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Um Ministério da Resiliência para Portugal: três opções, um critério (II)

A palavra “resiliência” é fácil de dizer e difícil de governar. Porque não é um setor, e sim uma rede de dependências. Um incêndio não é só floresta.

Marco Antonio Catussi Paschoalotto
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No artigo anterior, a pergunta era: “Faz sentido?”. Agora a pergunta é mais difícil e mais útil: como se faz?

A palavra “resiliência” é fácil de dizer e difícil de governar. Porque não é um setor, e sim uma rede de dependências. Um incêndio não é só floresta; são comunicações, energia, saúde, logística, água, deslocações, economia local e confiança pública. Um ciberataque não é só tecnologia; é continuidade de serviços, contratos e resposta coordenada. A resiliência não é um gabinete: é um sistema.

Por isso, antes das opções A, B e C, importa fixar um critério: uma arquitetura de resiliência só funciona se tiver (i) mandato, (ii) músculo orçamental e (iii) capacidade operacional. Sem estes três, o resto é estética institucional.

5 princípios de desenho (para não repetir erros):

  • Mandato legal transversal: capacidade de definir padrões mínimos (continuidade, redundância e interoperabilidade) e de exigir planos setoriais.
  • Alavanca orçamental: condicionar o investimento público e os grandes projetos a requisitos de resiliência (um “teste de resiliência” obrigatório).
  • Operacionalidade: exercícios regulares, doutrina, interoperabilidade, comunicação pública e coordenação de recuperação.
  • Integração de ciber e de infraestruturas críticas: sem isto, o sistema fica cego aos riscos modernos.
  • Governação multinível: municípios e regiões têm de estar dentro do modelo – não como destinatários, mas como coautores.
  • Com isto em mente, há três caminhos realistas para Portugal.

Opção A – Ministério dedicado (modelo “agência de resiliência + agência operacional”)

Criar um Ministério da Resiliência com dois pilares: a) um pilar estratégico e normativo (standards, auditorias, planeamento, coordenação interministerial, stress tests); e b) um pilar operacional (emergência, proteção civil, capacidade de resposta, treino, interoperabilidade, recuperação).

O que ganha: visibilidade política e responsabilidade clara; capacidade de construir uma cultura de preparação; e coerência entre prevenção e resposta, se o desenho for sério.

O que arrisca: reestruturação pesada e inevitáveis disputas (“quem perde competências?”); risco de virar um “super-ministério” sem capacidade de controlar setores por meio de investimento e regulação; e custo de transição institucional.

Quando faz sentido: quando há capital político para reorganizar e quando o objetivo é uma reforma estrutural profunda, não incremental.

Opção B – Resiliência no centro do Governo (Presidência do Conselho / “sala de máquinas”)

Manter a execução setorial onde está (Ambiente, Infraestruturas, Saúde, Administração Interna, Economia), mas criar um Ministro (ou Secretaria de Estado) da Resiliência na Presidência do Conselho, com uma Unidade Nacional de Resiliência e poderes claros para: i) definir standards transversais; ii) obrigar a planos setoriais e municipais; iii) coordenar exercícios nacionais; iv) monitorizar indicadores públicos (um “painel de resiliência” anual); e v) crucialmente, trabalhar com Finanças/Planeamento para ligar resiliência a investimento.

O que ganha: máxima capacidade de coordenação “whole-of-government”; menos trauma organizacional; e maior probabilidade de impor disciplina transversal (por estar no centro).

O que arrisca: virar uma estrutura “de coordenação” sem dentes, se não tiver poder regulatório mínimo (standards) e alavanca orçamental (condicionalidade no investimento).

Quando faz sentido: quando se quer rapidez e eficácia transversal sem reinventar o Estado, e quando se quer ligar resiliência a reformas e ao investimento público.

Opção C – Reforço do modelo MAI/Proteção Civil com “músculo de prevenção” e governação transversal

Assumir que o país já tem um centro de gravidade na resposta (proteção civil) e reforçá-lo, criando um Sistema Nacional de Resiliência ancorado na Administração Interna, mas com duas correções: 1) um braço de prevenção e standards, com autonomia técnica e capacidade de auditoria intersetorial; e 2) uma governação interministerial obrigatória, com codecisão formal (Finanças/Planeamento + Ambiente + Infraestruturas + Saúde + Economia) para assegurar que “resiliência” não fica reduzida à resposta.

O que ganha: aproveita capacidades existentes e acelera a implementação; e fortalece comando e coordenação em crise.

O que arrisca: ficar demasiado centrado no “durante” e no “depois”, e pouco no “antes”; e resistência dos ministérios setoriais a standards impostos “de fora”.

Quando faz sentido: quando o foco é sobretudo operacional e a prioridade é criar um sistema de resposta rápido e robusto, desde que suportado pela tal alavanca de prevenção.

Qual escolher?

Se o objetivo é construir resiliência como política pública transversal (e não apenas proteção civil), a opção que costuma equilibrar melhor velocidade, coordenação e custo institucional é a Opção B, ou seja, resiliência no centro do Governo, com mandato e alavanca orçamental.

Mas a escolha não tem de ser binária. Há uma combinação muito plausível: B para governança e standards + reforço operacional onde já existe capacidade (proteção civil, ciber, infraestruturas), sem “puxar tudo para dentro” de um novo ministério.

Um plano de implementação em três movimentos (sem esperar por uma “grande reforma”)

1) Primeiros 100 dias: mapa nacional de riscos e dependências (infraestruturas críticas, serviços essenciais, cadeias de abastecimento), com prioridades e responsáveis.

2) Primeiro ano: padrões mínimos de continuidade e redundância + exercícios nacionais intersetoriais + “teste de resiliência” obrigatório para investimentos públicos relevantes.

3) Dois anos: consolidação de capacidades municipais e regionais, com financiamento condicionado e métricas públicas de desempenho (tempo de recuperação, redundância, cobertura de alerta, interoperabilidade, etc.).

E há aqui um detalhe político importante: o país está a discutir o PRR, mas a resiliência não pode ser um parêntese de 2021-2026. A estrutura que criarmos tem de viver para além de um programa. Se não for assim, voltaremos à velha tradição: aprender muito durante a crise e esquecer tudo quando ela passar.

A pergunta, no fim, é simples: queremos um Estado que reaja bem ou um Estado que aguenta? Se a resposta for a segunda, precisamos de menos slogans e mais de arquitetura institucional. E isso é uma decisão política, com um desenho técnico.