sua principal unidade de gás natural de liquefeito em Ras Laffan paralisada por um ataque na semana passada, “vai demorar semanas a meses a retomar a normalidade”. O país invocou força maior para interromper os fornecimentos de GNL que têm como principal destino a Ásia, mas a Europa vai apanhar por tabela na medida em que a corrida a fontes alternativas de gás já fez disparar os preços no mercado spot na semana passada.
Esta semana, o petróleo está a ser estrela negra dos mercados, em reação a uma acumulação de eventos. Há ataques do Irão, sobretudo com drones, a várias instalações de produção e refinação em países do Golfo. Para além do Qatar, há relatos de ataques a infraestruturas energéticas — em particular refinarias, mas também portos e campos petrolíferos — no Iraque, Bahrain, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Todos estes países podem alegar força maior para interromper os fornecimentos.
Segundo a Reuters, os resultados já são visíveis. A produção do petróleo nos campos do sul do Iraque já caiu 70%, à medida que a capacidade de armazenamento também se está a esgotar. A Kwait Petroleum Corporation já declarou força maior para justificar o incumprimento de contratos, na sequência da disrupção da navegação. A Arábia Saudita já está a cortar a produção em dois campos, não obstante ter promovido uma rara licitação de 4 milhões de barris a entregar através do mar Vermelho e do porto de Yanbu, numa tentativa de atenuar o estrangulamento do estreito.
Sem Ormuz, acesso às maiores reservas mundiais fica em causa e as alternativas são insuficientes
O fecho do Estreito de Ormuz à navegação marítima está a reter centenas de navios no Golfo Pérsico, tendo já havido relatos de ataques a pelo menos 10 embarcações. A impossibilidade de navegar com segurança por este canal funciona também como um bloqueio no acesso às reservas do único produtor que tem capacidade para injetar petróleo no mercado e acalmar os mercado.
https://observador.pt/especiais/ataque-retaliacao-e-contagio-o-que-esta-em-risco-no-estreito-de-ormuz-e-quem-e-mais-afetado-em-11-respostas/
“Uma disrupção prolongada do Estreito de Ormuz pode deixar inacessível a grande maioria da capacidade adicional de petróleo do mundo que está concentrada na Arábia Saudita”, avisa a Agência Internacional de Energia, sem contudo especificar o que seria uma interrupção prolongada. As alternativas para contornar o Estreito de Ormuz são “limitadas”. Apenas a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos “têm pipelines operacionais que poderiam potencialmente redirecionar fluxos para contornar o Estreito, com uma capacidade estimada de 3,5 milhões a 5,5 milhões de barris por dia. Já outros países, como o próprio Irão, o Iraque, o Kwait, o Qatar e o Bahrein só podem exportar a sua produção por via marítima.
Numa folha de dados divulgada esta semana sobre a importância do Estreito de Ormuz para o comércio de produtos energéticos, a IEA (sigla inglesa) indica que cerca de 20 milhões de barris por dia de petróleo e produtos petrolíferas atravessaram este estreito em 2025, o que representa 25% do comércio mundial desta indústria. Esta fatia inclui refinados, em particular o gasóleo e o jet para a aviação, produtos dos quais a Europa depende do fornecimento do Médio Oriente, o que explica porque o preço do gasóleo disparou na semana passada, ainda antes do pânico chegar ao petróleo.
No gás natural liquefeito, foram transportados 110 milhões de metros cúbicos de GNL por Ormuz em 2025. O Qatar usou esta porta para exportar 93% da sua produção, percentagem que sobe para 96% no caso dos Emirados Árabes Unidos. Não há rotas ou vias alternativas para esta quantidade de GNL.
Europa vai reabrir os braços à Rússia?
Ainda que quase 90% dos volumes tenham como destino a Ásia, não há como evitar o contágio de outros países importadores, nomeadamente da União Europeia, pela via do preço.
Esta segunda-feira, o governo húngaro veio dizer em alto e bom som aquilo que alguns países europeus terão vontade eventualmente vontade de fazer. Apelou ao levantamento por parte da União Europeia do embargo às importações de petróleo e gás da Rússia.
“Com a guerra no Médio Oriente e escalar e o Estreito de Ormuz fechado, a maior fatia da oferta mundial de energia está agora em risco”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros Peter Sziijarto.
Vladimir Putin reforçou o apelo da Hungria, que é a maior aliada da Rússia na Europa, dizendo que o país “está pronto para trabalhar com os europeus no fornecimento de petróleo e gás”, desde que os certos “sinais sejam dados”. Até lá, a Rússia vai continuar a fornecer aos seus “parceiros confiáveis”.
Dependente de importações de gás e petróleo, a União Europeia assegurou na semana passada que o abastecimento de produtos energéticos não estava em causa. Já esta semana, vários países, entre os quais Portugal, estão a adotar medidas de contenção do impacto desta escalada nos mercados nacionais.