Na biblioteca, debruçado sobre a mesa de trabalho, voltado para a janela voltada para nós, o sábio suspira: “Há tantas coisas bonitas que não há!”. Às vezes, sente-se farto de pensar. Às vezes, gostaria de não saber alguma coisa. Em várias ocasiões, a figura da Morte bate-lhe à porta, disfarçada, convidativa, mas sempre reconhecida. Quer levá-lo para “o reino das sombras”. Até que ele decide partir, tirar o nariz dos livros, por mais que o tenham feito aprender e viajar. Assim se desenrola a narrativa de Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem, espetáculo assente na obra dramática e poética de Manuel António Pina (1943-2012).
Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem tem direção de Victor Hugo Pontes, cenógrafo e coreógrafo que é também o novo diretor artístico do Teatro Nacional São João. É lá que se estreia, na próxima quinta-feira, e por lá fica durante um mês. Trata-se da primeira produção própria do São João neste ano e representa também o primeiro gesto de Victor Hugo Pontes enquanto diretor artístico do mesmo. Assumiu esse papel em setembro passado, mas o convite para este projeto é anterior, explica.
O ponto de partida seriam os textos para a infância do poeta e jornalista que, tendo nascido no Sabugal, escolheu o Porto como casa. “Na altura, propus trabalhar, não só a partir da obra para a infância e juventude, mas também a partir da poesia, das crónicas”, recorda Victor Hugo Pontes. O resultado é uma criação multidimensional, construída em torno das palavras de Manuel António Pina, com composição musical a cargo d’A Garota Não.
Pontes começou por ler os textos de Pina para a infância e a juventude, foi avançando por outros géneros e fez uma primeira seleção de material. Mas até chegar à presente Pina Colagem houve muito caminho a fazer, com apoio de Jacinto Lucas Pires na hora de cortar texto, bem como na dramaturgia, e a visão dos próprios intérpretes a entrar em cena. Nos ensaios, a partir da leitura conjunta dos textos escolhidos, foi-se cortando ainda mais e fazendo uma colagem no chão, com os atores, “até chegar a esta estrutura e a esta seleção de textos, que têm diferentes proveniências: alguns estão fragmentados, e confesso que já não sei o que é de onde”.

Entre as crónicas favoritas de Victor Hugo Pontes, algumas foram excluídas por terem referências temporais, como nomes da política, ainda que outras continuem atuais — bastava “mudar o nome dos protagonistas”. “Preferi retirar esse material e deixar-nos mais nesta ideia do que é vida, o que é o sonho, o que há do outro lado, o que é a verdade, em vez de dar uma referência concreta”, sustenta. “O trabalho acaba por ser político também, porque o Pina tem essa expressão política, sem ser panfletário. Interessa-me muito mais quando as coisas estão lá como uma pulsação do que como uma bandeira que tentamos agitar em frente da face dos espectadores.”
“De pernas para o ar é a única maneira de pensar”
Para Victor Hugo Pontes, a obra de Manuel António Pina, Prémio Camões de 2011, tem muito a ver com um certo jogo de palavras, a capacidade de imaginar e o regresso à infância como um estado em que se olha para as coisas com abertura e espanto. “Todos foram crianças uma vez, mesmo aqueles que nos custa acreditar que tenham sido”, ouve-se, em palco. Surgem personagens-tipo, como a bruxa, o lobo, o papão, o polícia e o ladrão. Os intérpretes, nos seus fatos de cores vibrantes, dão vida aos diferentes pensamentos. Um deles, o “pensamento ao contrário”, desloca-se apoiado sobre as mãos, num pino de braços que nem lhe faz tremer a voz. “Para pôr as coisas no seu lugar é preciso pô-las de pernas para o ar”, afirma. “De pernas para o ar é a única maneira de pensar.”
“Crescemos e vamos perdendo a inocência. O Pina mantém-na, ou tenta manter. E tenta perceber o que está do outro lado, como é que as coisas são ao contrário. Mesmo a ideia da morte não é a morte real, física, de um corpo, é também a perda da inocência”, explica Victor Hugo Pontes. “O voltar à infância está muito presente, por isso é que a fisicalidade dos intérpretes deambula entre a ideia do gato, um animal que o Pina tinha muito, e a ideia do gatinhar para aprender a andar.” Por outro lado, a personagem do sábio, que “leu todos os livros do mundo, mas depois não sabe viver, porque não experienciou as coisas”, desperta outras reflexões. Afinal, “a gramática não chega para dizer tudo”.
Os figurinos (de tons azuis e laranja, com riscas, volumes, recortes, pregas e folhos) têm a assinatura do designer de moda Luís Carvalho. “Tentei encontrar uma pessoa com cuja estética pudesse dialogar, e que fosse contrastante com aquilo que tinha feito até agora”, comenta Pontes. Em cena chegam a estar 11 intérpretes, com idades e figuras diferentes. É intencional. “Acho muito mais interessante, muito mais rico, encontrarmos corpos que não são similares uns aos outros. Cria muito mais potencialidades de composição, o gesto feito por um corpo e por outro ganha leituras muito distintas. Depois, não somos todos iguais, e há uma tentativa de nos uniformizar”, afirma. Ora, “o Pina encontrava poesia no erro, na falha; quando ia na rua e lia “almoço” com dois esses, dizia que era poesia”.

Acresce que o espetáculo exige muito trabalho físico. Os intérpretes cantam, dançam, saltam, fazem a roda e o pino enquanto partilham histórias sobre o crescimento, a solidão, a memória e outras inevitabilidades da existência (“A vida não dói, quem dói somos nós”, cantam, em coro). O trabalho físico é algo caro a Victor Hugo Pontes, professor, encenador, cenógrafo e coreógrafo natural de Guimarães e residente no Porto, com formação em artes plásticas, teatro e dança.
“O desafio de me convidarem para trabalhar a partir da obra do Pina teve a ver com eu poder dominar esse lado da fisicalidade, da música, da interpretação; ser conhecido por cruzar linguagens e fazer objetos híbridos. Não sei se este espetáculo é um concerto, se é um espetáculo de dança, se é um espetáculo de teatro; ele vai deambulando, em diferentes momentos, por estas áreas”, conta Victor Hugo Pontes.
Por isso, quis fazer uma audição pública para encontrar intérpretes que dominassem, se não as três, pelas menos duas dessas áreas. Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, José Santos e Siobhan Fernandes foram os artistas selecionados, que se juntam a Jorge Mota (na pele do sábio) e ao elenco residente do São João: Joana Carvalho, Patrícia Queirós, Pedro Almendra, Pedro Frias, Ana Afonso Lourenço e Marco Olival.
Crónicas tornadas canções? A Garota Não disse sim
Desde o princípio, ficou assente que o espetáculo tinha de envolver música, até porque surgem canções nas obras de Pina. “Senti que A Garota Não podia dialogar muito bem com as palavras do Manuel António Pina, porque ela também tem um cariz político no que faz, é comovente, é emotiva na forma como compõe”, defende Victor Hugo Pontes, sobre a estreia da cantora no domínio das artes performativas. Ela aceitou o convite e escreveu algumas canções com base nas crónicas do escritor, para juntar aos poemas musicados e às canções que já o eram.

Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem dura cerca de hora e meia, tem legendagem em inglês e está acessível a maiores de 6 anos, embora seja aconselhado a crianças com pelo menos 10. Fica em cena até 12 de abril, com interrupção no fim de semana da Páscoa. Paralelamente, decorrem outras iniciativas em torno do universo de Pina, com destaque para o concerto acústico d’A Garota Não, no dia 14 de março, em plena cenografia do espetáculo. O alinhamento inclui as canções que escreveu para o mesmo, assim como temas dos seus três álbuns.
Estão todos a ver onde o autor quer chegar?: Uma Conversa sobre literatura, decorre no dia 21 de março, com a participação de Rui Lage, Gonçalo M. Tavares, Osvaldo Manuel Silvestre, Rosa Maria Martelo e João Luiz. E, por fim, são projetados dois filmes sobre Pina no dia 28, na Sala Ricardo Pais: As Casas não Morrem (2014), longa-metragem de Inês Fonseca Santos; e Um sítio onde pousar a cabeça (2011), curta de Alberto Serra e Ricardo Espírito Santo.
Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem tem dramaturgia de Jacinto Lucas Pires e Victor Hugo Pontes, cenografia de Fernando Ribeiro e desenho de luz de Wilma Moutinho. O desenho de som e a sonoplastia estão a cargo de Francisco Leal. Ana Celeste Ferreira assegura o apoio vocal e Cátia Esteves o apoio ao movimento e direção.