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(A) :: Adeus Nuno

Adeus Nuno

Nuno Morais Sarmento nunca admitiria contribuir para um qualquer “consenso” se tal significasse abdicar de uma convicção ou do que considerava um desnecessário erro político. Eram trocas impossíveis.

Maria João Avillez
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1 Não deixava ninguém indiferente, não passou incólume pela vida, era intenso, difícil, verdadeiro, brilhante. Dava-se por Nuno Morais Sarmento. Inspirava. Combatia. Resistia.

Nunca soube se era mais resistente que desconcertante, se o contrário. As duas coisas de certeza mas agora já não tem importância, o Nuno partiu sem nos avisar, como fazem os que nos desconcertam mas que amamos sem condições. De certo modo tínhamos ancorado nele para sempre, coabitando com a sua invulgaríssima forma de vida, o brilho da inteligência, o imenso talento político, a lucidez sem ilusão, a capacidade de “ler” o ser humano. O feitio era trabalhoso, porventura aquilo a que que o comum dos mortais chamaria de “caprichoso”, mas nós eramos devotos. Sabendo bem que não havia “caprichos”, havia sim uma desritmada forma de vida que nunca pareceu embaraçá-lo, na mesmíssima proporção em que nos afligia.

Falo no plural por haver uma estreita e já antiga ligação entre um especial grupo – na verdade eram dois – de amigos do Nuno onde me incluía e de quem me lembro agora, a cada palavra que escrevo. Encontros que podiam ser em qualquer sítio, começavam à roda de uma mesa de jantar, no sofá de uma sala, num terraço, com o imutável e invariável atraso que era a sua assinatura mas a espera, longa, seria porém redimida pelo interesse e a inteligência política – a dele ia sempre à nossa frente – com que tingia as nossas conversas, debates, combates, acertos e desacertos.

Ah e havia o humor. Sim: fininho, agudo, divertido. Rimos tanto e tantas vezes juntos e sabe Deus como o riso em comum ata laços e desata cumplicidades.

2 Tinha a política na pele desde a adolescência, nunca pensou noutra coisa, apesar da advocacia. Era do PSD com paixão, fidelidade e essa constância que lhe trazia a certeza da boa escolha.

Nos melhores e piores momentos do partido, na glória, no desastre ou em velocidade de cruzeiro, Nuno Morais Sarmento estava lá. Era inquestionavelmente dali. Servia o PSD com o seu melhor que era ele mesmo e por vezes, muitas vezes, combatendo só. Aconteceu-lhe ser um embaraço para líderes, irritar plateias, dividir militantes; ou surgir nos palcos, fóruns ou gabinetes, como mais desconcertante que racional. Mas nunca admitiria contribuir para um qualquer “consenso” se tal significasse abdicar de uma convicção ou sequer do que considerava um desnecessário erro político. Eram trocas impossíveis.

Depois claro, analisava em filigrana as glórias e os desastres, sabia questionar concordâncias e dissecar discordâncias e tudo isto como se fosse o mestre do tempo, em noites que de repente eram já madrugadas mas ele nunca dava por isso. Iá estando e fazendo-nos estar.

Deu à sua família partidária o que ela lhe ia pedindo: foi deputado, membro de várias comissões políticas, ex-presidente do PSD duas vezes, governante. Teve alta influência política em muitos momentos, aconselhou, escolheu, ajudou a escolher, propôs. Era sempre ouvido mesmo quando não foi seguido. E foi sobretudo um excelente ministro de Estado e da Presidência do então Primeiro Ministro José Manuel Durão Barroso. (Foi ele que negociou com notável êxito –salvando-a – a complexa restruturação da RTP.)

Amava Portugal como um mandamento, conhecia a nossa história: evocava-a a propósito de bons e maus exemplos, erros ou vitórias. É certo que punha os nervos em franja a governos, deputados, directores, colaboradores, subalternos, porque ou desaparecia de telemóveis e computadores e ninguém o apanhava; ou se metia subitamente num barco ou até num cargueiro, mar dentro, nem importando o destino, só contava o mar, fortíssima paixão; ou porque o seu relógio estava idiosincraticamente desfasado de qualquer pessoa deste mundo com quem se cruzasse ou trabalhasse. A sua aceleração mental armadilhava-o por vezes na imprudência, a criatividade com que vestia a inteligência ditou-lhe um ou outro passo em falso. Mas depois tudo se aquietava – a inteligência e a seriedade recolocavam-no de imediato no seu lugar, na hierarquia da qualidade humana e da vocação política. Marcelo Rebelo de Sousa percebeu-o muitíssimo bem: “Nuno Morais Sarmento foi sempre maior do que os cargos que ocupou”.

Fosse como fosse, nunca nos desiludia quando o ouvíamos falar da sua vida –mas sempre interessando-se pela nossa, com curiosidade genuína; discorrer sobre o universo da ciência política e da própria política; ou entretendo-se horas a fio a olhar para o quadro da natureza humana: o Nuno sabia bem que é lá que tudo começa.

3 Chegou antes do tempo, antecipando-a, à décima quarta estação da Via Sacra. O coração do resistente não deixou. Estavam ambos exaustos, o resistente e o coração. A violência do longo combate contra a doença sugara-lhe o sangue. Por três vezes a Felipa e os seus dois filhos foram chamados aos Cuidados Intensivos de um hospital para que se despedissem, das três vezes, o resistente levou a melhor no combate. Incrédulos, rejubilámos quando um dia o Nuno se reencontrou com a vida (sempre amparado na dom de si, da Felipa; voltou à política, aos amigos, às nossas casas. E à televisão. O écran foi-lhe uma adrenalina indispensável, tinha urgência em apanhar o voo do tempo perdido, precisava de explicar, enquadrar, contrapor: fazer o “ponto” do que estava e do que era. E fazia.

Acreditou ainda ser-lhe possível aceitar a presidência da FLAD. Voltava a confiar em si.

Uma espécie de milagre que nos alegrava tanto quanto nos espantava aquele resto de energia num corpo emagrecido e rosto fatigado, só sobrava o sorriso, sempre aberto.

Mas um dia, e já com nenhumas forças, o milagre foi subitamente interrompido, interceptado por mísseis malignos de natureza humana e não orgânica. Magoado e desiludido, deixou-se cair num lago profundo de tristeza, rendendo-se a ela. A amargura pôde então fazer o seu caminho, a doença galopou, não havia onde ir buscar energia para o último combate.

O coração do resistente parou de bater.

4 Agora é tentar viver sem ele, o combate da saudade, ficou do nosso lado.

PS: Fernando Frutuoso de Melo foi um exemplar Chefe da Casa Civil do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Sei como foi omnipresente, fiel, competentíssimo e usando do primeiro ao ultimo dia, de uma reserva admirável. Grande servidor do Estado, o que é o mesmo que dizer que ele foi – é – um grande patriota.