As interações de adolescentes com os chatbots [robôs] de Inteligência Artificial (IA) têm levado as autoridades do Reino Unido a receber denúncias concretas de casos de violação em alegados “rituais satânicos“. No último ano, jovens que procuraram o ChatGPT como “psicólogo virtual” foram “referenciados” a associações de apoio à vítimas de abusos.
A polícia do Reino Unido relata que tem recebido cada vez mais denúncias de violação relacionadas com o controlo das vítimas em “rituais de bruxaria, possessão espiritual e abuso espiritual”, avançou o The Guardian. Os casos deste tipo específico de violação, relata aquela autoridade ao jornal, eram até então subnotificados naqueles países, que não têm na sua legislação um artigo específico para este tipo de crime, que acaba por ser registado como “abuso sexual, violência e negligência envolvendo rituais, inspirados por satanismo, fascismo ou crenças religiosas esotéricas”. As vítimas eram desacreditadas pelas características “fantasiosas” dos rituais.
Entre os torturadores, estão familiares (na sua maioria homens, mas também há casos que envolvem avós e tias), traficantes de pessoas e grupos de pedofilia online. “As pessoas estão a usar o ChatGPT como uma forma de terapia. Há opiniões divergentes sobre isso, mas se for uma forma de obter apoio, certamente é algo positivo“, afirmou a presidente da Napac (Associação de Pessoas Abusadas na Infância), Gabrielle Shaw, ao The Guardian. Segundo a associação, estas denúncias não têm um “pico” entre as chamadas telefónicas recebidas, são mesmo uma constante entre os casos relatados. Dos 36.700 contactos em nove anos de trabalho, 1.310 mencionavam abusos em rituais organizados (cerca de 3,57% de todos os casos).
Profissionais de saúde mental têm realizado formações com as forças policiais britânicas para que saibam como atender a este tipo de denúncia. “Estes abusos não acontecem em culturas específicas. Ocorrem em famílias brancas britânicas, muitas vezes privilegiadas financeiramente. Não se encaixa em nenhum estereótipo sobre onde isto poderia ocorrer”, disse a psicóloga clínica Elly Hanson, que realizou em 2025 uma pesquisa sobre as características das condenações.