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Béhen: "Todos os dias recebemos pedidos de orçamentos para noivas. E somos um estúdio minúsculo!"

Na Brotéria, Béhen mostra 8 novos looks, com o preto a dominar mas o branco bridal está em forma. Só faltava a cereja no cimo da renda: "Cristiano e Georgina bem podiam encomendar-me guardanapos".

Maria Ramos Silva
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As lérias de Niza revelam-se numas mangas brancas para um vestido, com uns “rabinhos de gato” em baixo, enquanto farripas pretas vão pintalgando o chão de breves desperdícios. Na mesa redonda, logo à entrada, as mãos laboriosas de Marta e Mariana ocupam-se de duas novas técnicas introduzidas para esta fase. Há cerca de um ano que Joana Duarte se mudou de Campolide para o novo atelier, na Rua do Sol ao Rato, e é aqui se ultimam, no contrarrelógio de sempre, as novidades para o próximo outono-inverno, num longo e discreto processo. “Normalmente fazemos os desenhos dos bordados e depois vão para os artesãos e voltam para nós, o que também continua a acontecer, mas para esta coleção em específico quisemos testar aqui. Todas as amostras das técnicas tradicionais foram feitas por nós no atelier. É mais fácil captar o desenho dos bordados, das várias técnicas. Houve mais investimentos nessa parte da experimentação.”, descreve a designer ao leme da Béhen, que em janeiro levou parte desta fornada a Paris, em modo preview. Depois dessa fase, introduziram algumas alterações e adicionaram umas quantas peças.

Apanhamo-la mesmo a fechar a coleção, antes das fotografias dos coordenados que agendou para o MUDE. Este sábado, será a vez de partilhar em Lisboa “Mirror mirror on the wall, who’s the cutest of them all?”, um conjunto de oito looks que se irão mostrar de forma ultra restrita no espaço da Brotéria, de novo reavivando memórias dos antigos desfiles de alta-costura, num embalo delicado e com toque retro, quando no final as senhoras devolviam os seus cartões com as respetivas encomendas. “Para mim é mais interessante ter 50 pessoas que entendem o que estamos a fazer do que ter uma sala com 800 pessoas que às vezes nem sabiam o nome dos designers que iam ver.”, admite Joana, reconhecendo as dificuldades que uma localização alternativa coloca à organização da semana da moda lisboeta. “Sei que o formato assim não é o ideal para eles mas não há como não ir por aqui. Cada vez faz mais sentido este tipo de formatos. Aquele formato não resulta para todos os designers.”, defende.

No piso inferior do estúdio, Lauren, Débora e Sara reforçam a equipa, por onde se encontram espalhadas outras peças da nova coleção. Em redor, livros, revistas, moldes, marcações, charriots de pano cru, uma edição sobre bordado e subversão, o Globo de Ouro de Personalidade de Moda que venceu em 2022 , ou ainda o recente Prémio internacional Sandro Paris, são a moldura para um universo que vai crescendo ao seu ritmo, introduzindo novidades e continuando a unir os pontos da tradição artesanal portuguesa.

A técnica dos vidrilhos segue desde a primeira temporada, agora mais carregada, em peças como um vestido preto com as suas sete saias nazarenas. Muito presente nas capas e mantas, a lã revela-se em técnica de Niza, sobre burel. “Já tinha trabalhado com a dona Antónia naquele vestido preto comprido de flores, como se fazia os xailes antigamente. Ela é das últimas a fazer. Mas ela tinha umas festas e não consegue ajudar. Desafiei a Mariana a aprender a técnica para conseguir integrar. Quando for a produção logo volta para a dona Antónia. Só que isto não é fácil. Não há livros nem vídeos no YouTube, foi muito tentativa e erro”, enquadra a designer.

Destaque ainda para os favos, trabalhados com lã portuguesa da Rosa Pomar, cujo fio tem sido recorrente na criação de Béhen. Outro contributo repetente é o do projeto de mulheres migrantes do Gujarat, fixadas na Grande Lisboa, da cooperativa Homelore, para um breve intervalo nas técnicas nacionais, agora com o contributo dos espelhos que “afastam o mau olhado”. Quanto às peças desta montra renovada, o hoodie é uma peça casual que aqui se rende a uma técnica nada casual, para um resultado entre o street wear e sofisticado burel da Serra da Estrela. Nas saias seguiram a mesma fórmula. Mais compridas ou mini, todas aderem às sete layers. Outra das pérolas é um vestido criado com base na algibeira tradicional do traje do Minho, bem carregada a nível de bordado. Ou umas calças pretas com entrada direta na lista de desejos. “A Paula tem feito o desenvolvimento dos patterns. Temos investido muito em melhorar as silhuetas. Temos aqui trabalho de anos.”

Na habitual mesa de trabalho de Joana, alinham-se sapatos que estão a ser customizados, seguindo idênticos índices de fofice. “A lã portuguesa é ótima mas é mais rija e nós queríamos um efeito mais fluffy, como se fosse um pelo. Daí termos mudado as outras peças para lã merino, mas nos sapatos aproveitámos estes restos de portuguesa.” Continuam a seguir a regra de comprar vintage e apostar no upcycling deste acessório, mas Joana Duarte confessa que ainda não desistiu da ideia de fabricar calçado de raiz. Entretanto, estão a fazer umas novas fitas para o cabelo.

O boom bridal

Ao contrário de anteriores, a nova coleção só tem peças de mulher. Joana admite que nem pensou no predominante preto como um corte como o que vimos na última edição da ModaLisboa. O negro tem dominado as passerelles mundo fora e, de forma natural, também por cá se mantém como um campeão absoluto das ruas e tendências (para não falar que é uma cor sempre associada à portugalidade). Mas as conversas mais recentes com Béhen apontam para uma revisão da paleta, pelo menos num segmento muito concreto, em franco crescimento na casa. “Todos os dias recebemos pedidos de orçamentos para vestidos de noiva. E sou uma marca minúscula! Já lhes disse aqui no atelier que devia ter criado uma marca de noivas desde o início.”

O início da febre aconteceu com Elisa Boto, quando a influenciadora encomendou um conjunto de calças e camisa para um dos eventos paralelos à sua boda. A partir do momento em que partilhou imagens na sua conta de Instagram, os pedidos de conjuntos iguais dispararam. “Depois as pessoas começaram a aparecer. Se calhar trouxe um alcance mais elevado do que outras pessoas mais mediáticas.”, admite a designer, que por vezes nem sabe se aquilo que tem em mãos se destina a uma futura noiva. “Há uns tempos vendemos uma peça e depois percebemos que era para uma shoot que a pessoa fez antes da cerimónia, para os amigos. Este ano já estamos com dois vestidos de cerimónia mesmo. E já fizemos uns quantos para pré e after party.” De resto, o aumento de eventos antes e depois do momento do “sim” (muitos deles trazidos por casais estrangeiros que escolhem Portugal como destino de casamento) tem feito expandir o mercado de forma genérica, incluindo para os criadores nacionais independentes — que não se importavam nada de alcançar o mais mainstream dos palcos: “Eu queria era o Cristiano Ronaldo. Vestir Georgina era impossível mas não ficava nada mal se me encomendassem guardanapos com bordados da Madeira!

Se a encomenda não chegar, há sempre projetos que satisfazem os mais megalómanos dos suspiros. Há poucos meses, o estúdio esteve de volta de uma enorme toalha, ricamente bordada, para um casamento na Sicília, um “descontrolo” autêntico com 72 metros de comprimento por três de largura, para estender num contexto campestre. Sem problemas de maior com orçamentos, os felizes destinatários foram um casal de noivos americanos que escolheu Itália como destino da festa. Mas nem tudo é um bouquet bonito a voar em direção a quem o apanha. “Este mercado é muito interessante mas também muito exigente, a ligação à peças, ao processo. Os fittings demoram horas, tens que falar com a wedding planner, etc.”, frisa Joana, para não mencionar a custosa operação logística. “Esta peça foi de transportadora, pesava mais do que nós, três rolos gigantes. Foi surreal, eram muitos metros de coisas bordadas à mão, aquilo é um tesouro.” Este sábado, na Brotéria, voltou a encerrar a apresentação com um vestido de noiva que é uma versão alternativa da silhueta Catita, 100 por cento linho e algodão.

Se quem vem de fora costuma ter menos ligação ao têxtil nacional, esta não deixa de ser uma boa oportunidade para mostrar o melhor dos materiais portugueses. Há quem venha até solo português ou então nem chegue a sair de casa. Nesse caso, tudo pode ser tratado à distância e enviado por correio. Foi precisamente o que aconteceu com uma cliente norte-americana de raízes indianas. Usando um dos fornecedores com quem costumam trabalhar, Béhen apostou numa peça com um sari em seda que foi feito à mão na Índia, e que depois foi bordado com espelhos por elementos do projeto Homecare. “Nunca nos conhecemos. Claro que é diferente quando a cliente vem cá. Mas há uma ficha de medidas, chamadas zoom, a peça vai o mais próximo do pedido.”. O processo durou dois meses e a noiva trocou alianças em fevereiro.

Ao fim de cinco anos de presença da marca, para muitas das clientes que já seguiam a etiqueta o momento da cerimónia é o álibi perfeito para investir. “Com o casamento se calhar conseguem justificar a compra de uma peça mais elevada.”, admite Joana, notando no entanto que o público português a procura sobretudo para fazer o look de festa, menos formal, mais comercial, e que pode ficar por valores mais modestos. O que também desde o começo do estúdio é a relação com a matéria-prima. “Antes vinham ter connosco com a toalha da avó mas também nos fomos aproximando de materiais mais difíceis de encontrar, com valor mais alto. Quando vêm ter connosco já vêm à procura de uma qualidade superior na construção do bordado para se diferenciar. Hoje há muita concorrência mas é focada no upcycling, com toalhas que até podem ser bordadas à mão mas ficam aquém na hierarquia da qualidade.”

Uma criação de origem, customizada, com bordado personalizado, dificilmente ficará abaixo dos 6, 7 mil euros, e “falamos de uma coisa simples”. Tudo depende do tipo de bordado, claro, sendo que o valor na prática é infinito. Uma das encomendas mais avultadas chegou aos 15 mil. “Fazemos a modelagem e isso conta como projeto de raiz. Nos vestidos de cocktail usamos pré design com moldes já desenvolvidos e esses podem ficar entre os mil e poucos e os 4 ou 5 mil. Temos assim essas duas categorias.”, explica Joana.

Empréstimos? Só em casos muuuito especiais

Quando há trabalho pela frente, não há como mudar, nem como apressar. É por isso que a atividade de bordar à noite, que mantém, nem sempre é cultivada por lazer. Também por isso tem circunscrito a comunidade Béhen, tentando que quem gravita em torno da marca entenda a complexidade que cada confeção encerra. “É importante que quem veste perceba a nossa realidade no atelier. Custa-me quando nem têm ligação e nos pedem roupa como se estivessem a ir à Zara.” As criações de Joana Duarte já passaram por red carpets, incluindo Globos de Ouro, chegaram a figuras da música de alto relevo como a cantora Rosalía ou Leon Bridges, mas essas pontes, admite, são forjadas com critério e revelam-se uma autêntica lotaria no desfecho. “São pessoas que ativamente procuramos nas redes, tentamos chegar às equipas, mas é preciso os astros estarem alinhados para chegar uma foto da pessoa a usar a peça. Já fizemos peças para A List celebrities e não sabemos se foi usado ou não, não há foto!”.

Depois há todo um território meio insondável, o das celebridades e influencing (ambos de dimensões díspares), onde o balanço entre cedências e feedback nem sempre é tão frutuoso como se imagina. “É uma área sempre muito ingrata principalmente em Portugal. Esta coisa de vestir celebridades é importante mas muitas vezes não nos compensa. Hoje em dia, honestamente, evito emprestar coisas, a não ser que seja mesmo alguém que esteja numa lista que para mim faz parte da estratégia. A exposição não traz assim tanto retorno e às vezes as coisas até vêm danificadas, não vêm lavadas, é um stress para as ter de volta.”, lamenta a designer, que continua a ser muito solicitada para ceder peças a título de empréstimo e que insiste em passar a recomendação aos emergentes e aspirantes do setor, menos rodados nesta experiência. “Digo sempre o mesmo aos designers mais novos: batam com o pé, é o vosso trabalho, a vossa arte, escolham bem as pessoas, às vezes os egos são demasiado grandes.”, garante.

De Paris trouxe contactos com nomes que já conheciam o projeto Béhen, onde o storytelling e a atenção às técnicas e materiais prevalecem como ponto de maior interesse. “Os buyers da categoria onde nos posicionamos procuram essa atenção ao material, mesmo as missangas que usamos é tudo metal ou vidro, não há aqui nada de plástico.”, define Joana, que adorava agarrar um ponto de venda como o Dover Street Market. Vende hoje diretamente ao cliente para todo o mundo, e estão ainda presentes numa loja em Toronto, outra em Mumbai, ainda em Miami, num espaço que também tem estilos de coleções mais antigas. Falamos no entanto de um stock reduzido já que o foco, assume a designer, é menos no volume de produção e mais no cliente. “Não me interessa essa visão de vender 50 calças, prefiro encontrar este nicho que entende a história e está disponível para pagar.” Quanto ao look que veste para este artigo, preto com flores bordadas, é tão Béhen que até ilude. “Este casaco é antigo, comprei na Vinted. Até a minha avó achava que era meu!”