Na hora da despedida de Marcelo Rebelo de Sousa, o País político não escondeu um facto inegável: de certa forma, Marcelo venceu. Não deixa um legado substantivo enquanto Presidente, mas antes uma herança que o antecede no exercício do cargo. Marcelo triunfou depois de anos como comentador político, função que cumpriu com zelo e diligência em Belém. Sucede que o comentário político marcelista nunca foi substantivo. Depois de cinquenta anos de frequência contínua e assídua do espaço público, liderando audiências, opinando sobre tudo, não sobra de Marcelo uma ideia. Tornou-se uma presença constante, uma sombra permanente sobre a política portuguesa, deixando a todo o tempo a sua visão não sobre o conteúdo das políticas, mas sobre a forma como os actores políticos poderiam ou não ser interpretados pelos portugueses em função daquilo que diziam, quando diziam, como diziam, a que horas diziam. O País político, dos novos protagonistas ao jornalismo e ao comentariado, seguiu-lhe os passos e parece, hoje, só conseguir olhar para a política sob a marcelista forma. Só isso pode justificar o deslumbramento com que durante tanto tempo uma santola oca como António Costa foi, e é, admirado por tantos, elevado ao patamar do génio político. Ou, por outro lado, que Pedro Passos Coelho continue ainda hoje a deixar confusos todos aqueles que o ouvem.
Passos, depois de uma série de intervenções públicas e de uma longa entrevista onde tocou vários temas, deixou atónitos os observadores da política portuguesa. O que quererá ele? Quando? Como?, pergunta-se, numa sucessão de cenários hipotéticos elaborados que só adensam dúvidas e a nenhum dos problemas levantados pelo ex-Primeiro-ministro respondem. Passos Coelho disse coisas concretas, susceptíveis de debate, naturalmente. Pode concordar-se ou discordar-se do que ele disse. O seu próprio partido podia, e devia, ter agradecido as sugestões – eu acho, até, que Passos deu o sinal claro de como o PSD pode voltar a ser um partido maioritário e arrumar o Chega no balcãozinho do protesto, mas o País político pode não estar preparado para essa conversa. Ao invés, o partido do Governo começou por colocar o líder parlamentar a sugerir que Passos estava errado na crítica, numa posição que seria também legítima e justa se fosse suportada por factos e evidências. Não foi. Hugo Soares provou que Passos tinha razão: o Governo não tem agenda de reformas, não tem uma ambição e nenhum projecto, nem uma estratégia partidária que pudesse estar ao serviço dele. A táctica é tudo, princípio, meio e fim, serve o propósito da conquista e manutenção do poder, não serve para mais nada, acenando-se, aqui e ali, com promessas de reformas para deslumbramento de algum eleitorado mais fiel, sempre inconsequentes e absolutamente presentistas.
Ora, aborrecido e incomodado com a sombra de um líder, o chefe em exercício, Luís Montenegro, tirou as garras de fora. Não demonstrou que Passos estava errado. Não provou, com factos, que o Governo não se encontra num marasmo. Não agradeceu a crítica. E também não a ignorou, como podia ter feito. Montenegro, sinal bastante de que o País se encontra num pináculo de deselitização, de supremacia da banalidade e da mediania, reagiu como um velho cacique de concelhia e convocou eleições no PSD. Na sua cabeça de contador de votos e listagens, não compreendeu que não vai resolver problema algum. Um líder confirmado por eleições internas perante um aparelho canino e por si controlado pode, em teoria, reconquistar legitimidade e pôr fim a um desafio. Não percebeu que as críticas se manterão no ar, sem resposta, porque eleições internas não são resposta a argumentos, não explicam decisões, não resolvem défices de políticas públicas, não geram estratégia, servindo apenas para assegurar que o chefe da turma continua a mandar na manada partidária. Será útil para quem cresceu politicamente a ganhar eleições internas. É ligeiramente insuficiente para quem quer liderar um País. Passos Coelho teve de esclarecer tudo e todos, mandando o Luís trabalhar. O que resta de tudo isto é que ficou evidente para quem quis ver que, perante o aparecimento de um homem com a autoridade que lhe é dada pela história e pelas ideias que tem na cabeça, o que temos no lugar de Primeiro-ministro é uma mão cheia de coisa nenhuma. Não sei se perceberam, mas parece-me evidente que, neste momento, o País tem formalmente um Governo, mas materialmente ele acabou.