Já era importante, mas quis o terceiro elemento da matemática que se tornasse crucial. Benfica e FC Porto encontravam-se para um clássico cheio de luz e sol, ainda antes de a noite chegar a Lisboa, e sabiam que o empate do Sporting em Braga abriu a porta a uma reta final de temporada em que nada é garantido, tudo é volátil e muito pode acontecer. Ainda assim, olhando para os dois lados, o contexto era distinto.
Nos encarnados, surgia a ideia de um sonho que chegou a ser uma quimera. Depois de ter estado a dez pontos da liderança, o Benfica aparecia no clássico com a possibilidade de, em caso de vitória, ficar a um ponto do Sporting e a quatro do FC Porto. Ou seja, já sem confronto direto com os dragões e ainda com um dérbi na Luz contra os leões, a equipa de José Mourinho relançava-se por completo nas contas do Campeonato.
Ficha de jogo
Benfica-FC Porto, 2-2
25.ª jornada da Primeira Liga
Estádio da Luz, em Lisboa
Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)
Benfica: Trubin, Amar Dedic (Alexander Bah, 83′), Tomás Araújo, Otamendi (António Silva, 75′), Samuel Dahl, Enzo Barrenechea (Leandro Barreiro, 75′), Richard Ríos, Prestianni (Lukebakio, 65′), Rafa (Ivanovic, 65′), Schjelderup, Pavlidis
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Sudakov, Manu Silva, Anísio Cabral
Treinador: José Mourinho
FC Porto: Diogo Costa, Alberto Costa, Bednarek, Kiwior, Martim Fernandes (Francisco Moura, 58′), Alan Varela, Victor Froholdt, Gabri Veiga (Seko Fofana, 45′), Pepê (William Gomes, 45′), Oskar Pietuszewski (Borja Sainz, 64′), Deniz Gül (Terem Moffi, 77)
Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Thiago Silva, Pablo Rosario, Rodrigo Mora
Treinador: Francesco Farioli
Golos: Victor Froholdt (10′), Oskar Pietuszewski (40′), Schjelderup (69′), Leandro Barreiro (88′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Pepê (26′), a Otamendi (35′), a Gabri Veiga (35′), a Diogo Costa (45+5′), a Martim Fernandes (58′), a Alberto Costa (78′), a William Gomes (81′), a António Silva (90+7′)
“Não sei o que esperar, honestamente, dizer o que se espera tem sempre um risco elevado. O futebol é imprevisível, não podemos dizer. Podemos falar de intenções, declarações de intenções, agora, dizer o que se espera é um bocadinho complicado. As contas do Campeonato fazem-se jogo a jogo, tem sido assim desde o princípio do Campeonato e será assim até que matematicamente as coisas estejam abertas. Seja para o campeão, para as competições europeias, para a descida de divisão. Enquanto a matemática permitir, os jogos têm todos a mesma importância. Objetivamente, a nossa distância para o primeiro classificado é de sete pontos. Imaginando, que não quero imaginar porque sou otimista, mas pondo em cima da mesa uma dose de pessimismo, são sete que podem transformar-se em dez. Seria um passo gigante para as nossas possibilidades de sermos campeões se esfumarem nesse momento, mas não quero ser pessimista. Vamos com tudo o que temos”, disse o treinador encarnado na antevisão.
Nos dragões, surgia a ideia de que o objetivo podia ficar ainda mais perto. Depois do tal empate do Sporting com o Sp. Braga, o FC Porto aparecia no clássico com a possibilidade de, em caso de vitória, ficar com seis pontos de vantagem para o Sporting e dez para o Benfica. Ou seja, a realizar o último confronto direto no Campeonato contra encarnados ou leões, a equipa de Francesco Farioli podia dar um passo importantíssimo nas contas do título.
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“Com 30 pontos por jogar tudo é possível. Temos sempre de os considerar candidatos, melhoraram bastante desde a entrada do José Mourinho e estão num bom momento de forma. Têm vindo a provar a sua qualidade, continuam invencíveis e são das poucas equipas da Europa que ainda não perderam em competições internas. A forma como se bateram com o Real Madrid também diz muito das dificuldades que vamos ter. Tenho um grande respeito pelo treinador e todos estes elementos apontam para um jogo bastante difícil, em que vamos ter de estar no nosso melhor. Nenhum resultado vai fechar o capítulo para ninguém, posso dizer por experiência pessoal que nenhum resultado vai afastar ninguém”, explicou o técnico italiano.
Assim, depois da vitória do FC Porto nos quartos de final da Taça de Portugal e do empate no Dragão na primeira volta do Campeonato, havia novo clássico este domingo. Sem Fredrik Aursnes, ainda lesionado, José Mourinho apostava em Enzo Barrenechea no meio-campo, com Tomás Araújo ao lado de Otamendi e Leandro Barreiro a começar no banco. Já Francesco Farioli tinha Bednarek no eixo defensivo, apesar das dúvidas depois da lesão em Alvalade a meio da semana, e colocava Gabri Veiga e Oskar Pietuszewski no onze, com Rodrigo Mora e William Gomes a serem suplentes. Borja Sainz, que falhou os últimos dois encontros depois da morte da mãe, já integrava a ficha de jogo.
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O Benfica deu a ideia de começar melhor, com mais iniciativa e as linhas mais subidas, mas a verdade é que o arranque promissor foi desde logo travado por uma interrupção provocada pelas tochas que apareceram nas bancadas. Pavlidis ainda assinou o primeiro remate enquadrado do jogo após o recomeço, com um pontapé de fora de área que Diogo Costa encaixou (9′), mas a verdade é que o FC Porto abriu o marcador logo a seguir.
Num lance muito simples em que o truque foi atrair Otamendi para fora da linha defensiva, Alan Varela lançou Victor Froholdt, o dinamarquês fugiu a dois adversários e rematou rasteiro já na área, aproveitando a defesa incompleta de Trubin para marcar na recarga (10′). Os encarnados procuraram reagir ao golo sofrido e Rafa era quase sempre o eleito para desenhar o ataque, até porque Schjelderup e Prestianni estavam algo desaparecidos, mas perdia demasiadas vezes a bola, falhava consecutivamente na definição e ia capitulando face à marcação impiedosa da defesa dos dragões.
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Diogo Costa evitou o empate com uma defesa atenta junto ao poste depois de um cruzamento de Rafa ter desviado em Martim Fernandes (24′), Schjelderup ainda ameaçou com um livre direto que passou perto da baliza (28′) e a equipa de José Mourinho ia mantendo o ascendente — mas era um ascendente que parecia permitido pelo conjunto de Francesco Farioli, que estava muito organizado defensivamente e era brutalmente veloz sempre que acionava o contra-ataque.
Os últimos minutos da primeira parte trouxeram muitas interrupções, alguns cartões amarelos e várias discussões, com a qualidade do jogo a cair a olhos vistos, e acabaram por ser os dragões a aproveitar novamente: num momento em que os encarnados estavam completamente balançados para a frente, Gabri Veiga soltou Oskar Pietuszewski com um passe longo e o jovem polaco deixou Otamendi no chão antes de rematar para aumentar a vantagem (40′). Ao intervalo, já depois de Trubin ter evitado mais um golo ao defender um livre direto de Gabri Veiga (45+2′), o FC Porto estava a vencer o Benfica na Luz.
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Francesco Farioli mexeu logo no início da segunda parte e trocou Gabri Veiga e Pepê por Seko Fofana e William Gomes, ou seja, retirou os dois jogadores de campo que já tinham cartão amarelo. O FC Porto entrou mais sereno, aproveitando a falta de tranquilidade do Benfica para assumir alguma superioridade, e os minutos iam passando sem que os encarnados se aproximassem da baliza e com os dragões a terem as ocorrências aparentemente controladas.
Francisco Moura entrou já perto da hora de jogo para render Martim Fernandes, que estava em dificuldades físicas, e a partida ia entrando numa toada muito sem sal que só favorecia quem estava a ganhar. Rafa atirou ao lado já dentro da grande área (58′), no momento mais perigoso da segunda parte até então, e Francesco Farioli decidiu mesmo realizar a quarta substituição ao lançar Borja Sainz no lugar de Oskar Pietuszewski. Do outro lado, José Mourinho mexeu pela primeira vez para colocar Lukebakio e Ivanovic.
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A 20 minutos do fim, porém, houve um pontapé no marasmo. Acabado de entrar, Lukebakio puxou da direita para dentro e rematou em jeito e ao poste, com Schjelderup a aproveitar a recarga para bater Diogo Costa e reduzir a desvantagem (69′). António Silva e Leandro Barreiro entraram logo a seguir, até porque Otamendi estava muito limitado fisicamente, e o jogo partiu: os encarnados não conseguiram manter um forcing ofensivo constante, os dragões lançavam o caos sempre que aceleravam em contra-ataque e tudo parecia indefinido. Até porque não estava.
Já nos últimos minutos, Ivanovic acelerou na direita e cruzou para a grande área, onde Leandro Barreiro apareceu sozinho a desviar de primeira para empatar (88′). José Mourinho foi expulso na sequência dos festejos, os mais de seis minutos de tempo extra passaram e já nada mudou: Benfica e FC Porto empataram na Luz, os encarnados continuam sem perder no Campeonato e as distâncias na classificação ficam exatamente na mesma. José Mourinho quis manter o copo meio cheio, Francesco Farioli não consegue contrariar a ideia de que há uma maldição que o persegue — no fim, sem ganhar, o homem que anda cá há mais tempo mostrou que não perde o norte até quando sai quase derrotado ao intervalo.
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