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As guerras da Ucrânia e do Irão

Em termos geopolíticos, a guerra no Irão já foi uma derrota para a Rússia. O Irão é o principal aliado dos russos no Médio Oriente, mas Moscovo foi incapaz de proteger a liderança iraniana.

João Marques de Almeida
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Há duas questões importantes. A primeira refere-se às ligações entre as duas guerras. A segunda tem a ver com o impacto da guerra no Irão na Rússia e na Ucrânia: serão beneficiados ou prejudicados?

As ligações entre as duas guerras são óbvias, quer em termos geopolíticos e militares, como nas questões de energia. No primeiro caso, o Irão foi sempre um dos principais (senão mesmo o maior) dos aliados da Rússia na guerra contra a Ucrânia. Desde Fevereiro de 2022, o Irão tem enviado drones para a Rússia atacar a Ucrânia. Mas os iranianos foram mais longe. Enviaram tecnologia e ajudaram os russos a desenvolver a sua indústria de drones. A colaboração foi tão longe que Israel começou a ajudar o governo ucraniano, sobretudo com “intelligence”.

O início da guerra no Irão reduziu a cooperação militar entre iranianos e russos. Obviamente, o Irão deixou de ter capacidade para ajudar a Rússia. No entanto, não terá grande impacto na capacidade russa de continuar a atacar a Ucrânia com drones porque, entretanto, os russos desenvolveram a sua indústria. Por outro lado, os russos também não conseguem ajudar o Irão de um modo decisivo, até agora a ajuda militar tem sido muito residual.

Em termos geopolíticos, a guerra no Irão já foi uma derrota para a Rússia. O Irão é o principal aliado dos russos no Médio Oriente, mas Moscovo foi incapaz de proteger a liderança iraniana. Em Janeiro, assistiu passivamente à prisão do líder, Maduro, do seu maior aliado na América do Sul, agora limitou-se a ver os americanos matarem Khamenei. Foram dois meses terríveis para a posição do regime de Putin na geopolítica global. Qualquer governo no mundo que deseje uma aliança com a Rússia contra os Estados Unidos percebeu que não os protege.

A Ucrânia pode ser beneficiada, e muito, com a guerra no Irão. Não será em termos militares, mas sim em termos políticos. Desde logo, a experiência de guerra durante quatro anos contra os russos, sobretudo a defesa contra os ataques de drones, já está a trazer benefícios aos ucranianos.  O Qatar e os Emirados, já conversaram com Zelensky para comprar sistemas de drones defensivos à Ucrânia. Esta aproximação entre os países do Golfo e a Ucrânia pode também ser importante para a futura reconstrução do país, após a guerra com a Rússia. As monarquias do Golfo têm recursos financeiros amplos que poderão ser muito úteis para investir na reconstrução da Ucrânia.

Também parece claro que o processo de paz na Ucrânia é uma das vítimas da guerra no Irão. Depois dos ataques militares a um aliado da Rússia, será muito difícil para Moscovo confiar nos Estados Unidos como um mediador imparcial. A guerra no Golfo pode mesmo levar a um afastamento entre Trump e Putin, o que beneficiará a Ucrânia. Uma das consequências da guerra no Irão poderá ser a renovação da aliança entre norte-americanos e ucranianos. Até o Pentágono já está a negociar a compra dos sistemas ucranianos anti-drones. Quem diria, há um mês, que os americanos queriam comprar material militar à Ucrânia?

No sector da energia, as guerras da Ucrânia e do Irão têm um impacto imediato, com o aumento dos preços de petróleo e de gás. A curto prazo a Rússia beneficia do aumento dos preços da energia fóssil. Mas também ganha porque vai aumentar a venda de petróleo e de gás para a China e para a Índia, e provavelmente para outros mercados asiáticos.

Mas a guerra no Golfo pode acelerar uma alteração profunda a longo prazo nos mercados globais de petróleo e de gás. Essa mudança começou com a guerra na Ucrânia, que transformou os Estados Unidos no segundo maior fornecedor de gás para a Europa, e o maior de GNL. No final de 2027, a União Europeia deixará de comprar gás russo de todo. O Azerbeijão e a Argélia irão aumentar a venda de gás para a Europa, e oferecem menos risco do que o Qatar. Mas a Argentina e o Canadá também poderão reforçar a venda de gás para a Europa.

No caso do petróleo, a UE também deixará de comprar petróleo russo a partir do fim de 2027. Os países europeus importam pouco petróleo do Golfo (cerca de 14% de petróleo total consumido na UE). A Ásia depende muito mais do petróleo do Golfo do que a Europa. É muito provável que essa tendência se acentue. No futuro, os europeus também comprarão mais petróleo do continente americano, do Brazil, do Canadá e da Venezuela. Daqui a uns anos, poderemos olhar para as guerras da Ucrânia e do Irão como os momentos que contribuíram para uma divisão global do fornecimento dos mercados de petróleo e de gás (não dos preços, esses continuam a ser globais). A Rússia e o Golfo fornecem sobretudo para a Ásia. A Europa ficará numa espécie de “hemisfério ocidental” de energia fóssil, com grande parte de gás e do petróleo importado das Américas (e o restante de África e da Ásia Central).