Houve um pouco de tudo. Foi preciso esperar até à década de 80 para o Sporting ter a sua primeira eleição com mais do que um candidato, curiosamente contando nessa corrida com o presidente com mais tempo no cargo (João Rocha), mas havia quase sempre uma esperança redobrada em todos os “escolhidos” para serem o rosto da liderança. Umas vezes correu bem, várias vezes correu mal e houve mesmo uma ocasião em que o cargo foi ocupado apenas por um dia antes de um convite para o governo. Houve um pouco de tudo.
Na antecâmara de novo sufrágio, desta vez com apenas dois candidatos (Frederico Varandas e Bruno Sá), o Observador recupera o perfil e o trajeto dos 43 presidentes da história do clube verde e branco, dos tempos em que fazer um ano na liderança era quase normal ao período em que a presidência chegava sempre depois de cooptações, passando por exemplos como Joaquim Oliveira Duarte, António Ribeiro Ferreira, Guilherme Brás Medeiros ou João Rocha que ficaram como principais referências (e “guias”) para uma nova era em Alvalade que se abriu a partir de meio da década de 90, com o advento do intitulado “projeto Roquette”.
Visconde de Alvalade (1906-1910). O financiador dos sonhos de um neto que começou tudo
Foi advogado, formado na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi empresário, com várias propriedades e casas como a Quinta das Mouras onde um dia iria nascer o Estádio José Alvalade. Foi ainda dirigente desportivo – e essa ficou como grande marca de legado, ao figurar como o primeiro presidente do Sporting entre 1906 e 1910. Para a história ficou uma zanga entre membros do Campo Grande Football Club, com José Alvalade e seus pares a procurarem fundar uma nova agremiação e a pedirem ajuda financeira ao avô, o Visconde de Alvalade. A ligação ao neto fazia com que a veia mais jovial ficasse mais latente e, perante aquele pedido, desembolsou 200 mil réis e cedeu terrenos naquela zona entre o Lumiar o Campo Grande para que nascesse o primeiro recinto da equipa que tinha como símbolo o leão rampante. Fez os primeiros Estatutos do Sporting, liderou o clube nos jogos iniciais de futebol realizados pela equipa verde e branca (que começou a jogar apenas de branco) e deixou a presidência em 1910, quando rumou a Londres, no seguimento da Implantação da República, ficando como líder da Mesa até julho de 1917.
Luís Caetano Pereira (1910 e 1912-13). Novos Estatutos e o primeiro jogo de futebol pago
Foi o sucessor de Visconde de Alvalade na presidência e esteve na liderança do clube em duas fases distintas, primeiro apenas em 1910 e depois entre 1912 e 1913 – neste caso um mandato importante no plano histórico, tendo em conta a inexistência de pessoas do “grupo” de José Alvalade nos órgãos sociais, que contavam com Daniel Queirós dos Santos, um dos principais críticos dessa influência, como vice-presidente. Militar de carreira (comandante), Caetano Pereira foi atleta de natação e ginástica sem nunca ter representado os verde e brancos, esteve na origem da aprovação dos segundos Estatutos acrescentando um Conselho Técnico e um Conselho Fiscal e Disciplinar e do segundo emblema do clube feito na Alemanha. Foi também com ele que houve o primeiro encontro de futebol no País com entradas pagas, neste caso no Lumiar, e que Manuel Arriaga, Presidente da República, visitou as instalações no âmbito da semana desportiva “O Mundo”.
José Alvalade (1910-1912). Uma visão e um lema que se tornaram traços identitários
Foi fundador, sócio número 1 e o principal dinamizador do nascimento do Sporting com os irmãos António e Francisco Stromp, os irmãos Francisco e Eduardo Gavazzo e Henrique de Almeida Leite Júnior. Nascido em Cascais numa família da aristocracia, chegou a estudar Medicina na Universidade de Harvard durante três anos antes de abdicar por não lidar bem com sangue e morte e destacou-se sobretudo pela veia desportista e ligada ao empreendorismo, sendo um dos elementos que saiu em cisão do Campo Grande Football Club para fundar um novo clube com a ajudar financeira do avô, o Visconde de Alvalade. Esteve em vários elencos dos órgãos sociais com múltiplas funções e liderou o Sporting entre 1910 e 1912 e foi atleta do clube no futebol com aparições esporádicas no ténis e no críquete. Foi autor da frase que ficou imortalizada como lema até aos dias de hoje, “Queremos que o Sporting seja um grande clube, tão grande como os maiores da Europa”, e impulsionador do Artigo 1 dos Estatutos que defendesse que o clube devia ser “uma associação composta de indivíduos de ambos os sexos de boa sociedade e conduta irrepreensível”. Morreu novo, aos 33 anos, vítima de epidemia pneumónica mas dá nome ao Estádio e é a figura que define a essência do clube.

Mota Marques (1913-14). Da sede na Rua Garrett à contratação de Artur José Pereira
Ao contrário do que aconteceu com José Alvalade e restantes dissidentes, percebeu aquilo que levou à cisão de grupos no Campo Grande Football Club mas acabou por permanecer, juntando-se só mais tarde, no final de 1912, ao Sporting como associado – o que, de acerta forma, acabou por mostrar a veia diplomática que lhe foi sempre atribuída enquanto líder dos leões. Antigo atleta de ginástica, assumiu o comando do clube em outubro de 1913, inaugurou a sede na Rua Garrett no Chiado, criou a Comissão de Revisão de Estatutos e esteve também na abertura do novo Stadium de Lisboa, uma ideia que vinha ainda dos tempos de José Alvalade. Ficou conhecido por contratar Artur José Pereira ao rival Benfica, tornando-o no primeiro jogador de futebol pago do País, mas teve sobretudo influência na forma como funcionou como ponte de transição entre o período de José Alvalade e novos tempos de maior “independência” da família.
Queirós dos Santos (1914-18). O ex-jogador do Sport Lisboa que foi de tudo no Sporting
Foi um homem dos sete ofícios no Sporting que começou no… Benfica. Antigo aluno da Casa Pia, jogava na Associação do Bem antes de mudar-se para o Sport Lisboa, clube que surgiu em 1904. Três anos depois, foi convencido pelas condições que o Sporting tentava dar aos seus atletas e mudou-se para o conjunto verde e branco, chegando a ser capitão da primeira equipa do clube que disputou o Campeonato de Lisboa antes de entrar noutras equipas como a de luta de tração à corda ou críquete. A partir daí, foi treinador, membro do Conselho Técnico, jornalista (tendo inclusivamente fundado o “Jornal de Sports”, em 1911) árbitro da Associação de Futebol de Lisboa e dirigente, passando por vários elencos diretivos do Sporting até chegar à presidência em 1914 sendo o rosto de “oposição” à influência que José Alvalade tinha no clube. Esteve quatro anos na liderança do Sporting, aprovando os terceiros Estatutos do clube, ganhando o primeiro Campeonato de Lisboa em futebol e dando viabilidade económica ao projeto das instalações desportivas inauguradas mais tarde. Ainda liderou a Mesa da Assembleia Geral e esteve no primeiro Conselho Geral.
Mário Pistacchini (1918 e 1918-21). Quase 53 mil escudos para obras e o aumento de sócios
Começou por estar ligado ao Clube Português de Futebol, ao Estefânia e ao Sport Clube Império, chegou à órbita do Sporting em 1910 quando se fez sócio dos leões. Ainda passou pela equipa de terceira categoria do futebol mas foi como dirigente que mais se evidenciou, tendo uma primeira passagem pela liderança quando assumiu o comando de uma Comissão Administrativa durante três meses e mais tarde de três anos como presidente eleito do conjunto de Alvalade. Foi campeão de Lisboa no futebol, introduziu a natação no clube, aprovou os quartos Estatutos, autorizou que o Sporting pudesse formar filiais e delegações pelo País para potenciar o crescimento do clube mas teve sobretudo um papel fundamental de financiamento das obras das novas instalações do clube no Campo Grande, com a condição de ser ressarcido do montante emprestado quando existisse essa capacidade financeira (o que aconteceria alguns anos depois). Com esses quase 53 mil escudos cedidos para pagar o projeto, o Sporting passou a ter as infraestruturas mais inovadoras da altura, que além do campo de futebol tinham também campos de ténis e um pavilhão. Foi também no seu período que o número de sócios mais do que duplicou, com a entrada de mais 451 para um total de 895.
António Soares Júnior (1918, 1921 e 1927-28). O campeão de ciclismo que era um diplomata
Ser atleta e dirigente era algo comum na história do desporto nacional e do Sporting, ser atleta consagrado e depois dirigente nem por isso. Pelo menos até chegar António Soares Júnior. Campeão nacional de ciclismo com especial enfoque nas provas de velocidade e fundador da modalidade no clube, ao mesmo tempo que fazia parte da equipa que dava cartas na luta de tração à corda verde e branca, integrou vários elencos dos órgãos sociais leoninos e foi presidente em três ocasiões diferentes: durante cinco meses em 1918, num período de três meses em 1921 e mais tarde durante um mandato inteiro de 15 meses entre 1927 e 1928. Contratou o técnico inglês Charles Bell e liderou a digressão dos leões para alguns particulares no Brasil após uma viagem de barco de 12 dias no momento que terá marcado o enraizamento das camisolas listadas (que já tinham sido utilizadas antes). Soares Júnior ficou também conhecido pela sua diplomacia, tendo partido dele o reatar de relações com o FC Porto depois da zanga na final do primeiro Campeonato de Portugal, em 1922.
Garcia Cárabe (1921-22). O espanhol que quis sair antes mas acabou com várias festas depois
Nascido em Espanha mas há vários anos radicado em Portugal, Manoel Garcia Cárabe, sócio do Sporting a partir de 1912, esteve na génese daquela que foi a primeira deslocação dos leões ao estrangeiro, neste caso para uma partida particular em Huelva. Depois de ter integrado vários postos nos órgãos sociais, assumiu a presidência em 1921. Por questões profissionais não passava tanto tempo como queria no clube, o que fez com que pedisse a demissão que foi prontamente recusada pelos pares da Direção. Num mandato que acabou por ser curto, de apenas sete meses, festejou o terceiro título no Campeonato de Lisboa, inaugurou a primeira filial do Sporting no País em Tomar, fundou o Boletim do Sporting que originaria depois o jornal do clube (o mais antigo de clube do mundo) e aprovou em Assembleia Geral a construção de um tanque na zona de Alcântara para a natação que já vinha de mandatos anteriores mas viu finamente a luz em 1922.
Júlio de Araújo (1922-23 e 1924-25). O atleta de todas as modalidades que fez de tudo
Foi uma das pessoas que mais viveu o Sporting durante várias décadas, primeiro como atleta (representou os leões nas equipas de futebol, no atletismo, no ténis, no râguebi, na natação e no hóquei em campo), depois como dirigente em variadas funções e por fim como mero associado. Defensor de um clube que pudesse sair de vez da dependência de José Alvalade e acérrimo crente numa mudança de paradigma após uma Primeira Grande Guerra que dizia ter paralisado o Sporting, foi um dos grandes impulsionadores do nascimento do Boletim, dotou as modalidades de recursos para dominarem no plano nacional e festejou o primeiro título verde e branco no Campeonato de Portugal de futebol entre dois períodos na liderança, entre 1922 e 1923 e entre 1924 e 1925. Radicou-se na década de 30 no Brasil, mantendo a ligação aos leões com conselhos que mais tarde se confirmaram, como a necessidade de renovação das instalações desportivas.
Sanches Navarro (1923-24 e 1926-27). 20 anos de dirigismo entre uma crise de crescimento
Grande apaixonado pelo desporto, antigo praticante de futebol e remo, Pedro Sanches Navarro foi dirigente dos leões durante cerca de duas décadas, sobretudo com líder da Mesa da Assembleia Geral após ter passado pela Direção como vice e antes de ser também o número 1 do Conselho Fiscal e Disciplinar. Como presidente do clube, cumpriu um primeiro mandato entre 1923 e 1924 que ficou marcado pelo pagamento de todas as verbas cedidas por empréstimo por Mário Pistacchini para a construção das novas instalações desportivas no Campo Grande e liderou ainda uma Comissão Administrativa sendo na mesma o número 1 da Mesa entre um segundo mandato na Direção que ficaria marcado pelo choque de fações internas à volta da questão das infraestruturas desportivas e das melhores formas de encontrar financiamento sem desequilibrar contas.
Salazar Carreira (1925-26). O médico atleta que chegou à liderança como campeão nacional
Tirou Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em 1916, teve depois 18 meses como tenente no Corpo Expedicionário do Niassa, nunca deixou de ser um atleta capaz de desafiar todos os limites em qualquer modalidade entre atletismo (onde foi várias campeão nacional), ginástica, natação, andebol, râguebi, tiro, polo aquático e ténis. Filiado no Sporting desde 1912 por influência da amizade com os irmãos Augusto e Amadeu Barros, juntou a todo esse trajeto a presença em vários elencos dos órgãos sociais, sendo presidente do Sporting num mandato entre 1925 e 1926 que acabou por não terminar (e que iniciou quando ainda era o campeão nacional dos 400 metros barreiras). Foi atleta até aos 37 anos, passando depois por inúmeros cargos como Associação de Lisboa de Atletismo, Associação de Lisboa de Râguebi, Federação Portuguesa de Atletismo, Federação Portuguesa de Futebol e Confederação de Desportos. Mais tarde, a partir da década de 40, foi nomeado Inspetor dos Desportos do Estado Novo, defendendo sempre o espírito mais desportivo em relação ao clubismo. Recebeu ainda a Medalha de Honra de Educação Física e Desporto de França em 1948, entre várias distinções de alguém que foi também jornalista, congressista e professor.

Joaquim Oliveira Duarte (1928-29 e 1932-42). Saiu numa AG em guerra, voltou para dar a paz
Depois de Salazar Carreira, mais um médico e oficial da Marinha no comando do Sporting: Joaquim Oliveira Duarte. Antigo atleta de natação, remo e polo aquático do Clube Naval de Lisboa (também jogou futebol), de onde saiu para o Sporting quando foi criado o Posto Náutico para se juntar também à equipa de luta de tração à corda, era uma figura discreta, avesso a grandes sorrisos mas abnegado em tudo o que fazia. Teve uma primeira passagem pela liderança dos leões entre 1928 e 1929 após passar por outras direções do clube, apanhando uma equipa de futebol em fim de ciclo, sem resultados e demasiado “pesada” para as contas verde e brancas, e saiu cinco meses depois depois da polémica com Jorge Vieira, que exigia receber mais numa novela de parada e resposta que acabou com o jogador suspenso mas com os sócios do seu lado após haver uma disputa de argumentos… em Assembleia Geral. Em 1932, Oliveira Duarte voltou ao Sporting, iniciando aí aquele que foi o segundo maior período de liderança de um presidente no clube até 1942: as modalidades, que entretanto contavam com andebol, hóquei e ténis de mesa, viviam tempos áureos, o futebol voltou a ganhar e a contratação de Joseph Szabo foi mesmo a peça em falta que ajudou à conquista de três Campeonatos de Portugal, oito Campeonatos de Lisboa, um Campeonato Nacional e uma Taça de Portugal. Tudo equilibrando as contas, com um património que ficava muito acima daquilo que era o passivo leonino.
Eduardo Costa (1929). A camisola listada nos Estatutos entre as crises desportiva e financeira
Foi um dos líderes com um reinado mais pequeno, de apenas seis meses, neste caso o único período em que esteve como presidente do clube (outros voltaram mais tarde, como não foi o caso). Antigo capitão de equipas do Sporting da esgrima e do futebol, assumiu uma Comissão Administrativa sob uma condição: manter o registo de desporto amador, numa altura em que começava a ser muito discutido no País aquilo que era classificado de “falso profissionalismo”, tendo em conta as contrapartidas financeiras que já iam sendo pagas aos atletas. Foi nesse período na liderança que passou a constar dos novos Estatutos, os quintos, a camisola listada como equipamento oficial do Sporting, que no plano desportivo continuava sem ganhar, com receitas que eram escassas e “preso” a infraestruturas obsoletas com encargos pesados.
Álvaro José de Sousa (1929-31). Três gerências entre equilíbrio de contas e corte de relações
Por norma, os presidentes nomeados através de uma Comissão Administrativa faziam alguns meses no cargo para “aguentar o barco” de costumavam depois sair para dar lugar a outros pares. Com Álvaro José de Sousa, não foi o caso: mesmo agarrando o clube num período complicado a vários níveis, fez três gerências como líder depois do período conturbado pelo “caso Jorge Vieira”, foi conseguindo equilibrar as contas ao mesmo tempo que dava maior competitividade ao futebol (que ganhou um Campeonato de Lisboa), apresentou o terceiro emblema dos leões, mudou a sede para a Praça dos Restauradores e tentou defender o clube na discussão então existente entre Federação de Futebol de Portugal e Associação de Futebol de Lisboa a propósito do “profissionalismo”, algo que levaria mesmo a um corte de relações com Benfica e Casa Pia. Teve depois outros cargos nos elencos verde e brancos, da Assembleia Geral ao Conselho Fiscal e Disciplinar.
Artur Silva (1931). Uma gestão de apenas seis meses que ficou marcada pela falta de tempo
A “ressaca” da saída de Joaquim Oliveira Duarte antes do regresso para uma década na liderança foi longa, com as escolhas para a presidência do Sporting a serem mais arrojadas mas ao mesmo tempo… falhadas. O caso de Artur Silva foi exemplo paradigmático disso mesmo: após a saída de cena de Álvaro José de Sousa, a opção recaiu em alguém que, pelas funções que exercia na Câmara Municipal de Lisboa, podia também ser importante na resolução do diferendo que havia a propósito dos terrenos ocupados pelos leões no Campo Grande. Os compromissos profissionais fizeram com que não tivesse a disponibilidade necessária para o cargo, sendo assumido que essa vigência acabou por ter mais o vice Carlos Correia no centro das decisões do que propriamente aquele que fora nomeado presidente. Saiu do cargo apenas seis meses depois.
Carlos Correia (1932). Os 41 dias de transição de um encenador que angariava sócios
Carlos Correia passara por vários cargos diretivos no Sporting, esteve sempre presente no Conselho Geral durante a sua existência e foi uma peça vital para segurar o clube no período de gestão de Artur Silva, tendo depois a oportunidade de liderar o clube durante um mês e meio para fazer o processo de transição para um novo presidente. Sócio desde 1915, destacou-se sobretudo pelo trabalho que fez fora do âmbito do dirigismo, não só como autor e encenador da revista “O Solar dos Leões” e colaborador do Boletim do Sporting mas também como angariador de novos sócios para o clube (consta que terá levado cerca de 1.500 pessoas a filiar-se). Foi também o grande promotor do nome de José Alvalade para o Estádio que seria feito.
Retamoza Dias (1932). A transição para uma viragem no clube como “ato de sacrifício”
Depois de uma passagem de testemunho, mais uma passagem de testemunho – neste caso ligeiramente maior, de quatro meses. Álvaro Retamoza Dias, antigo atleta e capitão do Sporting no atletismo e no ciclismo, teve mais de 30 anos ligado aos leões em vários elencos diretivos, destacando-se sobretudo o período que fez como vice de Júlio de Araújo e Salazar Carreira antes de estar também com Joaquim Oliveira Duarte, o seu sucessor. “Assumir a presidência foi para mim um ato de sacrifício e uma responsabilidade. Fi-lo pelo espírito de disciplina e confiando na colaboração de numerosos amigos que me escolheram para tão alto cargo”, assumiu numa entrevista em que admitiu procurar um maior equilíbrio orçamental no futebol e uma maior expansão das modalidades, sobretudo a nível de praticantes. Foi isso que deixou para o que se seguiu.
Amado de Aguilar (1942-43). A Gerência com saldo positivo entre uma maior funcionalidade
Licenciado em Direito, fundador da filial do Sporting em Cuba, entrou com dificuldades a dois níveis: por um lado, suceder a Joaquim Oliveira Duarte, que tivera grande sucesso desportivo na segunda passagem como número 1 do clube; por outro, enfrentar aquilo que era um fim de ciclo não calculado não só no futebol mas nas modalidades e no próprio clube, nas equipas e nas infraestruturas. Saiu a mal da Direcção-Geral dos Desportos e em choque com o Ministério da Educação Nacional por defender a razão do Sporting no caso que envolveu a transferência de António Marques do Académico do Porto, sendo aclamado em Assembleia Geral pelos sócios leoninos, mas antes reorganizou o clube em vários setores, fechando a primeira Gerência com 113 mil escudos de saldo positivo também pela venda da sede na Rua Rosa Araújo e metendo quantias avultadas de dinheiro que sanearem as contas mesmo só tendo sido ressarcido largos anos depois. Além de melhorar a funcionalidade interna dos verde e brancos, conseguiu recuperar também muitos sócios.
Diogo Alves Furtado (1943). Um líder por 21 dias que se destacou pela carreira como médico
Foram 21 dias na presidência, foram 21 dias que não chegaram sequer para sentir o que era presidente. Na sequência da saída de Amado de Aguilar em rutura com a Direção-Geral dos Desportos e o Ministério da Educação Nacional, Diogo Alves Furtado, então presidente da Mesa da Assembleia Geral, foi o nomeado para ficar na liderança do Sporting, algo que duraria durante menos de um mês. Destacou-se sobretudo pela sua carreira como médico, sendo o fundador dos Serviços de Neurologia dos Hospitais Civis além de diretor do Hospital de Militar da Estrela, professor na Faculdade de Medicina e investigador no Instituto Nacional de Oncologia. Mais tarde, esteve no Conselho Geral e voltou a passar pela liderança da Mesa.
Cunha e Silva (1943-44). A conquista da Taça Império num mandato com pouco presença
Depois da saída de Diogo Alves Furtado, que tinha sido apontado pelo Ministério da Educação de Portugal, a quinta Comissão Administrativa carecia de um nome para a liderança e foi nesse âmbito que surgiu Alberto Cunha e Silva, que esteve na presidência dos leões durante 11 meses. Em termos desportivos foi um bom ano para o Sporting, que não só conseguiu outro Campeonato Nacional no futebol como levantou um dos troféus de maior destaque no Museu do clube como é a Taça Império, mas o número 1 nunca foi um presidente muito presente, deixando grande parte da missão para um dos seus vices, Barreira de Campos.
Augusto Barreira de Campos (1944-46). A histórica viagem a Madrid e “pazes” com o Benfica
Durante quase um ano foi uma espécie de “presidente invisível” durante a vigência de Cunha e Silva, teve depois a oportunidade de ser “presidente de plenos direitos” durante quase um ano e meio – e com essa particularidade de liderar o clube numa fase em que era em simultâneo campeão nacional, regional, vencedor da Taça do Império e vencedor da Taça de Portugal. Ao mesmo tempo, foi também no seu mandato que os leões inauguraram o Estádio Metropolitano de Madrid, com um triunfo por 6-3 frente ao Atlético com seis golos do Violino Jesus Correia. Fundou as primeiras escolas de natação do País, que potenciaram o aumento de associados para a fasquia dos 9.000, potenciou bons resultados em modalidades como atletismo, ciclismo ou andebol e fez um esforço especial para melhorar as relações com o rival Benfica. “Tudo quanto no País se tem feito no campo do desporto é um reflexo da ação do Sporting e do Benfica. Foram eles que ensinaram todos os desportos e vão agora dar mais uma lição: a da fraternidade das armas desportivas dentro dos princípios da solidariedade. Não há bandeira que melhor represente o Benfica e o Sporting do que a própria bandeira nacional, que possui as cores dos dois clubes”, disse após uma visita à sede das águias.
Ribeiro Ferreira (1946-53). O apogeu do “Crónico” no futebol num clube em crescimento
Desde Joaquim Oliveira Duarte que o Sporting não tinha uma presidência mais longa, a partir de António Ribeiro Ferreira nada voltou a ser como era antes. Formado em Direito e com experiência na política entre Comissão Concelhia da União Nacional, Câmara de Lisboa e Casa Civil de Évora, teve os primeiros contactos com a realidade leonino como organizador do I Congresso Leonino ou diretor do Boletim antes de chegar à liderança em 1946, ficando sete anos no cargo. O futebol teve o período mais áureo da sua história com os Cinco Violinos que deram ao Sporting a alcunha de “Crónico” com dois tricampeonatos, duas Taças de Portugal e dois Campeonatos de Lisboa alicerçados na aposta em Cândido Oliveira para a função de Coordenador Técnico ou em Randolph Galloway para treinador. Foi também com Ribeiro Ferreira que o clube evoluiu noutras áreas: novos estatutos, requalificação do Stadium de Lisboa, sede na Rua do Passadiço, aumento do número de filiais e delegações, e angariação de fundos para a construção de um novo estádio (com o próprio a contribuir também para esse desenvolvimento aproveitando as conquistas desportivas).

Carlos Góis Mota (1953-57). O inédito tetra, novo Alvalade e um lema para a história
O perfil do sucessor de António Ribeiro Ferreira tinha pontos em comum: formado em Direito, com o curso de Matemáticas Gerais, foi assessor jurídico da Caixa de Previdência, Conselheiro do Presidente e, mais tarde, Presidente da Junta do Crédito Público e Secretário do Procurador-Geral da República. No Sporting, esteve nos elencos de Joaquim Oliveira Duarte e também de António Ribeiro Ferreira, ficando para a história por ter sido o líder que chefiou a equipa de futebol na estreia na Taça dos Clubes Campeões Europeus de futebol em 1955 e inaugurou o tão almejado Estádio José Alvalade no ano seguinte. Foi com ele também que, prolongando aquilo que vinha da gestão anterior, o Sporting chegou a um inédito tetracampeonato nacional, além de ganhar também pela primeira vez os Campeonatos de voleibol (numa equipa que tinha Mário Moniz Pereira) e basquetebol. É também de Góis Mota que vem aquele que ficou como lema dos verde e brancos: “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória”. Liderou mais tarde a Mesa da Assembleia Geral.
Cazal-Ribeiro (1957-58). Uma entrada “em falso” que foi corrigida até ao caso Rocha
Foi durante quatro anos vice-presidente para as Relações Externas de Góis Mota, entrou “em falso” depois de suceder a Góis Mota: ainda antes da tomada de posse, enviou um telegrama ao Benfica a propósito da sua posição sobre a convivência dos rivais que foi tornado público pelos encarnados e enfrentou depois as críticas dos associados leoninos por não respeitar aquilo que o antecessor explicara em Assembleia Geral sobre as desavenças que existiam com as águias. Apesar desse episódio, o empresário que foi deputado da Assembleia Nacional e vereador da Câmara de Lisboa foi conseguindo manter a competitividade na equipa de futebol com menos custos (e uma aposta grande no técnico Enrique Fernández), alcançou vários títulos nacionais em modalidades como andebol, basquetebol, atletismo, ténis de mesa, ciclismo e badminton mas deixou a liderança de novo por mais uma polémica em torno de um jogador, neste caso Rocha que viu o regresso a Alvalade vetado pela Direção-Geral dos Desportos depois de uma queixa feita pela Académica.
Brás Medeiros (1958-61 e 1965-73). Austeridade e apostas em Yazalde, Lopes e Agostinho
Dois anos e meio primeiro, quase oito anos depois, duas fases diferentes mas com igual importância na vida do Sporting. Guilherme Brás Medeiros sucedeu a Francisco Cazal-Ribeiro em 1958, tendo a difícil tarefa de encontrar uma equipa que atravessava um final de ciclo e um clube que necessitava de outro fôlego no plano financeiro depois de todo o investimento na construção do Estádio José Alvalade. Aí, a falta de resultados acabou por ditar leis, saindo contestado pelos sócios verde e brancos perante a hegemonia que o Benfica ia conseguindo assumir no futebol com a chegada de Eusébio. Mais tarde, em 1965, o advogado voltou à liderança do Sporting à procura de reformas mais estruturais que estancassem a autêntica dança de cadeiras na presidência. Primeira medida: quotização extra mensal de 300.000 escudos que pudesse começar a pagar as dívidas existentes, num contexto de rigor orçamental transversal a todo o clube e modalidades. Já com as condições mais sustentáveis, ganhou dois Campeonatos e duas Taças de Portugal com Yazalde e companhia a mudarem o futebol leonino. Foi também nesta fase que o andebol foi pentacampeão, que chegaram figuras como Carlos Lopes ou Fernando Mamede e que Joaquim Agostinho ganhou três Voltas.
Gaudêncio Silva (1961-62). A aposta certa em Juca e um “aviso” para todos os sucessores
Antigo atleta do Sporting em modalidades como o hóquei em patins, o hóquei em campo ou o tiro, ganhou experiência no dirigismo com passagens pela Federação Portuguesa e Internacional de Patinagem (mais tarde passaria pelo Comité Olímpico) e foi eleito em Assembleia Geral para um mandato de apenas um ano que acabou por não ter continuidade. Num período marcado pela tentativa de saneamento financeiro, teve como aposta mais certeira a troca de Otto Glória pelo jovem técnico Juca, que se tornou o primeiro de sempre a sagrar-se campeão como jogador e treinador pelo Sporting. Deixou o clube com um “aviso” a todos os que se seguiriam: o mais importante era colocar as gestões o menos dependentes possíveis dos resultados do futebol, caso contrário ficariam sempre reféns de projetos a breve prazo para o imediato.
Joel Pascoal (1962-63). Mais um Campeonato entre a reativação do Grupo Stromp
Joel Pascoal, antigo praticante de remo, vela, esgrima e ginástica, foi o sucessor de Gaudêncio Silva, ficando também apenas um ano na liderança do Sporting. Os leões foram campeões mais uma vez no futebol mas nem por isso deixaram de estar “presos” à necessidade de ir encurtando custos para tentar adequar a folha de gastos e receitas ao que vinha de trás pela construção do novo Estádio. Foi também neste mandato que foi reativado o Grupo Stromp, sendo que mais tarde, no final da década de 60, esteve ainda na génese da fundação do Grupo dos Cinquentenários (tendo sido o primeiro líder). O militar teve outra obra importante no futuro do clube, com a construção de um ginásio na zona que ficava por baixo da central de Alvalade.
Viana Rebelo (1963-64). A conquista da Taça das Taças e o Centro de Estágios em Alvalade
Militar de carreira, com curso de Engenharia feito na Escola Militar antes do Curso do Estado-Maior, do Curso de Altos Comandos e do cargo de Alto Comissário e governador-geral da Província de Angola, Horácio Viana Rebelo, que em 1964 chegaria a general, esteve apenas um ano na presidência do Sporting mas ficou para sempre na história do clube ao liderar a campanha que culminou com a única conquista europeia do futebol leonino, a Taça dos Vencedores das Taças de 1964 na finalíssima frente ao MTK Budapeste (que ganhou depois de alargar por mais um mês aquilo que deveria ser a sua vigência no cargo). Foi também no seu mandato que os novos Estatutos aprovaram o Conselho dos Presidentes como órgão consultivo e que foi inaugurado o Centro de Estágios no Estádio José Alvalade, num projeto que vinha de anteriores elencos.

Homem de Figueiredo (1964-65). O futebol falhou, tudo o resto acabou por cair
Um militar, outro militar, mais um militar com passagem por várias modalidades como praticante entre futebol, atletismo, hipismo, natação, tiro, ténis, caça e pesca. Na antecâmara do regresso de Brás Medeiros à liderança dos leões, Martiniano Homem de Figueiredo fez também um mandato de um ano, neste caso com resultados bem mais modestos do que os antecessores: o futebol teve uma época desastrada depois de títulos nacionais e um europeu, a contestação não demorou a subir de tom e algumas demissões de elementos da Direção acabaram por levar a uma queda em bloco de todo o elenco antes de nova mudança diretiva.
Valadão Chagas (1973). O convite de Marcelo Caetano e o mandato mais curto de sempre
Pode um presidente ser escolhido para presidente mas renunciar logo após a tomada de posse? À partida não mas, como em tudo, existem sempre exceções e Orlando Valadão Chagas foi uma delas. Depois de ter sido secretário-geral e vice-presidente em elencos anteriores do Sporting, ao mesmo tempo que esteve cinco anos como Diretor-Geral de Educação Física, Desportos e Saúde Escolar do governo de António de Oliveira Salazar entre 1958 e 1963, Valadão Chagas foi convidado no período antes da tomada de posse para assumir o cargo de Secretário de Estado da Juventude e Desportos do governo então liderado por Marcelo Caetano, aceitando esse repto quase de imediato e fazendo com que, alguns momentos depois de ter tomado posse como presidente do Sporting, tivesse de apresentar a carta de renúncia à Assembleia Geral…
Manuel Nazareth (1973). O vice que não queria ser número 1 acabou a ganhar a Taça
Quando Valadão Chagas foi proposta como opção para a liderança do Sporting, Manuel Nazareth voltou a dizer aquilo que antes já tinha referido: gostava de ajudar os leões mas não como figura número 1 do clube, tendo em conta as limitações que sentia a nível de tempo e personalidade para o cargo. No entanto, fruto da renúncia do antecessor após a tomada de posse, o médico filiado ao Sporting desde 1943 teve mesmo de assumir essa posição até chegar uma solução a médio prazo. Ao longo de cinco meses, fez questão de cumprir aquilo que estava no programa que tinha sido defendido por Valadão Chagas (que tinha também sido feito por si), quis manter as contas controladas, evitou “choques” com os rivais diretos e teve o mérito de mexer com êxito no futebol, trocando Ronnie Allen por Mário Lino, que ganhou a Taça de Portugal.
João Rocha (1973-1986). O “presidente dos presidentes” que construiu o ADN do clube
É de forma quase unânime o presidente de todos os presidentes do Sporting. Na sequência de um trajeto de sucesso como empresário, que começou como empregado bancário e passou depois para o papel de acionista e administrador do Banco Português do Atlântico antes de vários investimentos que mostravam toda a sua veia visionária, João Rocha assumiu a liderança dos leões num período de grande instabilidade diretiva, desportiva e financeira mas deixou uma marca indelével naquilo que é o ADN e cultura identitária dos leões apesar de um projeto vanguardista que caiu por altura do 25 de abril: a SCP, Sociedade de Construções e Planeamento, primeiro projeto de clube-empresa em Portugal que não passou do papel. Ainda assim, João Rocha foi o “pai” de um novo clube: competitivo no futebol, dominador nas modalidades, a bater recordes de sócios e de praticantes com especial enfoque na ginástica e na natação, com símbolos do clube como Carlos Lopes, Joaquim Agostinho ou Fernando Mamede, entre muitos outros, com inúmeras conquistas no plano internacional, com a primeira claque do País (que teve os filhos como fundadores, a Juventude Leonina) como símbolo de uma nova geração que se tornou verde e branca. Nem sempre as coisas correram de feição na parte do futebol mas saiu com um clube novo, pujante e com mais de 105.000 sócios.

Amado Freitas (1986-1988). O sucessor discreto que teve nos 7-1 a única coroa de glória
João Rocha ainda enfrentou uma eleição sem haver uma lista única em 1984, algo que aconteceu de forma inédita, João Amado Freitas acabou por ter a passadeira estendida para assumir-se como sucessor depois da saída do antecessor por razões de saúde por conhecer a realidade leonina como antigo vice para as finanças e para o futebol. As modalidades continuavam a ter força no clube, entre títulos no andebol e no hóquei em patins, mas o futebol começava a criar um fosso em relação a Benfica e FC Porto, não só nos resultados mas na própria qualidade dos plantéis. Ainda assim, e ao longo de dois anos marcados pela discrição (que foi até demasiado para alguns), o mandato do economista ficou marcado por uma noite que ficou na história do clube quando goleou o campeão Benfica por 7-1 em Alvalade com poker de Manuel Fernandes.
Jorge Gonçalves (1988-1989). As “unhas do leão” mal arranharam e tudo caiu num ano
O antigo despachante alfandegário famoso pelo farfalhudo bigode que deu o mote durante toda a campanha eleitoral chegou com muitas promessas, incluindo as famosas “unhas do leão” que devolveriam a equipa de futebol aos sucessos, mas nunca conseguiu passar da teoria à prática apesar dessa vontade que se começava a sentir numa mudança de paradigma no clube. Rijkaard esteve em Alvalade mas nunca chegou a ser inscrito, sendo cedido ao Saragoça antes de sair para o AC Milan, o nível de contrações como Rodolfo Rodríguez, Ricardo Rocha, Douglas, Silas ou Eskilsson não foi o esperado, as dificuldades de tesouraria foram sendo cada vez maiores e a direção acabou por cair toda em bloco passado um ano. Só uma promessa foi cumprida: o Conselho Leonino passou a ser um órgão consultivo, numa alteração com impacto no clube.
Sousa Cintra (1989-1995). Verão Quente, Robson e uma Taça como prémio final
Depois de um empresário, mais um empresário. Sousa Cintra, algarvio que começou a vender caracóis e foi ascensorista num hotel em Lisboa antes de começar a fazer fortuna com a venda de aguarelas, ganhou de forma convincente as eleições como “Rei das Águas” e liderou o Sporting durante três mandatos, voltando a recolocar os leões com uma equipa competitiva no futebol que foi às meias-finais da Taça UEFA em 1991, ganhou a Taça de Portugal em 1995 e só falhou o Campeonato em 1993/94 com o famoso 6-3 na receção ao Benfica com hat-trick de João Vieira Pinto, um dos jogadores que estiveram perto de mudar da Luz para Alvalade como aconteceu com Paulo Sousa e Pacheco (já depois de ter segurado Luís Figo, que estava perto de rumar aos encarnados). Também nas modalidades os leões voltaram a ter outros e melhores argumentos, com o voleibol a ser tricampeão, o hóquei em patins a ganhar títulos internacionais, o ténis de mesa a jogar provas europeias e o atletismo a aumentar o currículo coletivo na Taça dos Campeões de Corta-Mato. A decisão de despedir Bobby Robson ficou como uma “espinha” de todo o trajeto mas as melhorias no clube foram notórias e chegaram à formação, que entre 1991 e 1995 foi a 15 das 16 decisões e ganhou oito títulos, além da colocação de Alvalade como palco de todos os concertos. Inaugurou também o Museu.
Santana Lopes (1995-96). Fim de modalidades e aposta em Octávio antes do “chamamento”
A sucessão de Sousa Cintra tinha sobretudo uma marca latente: “Projeto Roquette”. José Roquette, que se candidatou a líder do Conselho Fiscal e Disciplinar, defendia uma profissionalização a vários nível de todo o universo Sporting e viu em Pedro Santana Lopes, conhecido político formado em Direito na Universidade de Lisboa, o líder com as características ideais para assumir essa ideia. Na prática, o plano correu mal: depois de uma profunda transformação no plantel com mais de 15 contratações, entrou em choque com Carlos Queiroz a meio da temporada e apostou em Octávio Machado como sucessor antes de não resistir à sua grande paixão pela política, marcando presença no Congresso do PSD de 1996. Apresentou a demissão poucos dias depois perante o desafio de regressar à vida ativa nessa vertente, tornando-se mais tarde presidente das Câmaras de Lisboa e da da Figueira da Foz além de primeiro-ministro. O percurso em Alvalade ficou marcado pela polémica decisão de acabar com algumas modalidades para conter um passivo que estava a crescer.
José Roquette (1996-2000). Um projeto para o futuro antes do fim do maior jejum
O mentor de todo o projeto que pretendia revigorar o Sporting para um futuro melhor acabou por assumir de forma natural a liderança do clube após a saída de Santana Lopes, sendo inicialmente cooptado e mais tarde eleito sem sombra de concorrência. Foi com José Roquette que os leões deram dois passos que ficaram para a história. Por um lado, foi criada a SAD, sociedade que passaria a gerir o futebol profissional e que entrou na Bolsa em 1998 dando o mote para algo que todos os principais clubes nacionais acabariam por fazer. Por outro, imaginou todo o projeto do Alvaláxia XXI, complexo que além do novo Estádio José Alvalade teria outras áreas de exploração como o Alvaláxia, a clínica CUF, o Holmes Place ou o Edifício Visconde de Alvalade que permitiriam que o Sporting ficasse “independente” da bola que entra ou vai ao poste (algo que não seria assim na prática). Roquette ainda ameaçou demitir-se após uma espera das claques depois de um empate frente ao Estrela, foi legitimado em Assembleia Geral e ficou para festejar o fim do jejum de 18 anos sem títulos, com a conquista do Campeonato em 2000 com Augusto Inácio no comando. Nesse mesmo ano, entrou em choque com Luís Duque, o outro obreiro do triunfo na prova, e acabou por sair mesmo do clube.
Dias da Cunha (2000-2005)
À semelhança do que tinha acontecido com José Roquette, António Dias da Cunha assumiu a presidência do Sporting por cooptação, sendo depois legitimado nas urnas sem concorrência. Foi com ele na liderança que as grandes obras verde e brancas foram inauguradas, a começar com a Academia em Alcochete e passando pelo Alvaláxia XXI, que incluía o novo Estádio José Alvalade – sendo que logo na estreia, frente ao United, Cristiano Ronaldo brilhou tanto que rumou a Manchester, falhando a promessa de aguentar pelo menos uma das novas pérolas depois da venda uns meses antes de Ricardo Quaresma ao Barcelona. Teve o seu grande momento no futebol em 2001/02, quando Jardel, João Vieira Pinto e companhia ganharam a dobradinha. Acabou por deixar o clube em outubro de 2005 contra a pressão que estava a ser feita para José Peseiro, que em 2005 perdeu Campeonato e final da Taça UEFA em quatro dias, ser despedido, entrando de seguida em choque com o vice Filipe Soares Franco que assumiu o clube nesse momento.

Soares Franco (2005-2009). A venda do património não desportivo antes da “tranquilidade”
O antigo número 2 da Direção de Dias da Cunha subiu à liderança com a demissão do número 1 voltou assim à presidência de um clube, após ter passado pelo Estoril. O gestor teve como grande propósito recuperar o clube no plano financeiro, promovendo para isso uma das reunião magnas até então com maior participação de associados para que fosse aprovada a venda de todo o património não desportivo por uma verba acima dos 50 milhões de euros. A primeira tentativa foi chumbada, o que colocou o futuro em Alvalade em risco, mas a segunda passou e Filipe Soares Franco iniciou uma era marcada pela “tranquilidade”: Paulo Bento esteve quatro anos no comando de uma equipa com orçamento limitado e muita aposta na formação, o Sporting foi conseguindo marcar presença mais regular na Liga dos Campeões apesar de ter ficado sempre atrás do FC Porto no Campeonato, Nani tornou-se a maior venda do clube até então (25,5 milhões de euros) e as contas da SAD estabilizaram em terreno positivo entre duas Taças de Portugal e duas Supertaças.
José Eduardo Bettencourt (2009-2011). O homem certo que teve opções erradas no futebol
Antigo administrador executivo da SAD nos tempos de Dias da Cunha, José Eduardo Bettencourt surgiu na linha de sucessão de Filipe Soares Franco como um “produto perfeito” para dar continuidade ao trabalho que estava a ser feito, conciliando a vertente de gestor com a paixão pelo clube quase como “adepto de bancada” – o que fez com que fosse à sala de imprensa denunciar que José Mourinho teria rasgado uma camisola de Rui Jorge que tinha sido pedida ou impedisse uma invasão de campo num dérbi com o Benfica. Bettencourt saiu vencedor de forma esmagadora das eleições e conseguiu concluir o processo de reestruturação financeira que estava em cima da mesa (e que mais tarde seria refeito por mais do que uma vez) mas teve na parte da gestão desportiva o seu calcanhar de Aquiles: Paulo Bento, que era “forever”, caiu poucos meses depois como vítima de uma plantel que acabara um ciclo, André Villas-Boas chegou a ter contrato assinado com os leões mas entrou em choque com o diretor Costinha e rescindiu para rumar ao Porto e os três treinadores e outros tantos diretores desportivos em 19 meses foram reflexo de uma liderança falhada que acabou por cair.
Godinho Lopes (2011-2013). O líder que começou a perder na noite em que ganhou
As eleições até aí mais concorridas, com um total de cinco candidaturas, tornaram-se numa espécie de ida aos anos 90, com promessas atrás de promessas de treinadores e jogadores como se os votos dependessem mais de nomes do que de projetos. Godinho Lopes conseguiu vencer Bruno de Carvalho por cerca de 400 votos mas, ainda na noite das eleições que acabou por agressões e tentativas de invasão da sala de imprensa, começou a perder um mandato onde se esperava muito pelo elenco que conseguira juntar. Conseguiu fechar os novos Estatutos, chegou às meias-finais da Liga Europa já com Ricardo Sá Pinto no comando técnico em vez de Domingos Paciência mas não resistiu a vários casos que foram causando mossa em termos internos, ficando à mercê de uma massa adepta sem resultados, que nunca esteve pacificada e que viu o clube afundar-se para aquele que foi um dos seus períodos mais difíceis no plano desportivo e financeiro.
Bruno de Carvalho (2013-2018). Da esperança à maior crise institucional de sempre
Foi de novo a votos numa versão mais “institucional”, ganhou a José Couceiro e assumiu um clube que estava refém de tudo e todos numa temporada que terminou com a pior classificação de sempre (sétimo lugar). Nos primeiros anos, conseguiu reconstruir o futebol verde e branco com redução de custos, aposta na formação e a escolha de treinadores como Leonardo Jardim e Marco Silva, regressou à Liga dos Campeões, apostou tudo no Campeonato com o desvio de Jorge Jesus da Luz para Alvalade (embora tenha ganho apenas uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça), foi recuperando a massa adepta, avançou com a construção do Pavilhão João Rocha para tentar ser campeão em todas as modalidades (algo que conseguiu) mas deitou tudo a perder com uma versão mais errática de liderança que se acentuou sobretudo no início do segundo mandato, com uma “guerra aberta” com o plantel que se tornou latente após a derrota frente ao Atl. Madrid. A invasão da Academia por 50 elementos casuais, que motivou a rescisão de oito jogadores, foi a gota de água que levou à maior crise institucional de sempre do clube, acabando por ser destituído da função de presidente numa Assembleia Geral realizada no MEO Arena com milhares e milhares de sócios.
Frederico Varandas (2018-?). A aposta em Amorim e uma mudança de paradigma no clube
Apesar de ter ganho com menos votantes mas mais votos na corrida mais participada de sempre, Frederico Varandas teve um início de presidência com todos cientes do momento delicado que o futebol dos leões vivia mas esteve longe de conseguir pacificar o clube como desejava, algo que nem mesmo a conquista da Taça da Liga e da Taça de Portugal em 2019 mudou. As Assembleias Gerais eram tensas, houve propostas chumbadas e pelo meio, na sequência de uma invasão da central do Pavilhão João Rocha antes de uma “espera” fora do recinto ao líder leonino, a Direção decidiu rescindir os protocolos com as claques Juventude Leonina e Diretivo Ultras XXI. Houve vários episódios que mostravam as cisões internas até que, com a chegada de Ruben Amorim, tudo mudou: o Sporting quebrou o maior jejum de títulos em 2021, tornou-se presença regular na Champions, fez algumas das maiores vendas da sua história, virou por completo o paradigma e chegou aos três Campeonatos em cinco anos mesmo sem o técnico que saiu para o Manchester United, com Rui Borges a chegar de Guimarães para conquistar o bicampeonato e a dobradinha. Também nas modalidades os leões foram crescendo, com o futsal e o hóquei em patins a serem campeões europeus, o andebol a iniciar um período de hegemonia nacional e o voleibol e o basquetebol a voltarem aos títulos.