A espreitar para dentro da porta que dá para a Praça da Alegria, em Lisboa, os manequins com saias rodadas em seda e blazers com padrões em cores vibrantes denunciam: é aqui o atelier de Roselyn Silva, a designer de origem africana que se estreou na ModaLisboa em outubro do ano passado, e que este domingo integra o calendário oficial do evento, com um desfile off location no MUDE, que abre o último dia da Semana da Moda da capital. A criadora nascida em São Tomé e Príncipe e criada em Portugal recebe-nos sorridente a dias da apresentação da nova coleção, ainda com croquis sobre a mesa e ao som do barulho das máquinas de costura. As mesas das três costureiras — que de tão atentas quase não notam a nossa presença — estão dispostas uma atrás da outra. No teto, os arcos em pedra levam o olhar para o fundo do atelier. “Os turistas gostam de entrar para ver, e lá atrás está à vista a estrutura do estilo pombalino”, conta-nos Roselyn, por curiosidade. Engenheira civil de formação, as formas parecem estar mesmo no seu ADN.
A marca começou há dez anos, sendo apresentada na primeira temporada do Shark Tank Portugal. Mas o reconhecimento veio mesmo quando vestiu Leonor Poeiras para a gala dos Globos de Ouro de 2015. “Fiquei muito vaidosa na altura”, assume, sobre a saia com padrão que fez sucesso nas revistas. Quem conhece o seu design, reconhece logo uma peça Roselyn Silva: cores vibrantes são adaptadas para cortes clássicos e de alfaiataria, combinadas com camisas brancas em seda ou com golas pontiagudas e punhos largos. “O luxo africano sempre existiu”, destaca a criadora, em vários momentos da entrevista ao Observador. Na Praça da Alegria há dois anos, Roselyn brinca que fez “o triângulo do luxo” — o primeiro atelier foi na Rua Castilho e ainda passou pelo Chiado antes de se instalar a poucos metros da Avenida da Liberdade, a passos de distância da loja da Dior. Assume-se fã da maison francesa, mas também confessa que na juventude sentia uma espécie de “não merecimento” diante das montras da avenida. “Principalmente quem é africano, vai entender melhor”, destaca. Agora, sente também o mérito em apresentar as suas peças no mesmo dia de designers como Nuno Baltazar, Valentim Quaresma ou Luís Carvalho. Menciona a boa relação que tem com colegas como Dino Alves e Filipe Faísca, a inspiração que procura em nomes como Stella Jean ou Christie Brown, e conta com orgulho como alguns clientes a chamam de “Carolina Herrera africana”. “Acho isso o máximo, sinto-me muito lisonjeada”, ri-se. Desde o ano passado também vende peças em Paris e numa loja no Soho, em Nova Iorque, “ao lado da Gucci”.

Do “triângulo do luxo” para as capitais da moda internacionais, Roselyn não perde a ligação com as raízes — seja na roupa que cria, que evidencia os “panos”, como a mesma se refere aos tecidos vindos de países como a África do Sul, Gana ou Moçambique, ou na conexão com os seus. A sincronia com a principal costureira do atelier parece a de duas amigas, enquanto na parede o enorme quadro assinado pelo marido, o artista plástico Blackson Afonso, recorda-a diariamente do apoio que tem em casa. Já a história da marca está cheia de memórias da infância, quando servia de “stylist” dos próprios irmãos, pedia para escolher o look da tia e quase não tocava nos tecidos africanos da mãe, por serem para si “tão especiais”.
Como é que começou o seu percurso na moda?
A marca tem 10 anos, profissionalmente assumi-a em 2015. Toda a minha vida foi projetada para ser atleta olímpica, porque pratiquei atletismo e fui campeã nacional, campeã ibérica, fui atleta federada pelo Sporting, por Portugal. Toda a gente achava que eu ia seguir a área do desporto. Entretanto, os meus pais incentivaram-me a estudar e a tirar o curso superior e lá segui para a área da Engenharia Civil. Especializei-me depois em Engenharia de Segurança do Trabalho, e ainda trabalhei cinco anos na área. No entanto, a moda sempre foi um bichinho, uma coisa que eu sempre gostei. Desde miúda. Mas aí está, eu não tinha referências em casa, não lidava com pessoas da moda, das artes. A ideia que eu tinha era que era só um hobby, uma coisa que só eu gostava.
Já estava em Portugal?
Nasci em São Tomé e Príncipe, mas os meus pais vieram para Portugal quando eu tinha 4 anos. Tenho essa dualidade, as minhas raízes de São Tomé e Príncipe, de que me orgulho, e depois tenho toda uma vivência portuguesa, europeia. Não havia como não trazer essas identidades para a marca. Lembro-me, não só pelas minhas raízes africanas, de ter sempre um olhar diferente sobre os tecidos africanos. Para nós, enquanto cultura africana, é normal. Mas a forma como eu olhava para os tecidos era sempre diferente das outras pessoas da minha família. Eu não tocava neles, achava que eles eram muito especiais e que se fosse para fazer alguma coisa, tinha que fazer algo assim muito sofisticado, muito chique. E não só os nossos trajes tradicionais. Enfim, fui crescendo com aquilo, e comecei a desenhar. Sempre tive jeito com o desenho e desenhava peças para mim e para as amigas. Só o meu círculo de amigos é que sabia que eu gostava de moda. A maior parte das pessoas não fazia ideia. Há 10 anos já fazia algumas coisas só por brincadeira e criei a marca também por brincadeira, porque os meus amigos diziam que tinha talento, mas nunca levei a sério. Até que surge um programa em Portugal, que é o Shark Tank, e os meus irmãos inscreveram-me. Fui ao programa e consegui os investidores, eles acreditaram no meu projeto, que era criar uma marca de inspiração africana, mas com todos os códigos do luxo europeus. Quando investiram na minha ideia, deixei a engenharia para trás, fui estudar moda na Lisbon School Design, e aí começou toda a aventura da marca Roselyn Silva.
Quando fala que queria levar essa estética africana para o luxo, tinha referências de marcas ou design de luxo?
Não havia muitas referências disponíveis online, eu fui à procura dessas referências, porque em Portugal não existia. Comecei a procurar na moda italiana, encontrei a Stella Jean, foi assim uma paixão. E eu disse: ‘wow, então existe alguém que afinal pensa como eu, ou tem os mesmos gostos que eu.’ A Stella Jean foi uma referência muito grande, mas eu também tinha os meus próprios designers favoritos. Isto é público, sou uma eterna apaixonada pela Dior e a Carolina Herrera. Inclusive até tenho clientes que dizem que eu sou a Carolina Herrera africana, acho isso o máximo, sinto-me muito lisonjeada. E depois fui descobrindo o meu próprio estilo a trabalhar, mas sempre com este cuidado no corte, no design, nos acabamentos. Sou muito perfeccionista, e felizmente também tenho uma equipa excelente que me ajuda nisto. Sou aquela menina que desde criança olhava para os tecidos africanos como alta costura, então foi isto que eu quis trazer para a marca. E aí apercebi-me que não havia em Portugal ninguém a fazer isto. Depois, com o andar dos anos, percebi que também na Europa não havia assim tanta gente a fazer isto. E aí a coisa começou a ficar séria, eu pensei, queres ver que eu criei algo que ainda não existe? Porque em pleno século XXI, pensar assim quase que é exagero, deve haver alguém a fazer o mesmo que tu, mas ao longo destes 10 anos percebi que criei mesmo uma identidade.
Lembra-se de algum momento ou peça em especial que a fez ter esse cuidado e apreço para com os tecidos africanos?
Fui descobrindo os tecidos. Como eu digo, ter tecidos africanos em casa de uma família africana é normal. Mas eu quis procurar tecidos diferentes, tecidos a que as pessoas nunca tinham acesso ou não viam. Tanto que às vezes há trabalhos que eu faço que as pessoas me perguntam, mas isto é tecido africano? Porque eu gosto de ir buscar tecidos que também já têm uma influência contemporânea. Ou seja, consigo ter tecidos africanos, mas ao mesmo tempo, pelo design, há ali um misto. É africano, mas também faz lembrar assim outras coisas. Então, eu faço muito um trabalho intenso de pesquisa, e viajo também. A minha curiosidade é que me levou a descobrir. A primeira vez que eu decidi comprar tecidos africanos, investir mesmo, perguntei: ’em Portugal onde é que se compra um tecido africano?’ E as pessoas disseram, vai ao Martim Moniz e vais encontrar. Então deram-me lá o contacto de um sítio e eu fui. E o senhor, acho que ele era do Senegal, se não me engano, levou-me assim para uma cave e mostrou-me muitos tecidos. Bem, eu fiquei louca, porque nunca tinha visto tantos tecidos. Mas aí está, depois fui descobrindo onde é que se vendiam estes tecidos. Claro, agora com a marca já estabelecida, felizmente tenho bons fornecedores. Mas foi um trabalho difícil e duro, porque às vezes eu encontrava design, padrões que eu gostava, mas a qualidade não era tão boa. Tive que aprender a fazer testes de qualidade com os tecidos.


Que tipo de testes?
Para perceber se desbotam ou não. Porque o processo de estampagem nos nossos panos, cuja base é algodão, às vezes é muito agressivo de tinturaria, pode manchar. Até podia dar uma aula sobre isso (risos). Mas depois aprendi a fazer esses testes, desmistificar algumas crenças. As pessoas dizem: ‘põe o tecido em água com vinagre’. Esqueçam, isso é tudo mentira. Não é nada assim. E pronto, agora felizmente tenho bons fornecedores que me garantem essa qualidade.
Vai buscar os tecidos a que países?
Os meus preferidos vêm da África do Sul, Gana, Senegal, Congo — os tecidos do Congo são incríveis. Moçambique também, tem tecidos maravilhosos. O meu país é uma ilha muito pequenina, não há produção, mas quando vou de férias consigo fazer assim umas coisas interessantes. São produzidos lá, o tecido já vem pronto. Na Europa, existe na Holanda uma marca que é premium em tecidos africanos e eles são os melhores. Mas acabei por descobrir um mundo que eu não conhecia, pela minha curiosidade.
E os padrões, são originais? Assinados?
A maioria deles não são assinados, são de fábrica ou de marcas, digamos assim. Mas é o que eu digo, na Europa não há esse conhecimento. Percebi que o mercado chinês acabava por se apropriar dessa cultura e produzia. Eu via, como é que é possível haver o mesmo padrão, mas um o desenho era mais torto e o outro não… Depois comecei a perceber estas diferenças, muitas vezes até era só quando os tecidos chegavam cá. Há um mercado paralelo. Mas é um trabalho muito cuidadoso, por isso é que eu trabalho para o nicho. Não me interessa muito trabalhar em grandes escalas, porque eu controlo essa qualidade, consigo controlar e continuar a comprar em pequenos produtores africanos, que é, digamos assim, a minha contribuição nesta área da sustentabilidade, para erradicar a pobreza em determinados sítios da África.
Os tecidos que usa nas suas peças também têm aplicações e acabamentos.
Gosto muito de valorizar as minhas peças com bordados e aplicações. Sejam cristais, pedrarias, rendas. É um trabalho muito manual, delicado. Por um lado, porque eu gosto, e por outro, porque acrescenta valor às peças também. Os meus clientes, quando procuram uma marca, também procuram peças diferenciadas, peças de autor. É nessas peças que eu gosto de gastar algum tempo. Claro que eu gostaria de fazer muito mais, mas um passo de cada vez dentro das minhas limitações. O ano passado eu consegui bordar à mão frases. Tive uma camisa que dizia Amolê mu, que é meu amor no dialeto crioulo da minha terra. Então, às vezes, quando posso, introduzo uma arte nas peças, porque acabam por ser peças únicas.
Visita os locais onde são produzidos os tecidos?
Já tive o privilégio de visitar zonas em que o tecido ainda é feito no tear. Há variadíssimos tecidos africanos, não é só aquele que às vezes as pessoas têm noção, muito coloridos, muito estampados. Há tecidos muito específicos, assim como a tapeçaria. Então há tecidos ainda feitos de forma artesanal, muito bonita. E depois, aí está, produzia muito pouco, eu comprava, pedia, trazia e depois fazia. Daí o meu trabalho, aquilo que há pouco tive a oportunidade de mostrar, é sempre assim, muito cuidadoso, porque uma peça nunca é igual à outra. E depois os tecidos também são escassos. Claro que a nível do negócio já fui questionada várias vezes, porque uma coisa é ter uma marca, sermos criativos, outra coisa é sermos gestores. E essa dualidade vive comigo todos os dias, porque eu sou a gestora da minha marca. Como manter-me no nicho, na sustentabilidade, e ao mesmo tempo ter um negócio rentável. É um desafio.
Muitos designers vivem essa dualidade, de querer fazer moda de autor e ao mesmo tempo precisar fazer moda para a indústria…
O ano passado, felizmente, a marca chegou aos Estados Unidos, neste momento distribuímos para os Estados Unidos. Aí sim deparei-me com um mundo completamente novo. Tive mesmo que ser muito estratégica e muito gestora, e selecionei padrões que eu podia replicar. Mas é um trabalho. Neste momento distribuímos para os EUA e Paris. Toda a produção made in Portugal. As primeiras peças foram cá, no atelier, mas as outras já estão a ser feitas em fábricas em Portugal. Para já quero continuar a produzir em Portugal. São duas fábricas, uma no Norte, que é especialista mais na parte da alfaitaria, e uma no Centro. E mais uma vez, enfrentei uma questão que acho que é comum a quem está na indústria. Não foi fácil entrar nas fábricas, porque as minhas quantidades são pequenas. Foi com muita doçura que consegui que me dessem essa oportunidade. Porque no fundo isto parte muito da própria indústria nos dar essa oportunidade e acreditar em nós. Ou dar-nos esse tempo. Há pessoas que dizem que as marcas crescem de um dia para o outro, digam-me como, porque eu não sei. As coisas comigo levaram tempo. Até este processo de entrar na fábrica levou tempo. Ainda estamos em fase de testar e perceber se é esse o caminho que eu quero seguir ou não. Porque também tem os seus desafios, trabalhar com a indústria. Mas no final do dia eu fico feliz porque a marca está a chegar onde eu sempre quis. E isso é bom.
Como foi que aconteceu esse salto para os EUA?
O primeiro cliente dos Estados Unidos entrou em contacto direto com a marca. Um dia acordo e vejo um e-mail. Tiveram conhecimento da marca e diziam que gostariam de vender a Roselyn Silva. Em Soho, na Doors, em plena Nova Iorque, ao lado da Gucci. Ainda não fui, mas espero ir este ano. Aliás, é necessário que eu vá este ano. Eles já me pedem isso. Porque hoje tudo é online, mas nada substitui a presença de um artista, de um criador. As pessoas querem conhecer. E no meu caso, em particular, eu sou uma marca com uma história. Então as pessoas querem ouvir a história. Querem perceber quem é, de onde veio.
Falamos da herança e da sua conexão com os tecidos, mas disse que não tinha referências de design de luxo em casa. Como é que surgiu a vontade de fazer peças para um público de luxo?
Desde miúda, os meus pais perceberam que eu tinha ali gostos muito específicos, muito particulares. Sou a mais velha de três. E desde muito nova, seis, sete anos, eu gostava de vestir bem os meus irmãos. Lembro-me dessa experiência, adorava opinar sobre o styling. Tenho uma tia que adora contar que quando eu tinha cinco anos, ela vestiu-se e eu pedi-lhe para mudar de roupa e se eu podia escolher a roupa, ela fez-me a vontade. Não sei se funcionou, mas acho que sim (risos). Então, desde miúda, era perceptível o meu olhar para os detalhes, era capaz de ver que há uma linha a sair do casaco, perceber que a bainha não estava bem. A minha mãe comprava sempre as calças para os meus irmãos muito grandes, e eu ia lá sempre com cuidado fazer as bainhas. E depois, sem ter referências nenhumas de luxo, eu lembro-me que adorava ver montras, já numa fase mais adolescente. Principalmente quem é africano, vai entender melhor o que eu vou dizer, que é a questão de muitas vezes, sentir uma espécie de não merecimento. Às vezes, íamos passear na Avenida e eu queria entrar nas lojas. E diziam: ‘vais entrar aí, porquê? Não temos dinheiro.’ E eu respondia: ‘não, mas eu quero ver, quero perceber.’ Já era algo meu. Acho que é algo que não se ensina, já nasce com a pessoa a questão dessa sensibilidade para a qualidade. Quando comecei a ter a possibilidade de comprar roupa, preferia não comprar muito, mas quando comprava, gostava que fossem coisas boas, de qualidade. É algo que acho que é inato. Depois, o luxo em si, foi quando eu comecei a aprender o que é que são marcas de luxo. Eu gostava, mas não sabia, não tinha noção. Fiz uma pós-graduação na Católica, sobre gestão de luxo, fui procurar esse conhecimento, sou uma pessoa que gosta de estudar, sempre que posso, estudo e aprendo mais.
Quando começou a desenhar peças, já tinha ideia de que queria entrar no mercado de luxo?
Quando olhava para os tecidos africanos, eu via-os sempre num posicionamento premium, luxo, mas nem sabia bem estes termos, sabia que era assim que eu queria que as pessoas olhassem para os tecidos africanos. Depois, desenvolvi a minha própria fórmula. Foi juntar a equipa, ir buscar os tecidos e dar-lhes um corte muito europeu. E tinha que perceber logo desde o início onde é que eu queria estar, para trabalhar em função do cliente que eu queria alcançar. Daí brincar que fiz o triângulo do luxo. Comecei na Rua Castilho — dizia sempre que o meu atelier fica entre o Ritz e o Altis, que é ali no meio — depois fui para o Chiado e agora, nos últimos dois anos, estou aqui no atelier na Praça da Alegria. Porque eu sabia onde o meu cliente estava, numa questão de estratégia, mas também de poder económico; sabia que queria trabalhar com bons materiais, que tinha que ter uma equipa de excelência, e que isso era caro. Então, a noção do luxo veio muito também pelo público que eu sempre quis alcançar.
E quem é esse público? Disse que tinha uma sensação de não pertencer ao ver as montras nas lojas da Avenida da Liberdade, mas também cria peças muito étnicas. Quer levar a etnicidade para a moda europeia, ou quer atender a um público de luxo que tem ligação com esta herança cultural?
Vou responder isto da forma que eu acredito. O luxo relativo ao design africano sempre existiu. Seria quase ingrato, uma prepotência, dizer que fui eu que o trouxe. No entanto, o mercado ainda não estava atento. Primeiro, porque não havia essa comunicação por parte das marcas africanas de luxo. Quando eu comecei a procura só encontrei a Stella Jean, depois é que fui descobrindo outras, a Christie Brown e por aí a fora. Percebi, entretanto, que havia a inspiração. Lembro-me da Stella McCartney ter feito uma coleção inspirada em África, a própria Dior, ou seja, várias marcas que nós hoje conhecemos, já fizeram coleções inspiradas em África. O luxo africano sempre existiu, só não estava industrializado nos mercados que nós conhecemos hoje, nas grandes avenidas. Porque às vezes é isso que as pessoas não percebem: o luxo existe em diferentes culturas, mas há uma democratização do que é o luxo europeu e o luxo americano. O que faltava era ser visto com outro olhar na Europa. Mas isto não se faz com imposição, acho que isto se faz com inclusão, e foi isso que eu fiz. No fundo, juntei as duas culturas para elas perceberem que conseguem estar juntas no mesmo espaço e que uma não anula a outra. Tento ter um design que as pessoas não africanas também se identifiquem: as saias são o best-seller da marca porque, independentemente de serem padrões africanos ou não, encontrei ali um design comum. Ou seja, todas as mulheres gostam de ter uma silhueta fina, marcada, uma aparência elegante. Tudo isto parte, obviamente, do meu gosto pessoal, mas também é uma estratégia. A mulher europeia é uma mulher elegante, e ao mesmo tempo irreverente, empoderada. Claramente, uma mulher que se veste toda com um fato com padrão para ir para o escritório, exercer o seu cargo de CEO, tem que ser uma mulher com atitude, com alguma coragem. Criei com a marca uma mulher que talvez as mulheres portuguesas não conheciam, mas gostaram e querem também ser. E depois é uma mulher do mundo, e consigo trazer várias referências de outras culturas: já fui buscar referências à Ásia, com kimonos; as linhas nórdicas e clean; e os folhos e franzidos de Espanha. Porque acho que a minha marca me permite isso.
Outro elemento do ADN da marca é a alfaiataria e a camisaria — peças com cortes e técnicas muito clássicas e específicas. Como começou o seu interesse nesse mundo da costura? Sabe costurar?
Sei, mas pouco, não com a perfeição que elas têm. Vou dizer isto sem pudor nenhum: sempre me encantou mais ver especialistas a trabalhar. É delicioso ver a Aline (costureira do atelier) a trabalhar. Elas não costuram só por costurar, é arte. Ver é quase terapêutico, da mesma maneira que gosto de ver o meu marido a pintar. Sou por natureza uma pessoa extremamente agitada, dinâmica, é tudo para ontem, não sou uma pessoa que tenha essa paciência de estar 10 horas à máquina. Gasto muito tempo a criar, desenhar, adoro explorar, ir às fábricas, aos fornecedores. Às vezes penso que adorava saber costurar desta maneira. Mas também entendo que ainda bem que não sei, porque não limito a minha criatividade. Imagino, acho que tudo é possível, depois entra ali a parte em que elas fazem realmente acontecer.




É difícil encontrar quem sabe fazer bem?
Tão difícil! Cada vez mais. Se puder deixar uma mensagem: por favor Portugal, invista nesta área, porque estão a acabar os bons alfaiates, as boas modistas, as boas costureiras… Criam-se cursos fast fashion e as pessoas não têm as bases suficientes. A Aline disse-me que na Ucrânia ela teve três anos só para aprender costura. Também já falei com alfaiates portugueses da velha guarda que me dizem: ‘no meu tempo demorávamos anos a aprender e éramos aprendizes.’ Ou seja, havia um processo e havia categorias. Hoje queremos saltar os processos. Mas depois isso reflete-se no trabalho, o resultado não tem esse cuidado e perfeição. E eu sei disso, porque eu exijo, mas tenho a confirmação com os clientes, que passam todos os dias por aqui, vindos de vários países. Principalmente os franceses, fazem questão de entrar, chamar-me e elogiar a roupa, só pela montra. ‘Vê-se logo isto é tão bem acabado’, dizem. Pronto, eu fico toda orgulhosa, porque sei que afinal, isto é raro.
Há quanto tempo trabalha com a mesma equipa?
Oito anos. Não as largo por nada. A Aline, que está comigo já há mais tempo, é o meu braço direito e esquerdo. Depois é giro, porque nós desenvolvemos a nossa própria linguagem, somos muito cooperativas. Ela consegue decifrar os meus croquis. Mas lá está, são vários anos de relação.
Como que se encontraram?
Olha, foi bonito. Alguém recomendou-a, na altura eu estava na Castilho, e ela foi ter comigo. Começámos a trabalhar, e foi curioso porque ela chega exatamente no momento em que eu estava em aflição com um vestido de noiva. A pessoa vai para um atelier e começa logo com um vestido de noiva, é o teste máximo. Fizemos o vestido e a noiva ficou muito feliz. E quando vi a dedicação dela… Neste mundo da moda, particularmente, as pessoas têm de ser disponíveis, porque a nossa função é servir o cliente. E ela estava ali comigo, disponível. E resolvemos a questão toda que tinha que ser resolvida. A partir desse dia começou esta relação. Ela viu-me a casar, a ter filhos, já viajámos juntas. Acho que essa relação é boa, é saudável, e é necessária porque a nossa profissão também é muito solitária. Então é importante termos pessoas de confiança ao nosso lado.
Falou de noivas, tem muitos clientes que pedem peças sob medida?
Sim. Aliás, o core business do negócio é sob medida. As coleções são sempre uma proposta, e também para ganharmos mercado e dinamizar o negócio em si. Mas a marca começou sob medida e é isto que os clientes procuram. É muito fácil o cliente chegar aqui ao atelier e pedir uma personalização, porque eu dou esse espaço. É o que eu digo, é o servir, acho que é uma palavra nobre. Porque, no fundo, eu quero é que as pessoas estejam felizes.
Como chegam os clientes?
Atualmente, pela melhor forma de marketing, que é o boca-a-boca, principalmente. As minhas clientes que gostam e têm boas experiências, recomendam. Atualmente, de dois anos para cá, aumentou o número de clientes estrangeiros pela localização em que eu estou e pelo facto de ter uma montra.
E são turistas ou estrangeiros a viverem cá?
Muitas vezes eu não percebo se são de cá, só quando voltam é que eu percebo que alguns já são residentes cá. Mas a maioria são turistas recorrentes. Estou numa zona muito rodeada de hotéis. Felizmente, também tenho aqui boas relações com a vizinhança, eles recomendam. O Hotel Alegria tem catálogos meus e recomendam.
São estrangeiros vindos de que países?
Estados Unidos e França. Muitos americanos e franceses. Pelo menos os que visitam mais esta área. E muitos brasileiros também.
E o que mais querem?
As saias. Desde o dia 1, que eu vesti a Leonor Poeiras para os Globos de Ouro, com uma mega saia, foi a partir daí que as pessoas conheceram verdadeiramente a marca. Fui muito falada, muito elogiada. Tornou-se a imagem da marca. Eu gosto sempre de contar uma história muito romântica, que as pessoas dizem: ‘Ah, mas porquê saias? E eu digo, ah, porque eu sempre fui apaixonada pelos anos 60, 70, aquela época das pin-ups e aquelas saias todas muito rodadas…’ Mas, a verdade é que a referência das saias foi porque se tornou uma peça pública, mediática. E depois eu tinha pessoas a procurarem por causa das saias. E pensei: ‘ah, espera aí, afinal, existe aqui um mercado interessante.’
E como a Leonor Poeiras chegou a si?
Eu tinha acabado de aparecer e as pessoas falavam: ‘Há uma designer africana ali na Castilho e tal.’ E um dia nós recebemos uma mensagem por parte dela a dizer que teria um evento, os Globos de Ouro. Foi a minha primeira experiência com esta questão de vestir figuras públicas, porque uma coisa era o que eu via nas revistas ou na televisão, outra coisa é eu fazer parte. Quando entrei no mundo da moda, vinha de uma área tão diferente, não conhecia muito bem as pessoas. Acho que foi bom, porque entrei sem deslumbramento, completamente ingénua e sem grandes pretensões. Na altura ela só disse que gostava de ser vestida por mim. E como eu já tenho estas referências da Carolina Herrera, da Dior, da Chanel, então pensei que era a minha oportunidade de fazer “a” peça. Sempre achei que uma saia e uma camisa são duas peças extremamente clássicas e muito intemporais, acho que uma mulher que usa uma camisa e uma saia fica para sempre. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Sugeri, ela gostou, foi um processo juntas e funcionou muito bem. Depois tive colegas a elogiarem-me, grandes nomes, como o Filipe Faísca, o Dino Alves, que hoje são grandes amigos. Fiquei muito vaidosa na altura. A peça apareceu nas revistas, foi uma coisa muito falada. E, curiosamente, comecei a perceber que os meus clientes eram maioritariamente mulheres portuguesas, mulheres brancas. Até para mim foi uma surpresa, porque eu achava que pelas referências africanas eu iria atrair mais o público africano, mas não, foi o oposto. Até hoje, digo sempre que 80% dos meus clientes são pessoas não africanas, os 20% é que são. E os 20% que são, são muito clientes de orgulho. Aquela coisa de quererem usar uma marca de criadora africana.
Até vestir a Leonor Poeiras não tinha essa perceção?
Não tinha, foi uma surpresa para mim. Após vestir a Leonor Poeiras, tive várias marcações, e geograficamente foi curioso, porque eram muitas clientes de Cascais, de Lisboa e que vinham do Norte. Depois, claro, à medida que as pessoas iam ouvindo o meu nome, outras pessoas foram chegando de Angola, algumas pessoas também africanas em Portugal.
Tem clientes que vêm de África?
Hoje, tenho. Vêm só para terem uma peça minha. E elas vêm porque têm orgulho em dizer que que estão a usar uma peça de uma criadora africana. E isso deixa-me muito feliz. Percebi que entrei no mercado. Em Portugal, espero mesmo ter contribuído para esta mudança de paradigmas, de estereótipos.
Também vê a moda como política?
Sim, muito. Aliás, esta minha coleção nova é muito política. A coleção chama-se Find Love, ou Encontra o Amor. Porque nós vivemos numa era de contrastes, de muita divisão. Ou é preto, ou é branco, ou é direito, ou é esquerdo, ou somos A, ou somos B. Parece que as pessoas se esqueceram onde é que está o amor no meio disto. Então eu desafio o observador a encontrar o amor através desta coleção. Esta coleção é preto e branco mesmo, são dois opostos, a união dessas dualidades em peças de roupa. O que eu quero transmitir às pessoas é que elas se esforcem para, no meio dos contrastes, encontrarem a harmonia e a união. E isto é muito a minha resposta a tudo o que nós vivemos politicamente, acho que o ser humano está a perder a capacidade de amar. É urgente que as pessoas encontrem o amor. Se puder ser através das peças que vou mostrar, ficaria muito feliz. Mas nem que seja apenas para levar as pessoas a refletir sobre isso.
São 25 coordenados. O que é que vamos ver na passerelle?
É hábito apresentar os padrões de origem africana. Mas acho que a grande surpresa vai ser, efetivamente, essa ausência de tantas cores. Vou focar só no preto e no branco. Vamos ter sedas, que já é um clássico da marca, mas vou introduzir aqui três materiais: o denim, também em preto; a renda bordada à mão, que remete quase a uma lingerie; e um tecido que é uma espécie de tule com 3D, com folhagens e apliques. Também é a saída da minha zona de conforto. Sou muito fiel à identidade da marca. Enquanto eu for diretora criativa da minha marca, há aquelas peças que não vão faltar na coleção e que os meus clientes já sabem. Mas o facto de estar na ModaLisboa é um palco, uma montra para o mundo. Então aproveito também para mostrar mais do meu trabalho, da minha criatividade, porque eu não sou só isto. Sou muito mais.

Como é a sua relação com outros designers portugueses?
É muito boa. Sou muito de cooperação, muito zen na minha forma de estar, não invejo, gosto de aprender. Acho que isso também ajuda. Então, sempre que me aproximei de outros criadores, foi com a intenção de aprender, perceber. E eles abraçaram-me logo, ensinaram-me. Então, esta relação de proximidade, não digo com todos, mas pelo menos com alguns, é muito positiva. Acho que não há concorrência na área criativa. Há sim pessoas que podem ter como objetivo o mesmo mercado, mas não somos concorrentes ao ponto de não podermos colaborar. Aliás, adoro colaborar. Estou sempre a fazer colaborações.
Tem colaborações com designers portugueses?
Ainda não, mas tenho com uma marca portuguesa, a Delta. Em 2024 desenvolvemos uma linha home, que é de atoalhados, jogo americano, individuais e guardanapos. Está à venda na Delta Coffee House, aqui na Avenida. A linha de casa também é algo que eu gosto muito, adoro decoração. E comecei pela mesa, pela cozinha, também por uma questão de herança cultural. Nós, enquanto africanos, gostamos muito de convívio, tudo acontece à mesa, tudo é comida, toda a gente cozinha. Aprendi a cozinhar muito cedo, a casa está sempre cheia, os meus Natais, são sempre para mais de 30 pessoas. Estou habituada a isso, sempre gostei desta parte de pôr a mesa, de receber. E desenvolvi uma linha com restos dos meus tecidos, porque há muito desperdício, por causa deste rigor do corte e do casamento dos padrões.
O seu marido é artista plástico. Já fizeram peças juntos?
Já colaborámos juntos para artistas. Neste caso, lembro-me da Bárbara Veiga, que é uma ativista que fez uma performance. Eu e o meu marido fizemos a peça que ela usou, eu fiz e ele pintou à mão, quase live painting. Foi uma coisa incrível. E não querendo desvendar muito, mas quem sabe, nesta nova coleção já vão ver também algumas coisas. Nós ainda não fizemos a coleção que queremos, porque estamos a aguardar pelo momento certo, mas vai acontecer. Está agora a nascer um projeto de t-shirts e algumas coisas que percebemos que as pessoas nos pedem.
São os dois artistas. Há troca no campo criativo?
Muita. Inspiro-me muito na arte dele. Tal como ele, também tenho os mesmos princípios: queremos mostrar um lado africano que as pessoas desconhecem, com esta harmonia, leveza, elegância, e tentar mudar um bocado aqui alguns estereótipos de associar a África à pobreza, ou até, eu tenho que dizer, ao medíocre, que às vezes as pessoas não esperam muito. Então, de repente, aparecemos nós, com trabalhos completamente estabelecidos e diferentes, e a ganhar espaços que outros não ganharam. Então, nós sentimos uma responsabilidade muito grande naquilo que fazemos. A partir do momento que nós começamos a desbravar alguns espaços que eram elitistas, percebemos que isto não é só sobre nós. Isto é muito mais. Nós representamos algo.

E mostra as coleções para ele?
Nada. Essa questão é muito comum. Nós partilhamos, mas parece que há uma espécie de confiança do género: ‘eu sei que o que tu vais fazer está a correr bem.’ Ele vai comentando, durante o dia, trocamos muitos áudios no WhatsApp, desabafamos, porque somos muito amigos. Falamos muito, mas ele só vê as minhas peças no desfile e eu só vejo as peças dele na exposição.
E mostra para alguém antes?
Ninguém. A minha designer que trabalha comigo, a Ana, só. Mas… No início, mostrava. Porque estava sempre à procura da aprovação. Pelo facto de trabalhar com uma matéria prima diferente, queria sempre perceber o terreno que eu estava a pisar. Os meus riscos sempre foram calculados. Sou muito sonhadora, muito aventureira, mas o meu percurso começou muito com o negócio.
Mas então, neste momento, sente-se mais madura?
Exatamente. Neste momento, não tenho essa necessidade. E, sinceramente, nem quero. Quero estar segura de mim, ter a certeza do que é o que estou a fazer. E, quando nós somos donos de nós mesmos, às vezes, temos que nos autodesafiar. Acho que é bom nós também nos provarmos, perceber até onde é que eu posso ir. E, quando vamos à procura de outras opiniões, acho que podemos sabotar aquilo que, se calhar, nós podemos fazer bem ou melhor. As pessoas neste meio têm tanta opinião, mas não calçam os nossos sapatos, não sabem as nossas dores, não sabem o quão difícil é. Nem todos os dias isto é um glamour, há dias em que é horrível. Chegavam a questionar-me: ‘Então, mas tu vais continuar sempre com padrões africanos? Vá lá, isto vai cansar.’ Mas, aí está, eu filtro muito as coisas para o meu bem-estar.
Entretanto, em 2025 surgiu para si a ModaLisboa. De certa forma, está a colocar a marca sob escrutínio.
Completamente. Sempre quis fazer a ModaLisboa. Acho que é o desejo de qualquer criadora de Portugal. Mas, nunca me foi dada essa oportunidade. E chegou uma altura em que pensei: ‘não vou pedir mais, não vou mais ficar nessa expectativa. Vou continuar a fazer o meu trabalho, como eu sei fazer. Um dia, se tiver que acontecer, acontece.’ E o ano passado, quando a marca fez 10 anos, recebo o telefonema da Eduarda (Abbondanza). “Roselyn, queríamos marcar uma reunião. Achamos que sim, já é o momento.’ Imagina como é que eu fico? Estava de férias, fiquei histérica, muito feliz. E a minha estreia foi assim, muito emocionante, chorei muito. A coleção também foi muito bonita, quase um afirmar do que é a marca Roselyn Silva. Agora, convidarem-me outra vez a apresentar e fazer parte, neste caso, do calendário, vejo isto como um merecimento. Eu não quero ser ingrata, mas acho que também não tem mal nenhum dizer: ‘estou aqui porque mereço estar aqui’. Às vezes parece que temos sempre esta posição de pedir licença para as coisas. Não quero pensar que estou ali por favor, não, estou ali porque mereço, trabalhei para isto. Para mim, o estar na ModaLisboa é também um sinal de responsabilidade. Tudo o que eu faço é com responsabilidade, ou por mim, ou pelos meus. E, neste caso, tenho dois filhos. O meu propósito na vida mudou, quero muito ter uma marca de sucesso, uma marca diferenciada, deixar um legado, mas tenho dois filhos que eu quero que estejam orgulhosos do que eu faço.
Veio algum crescimento para a marca desde a última participação na ModaLisboa?
Veio mais visibilidade nacional e internacional. Veio muito mais procura, mais vendas. E veio muito mais interesse por esta questão da descoberta destas raízes africanas. É importante haver estas oportunidades e este desbravar de alguns caminhos para o mercado africano. Não acho que seja preconceito, acho que é desconhecimento. Mas quando as pessoas veem e gostam, querem mais. Então eu fico feliz. Percebi que a minha entrada na ModaLisboa também abriu aqui um horizonte, e ainda bem.
E costumava frequentar a Moda Lisboa?
Sim, sempre como convidada, por colegas, criadores e a própria organização. Sempre foi uma montra que adorei ver. Quando posso, também vou ver outras Fashion Weeks. Mas aí está, uma coisa é estar sentada a assistir, outra coisa é participar.
Qual é a sua visão sobre a moda de autor em Portugal?
Eu diria que somos resistentes. Tenho que ser honesta, somos muito resistentes porque Portugal é um mercado pequeno. Temos que ser realistas, não há espaço para todos. Então por isso é que muitos procuram reconhecimento internacional, para podermos escalar. Mas ao mesmo tempo, também acho que é um país que está-se a orgulhar cada vez mais daquilo que tem. Ainda há diamantes por lapidar, Portugal tem imenso talento. Só precisa investir. Nem digo explorar, é investir.
Também não costumamos ver designers africanos na Moda Lisboa com tanta frequência. Fala em responsabilidade, sente-se responsável por ser a pessoa a abrir portas para que outros criadores africanos também possam ocupar esse espaço?
Sim. Sinto e já o verbalizei até à própria ModaLisboa quando eles me perguntaram a minha opinião. Porque quando foi anunciado o meu nome, houve uma reação pública de pessoas africanas que se sentiram assim. É aquele orgulho, sentiram-se representadas, claramente. E agora recebo diariamente mensagens, com elogios e a desejar força. Há dias que até é assustador, como se não pudesse falhar, porque eu não quero desiludir ninguém. Mas é necessário, e eu fico feliz por eu ser essa pessoa, que trouxe essa mudança. Já fiz o Portugal Fashion, participei com o Bloom em 2015, também tiveram a parceria com a Canex e fiz questão de ir só para conhecer os designers. Aí está, o curioso: quando esses designers africanos vieram de África para Portugal, participar no Portugal Fashion, eu senti-me representada. É um sentimento que não sei como explicar. Embora eu tenha crescido cá e sou portuguesa, é o sentimento de ser um estrangeiro numa terra e de repente vês outros como tu. Na indústria do moda, particularmente, senti muito isso. A ModaLisboa também fez uma parceria e vieram criadores africanos, mas eu sabia que eram coisas pontuais e específicas por causa de um projeto. É totalmente diferente de estar num calendário oficial. Ser a primeira no calendário oficial, sim, representa muito.