Vai por aí uma grande turbulência porque, ao fim de quase oito anos de um quase silêncio, Pedro Passos Coelho apareceu em alguns eventos públicos e deu uma entrevista – vale a pena notar: a primeira e até agora única entrevista em oito anos. Como acontece a quem faz uso judicioso da palavra, e a quem sabe que, falando, é escutado, meia dúzia (nem chegou a isso) de intervenções públicas do antigo primeiro-ministro criaram um imenso burburinho. Quer derrubar Luís Montenegro? Quer voltar a ser primeiro-ministro? Vai continuar assim, a falar quase todas as semanas? Como se imagina, e se constata, estes temas ocuparam horas e horas de programas de comentário, com toda a especulação possível e imaginária, e atormentaram um Conselho Nacional do PSD onde, sem o nomear, o primeiro-ministro o desafiou a desafiá-lo.
Vou ser sincero: aquilo de que se ocuparam os comentadores e aquilo que fez os títulos do conclave social-democrata é pouco mais do que espuma dos dias. É o tempo que vivemos, feito de muitos jogos florais e pouca substância, mas não é mais do que isso mesmo – jogos florais e curto prazo. Posso estar enganado e não possuo qualquer procuração de Pedro Passos Coelho, mas se bem interpreto o sentido das suas declarações públicas é que elas não têm qualquer calendário de curto prazo, antes um outro entendimento do que é política.
Mas antes de ir aí, deixem-me só sublinhar um ponto: em Portugal adora-se discutir aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “politics”, uma espécie de primeira divisão (estou a ser generoso) do que designamos por “trica política”; em contrapartida é muito difícil encontrar quem em Portugal goste de falar de “policies”, isto é, de políticas públicas, do que em concreto pode ou não mudar a forma como vivemos.
Feito este parênteses, e regressando a Passos Coelho, acho que para percebermos melhor aquilo que o anima temos de ler a entrevista que deu ao ECO. A começar pela sua primeira resposta, sobre o que o motiva: “Ter uma sociedade mais desenvolvida, poder contribuir para um nível de bem-estar maior. No fundo, é aquilo que, para mim, significa a política”.
Sabemos que a política também é poder, e que sem poder de pouco servem boas intenções, belas palavras ou ainda melhores corações. Por isso, será que Passos também não ambiciona o poder? Seríamos ingénuos se o assumíssemos. Mas seríamos cínicos (e injustos) se acrescentássemos que desse poder só desejaria retirar projeção própria. Não é isso que nos mostram tanto o seu percurso pessoal, partidário e governativo, como as suas recentes intervenções.
Em contrapartida aquilo que me parece resultar bem claro do que tem dito, e dos timings escolhidos, é que Pedro Passos Coelho tem conseguido ter voz própria, incómoda e consequente porque associa o seu capital político – o tempo que já passou sobre os anos da troika tiveram a virtude de sublinhar a importância do seu trabalho como primeiro-ministro e de contrastar aquilo que fez com tudo o que outros não fizeram nem fazem – a duas coisas que me parecem centrais, por paradoxais que sejam. A primeira é que vive em Massamá, um subúrbio de Lisboa. A segunda é que parece ter percebido que na política, para fazer mudanças, é preciso lutar pelo coração e pela razão (“hearts and minds”) dos eleitores.
O tema de Massamá não é, a meu ver, um detalhe (como não foi um detalhe essa sua morada ter gerado gozo entre a nossa insuportável esquerda caviar). Viver num meio que não o do poder lisboeta (de alguma forma, sucede/sucedeu o mesmo com António José Seguro), estar confortável com isso (é grande o contraste com a vivenda espinhense de Montenegro), o seu dia a dia, da ida ao café ao vaivém pelo IC19 num carro discreto, modesto e anónimo, permite-lhe ter uma proximidade com as pessoas comuns que não se tem quando só se circula por entre as elites.
Posso estar enganado, mas se ao dar aulas (a sua ocupação profissional), Passos Coelho também tiver a capacidade de escutar os seus alunos, então isso significará que tem antenas capazes de captar as sensibilidades de dois corpos sociais muito afastados do círculo dos bem-pensantes: o povo dos subúrbios e a juventude desencantada (a juventude que percebeu até que ponto “este país não é para jovens”, como notei em tempos num livro que escrevi com Helena Matos). Com uma vantagem adicional: como disse ao ECO, Passos não vê televisão, o que significa que não ouve, nem liga, nem se preocupa, com o comentariato nacional. Só isso em si é um bálsamo.
Creio que alguns dos temas abordados na citada entrevista – a reforma laboral, os problemas da segurança social, a paralisia da administração pública, a privatização da TAP, a transformação do Estado e a redifinação das suas funções e missões, por fim a hegemonia desaproveitada dos partidos à direita – reforçam o ponto defendido pelo próprio Passos num almoço com os líderes do PSD no aniversário do partido: “era importante que o PSD se dirigisse aos eleitores naquela eleição pedindo-lhes um mandato para fazer reformas” porque “as reformas que duram são aquelas que as pessoas desejam”.
Ora este tema é central – não se muda o país, e o Estado, apenas por via de uma maioria política circunstancial e de um “pacote” de medidas tomadas numa emergência. Muda-se um país se a essa maioria circunstancial corresponder uma maioria social que exige mudanças, sobretudo quando aquilo que domina excessivamente o nosso espaço público é a ladainha da “defesa de direitos”, o discurso dos “retrocessos sociais” e a lógica de entrincheiramento do adquirido.
O PSD não foi capaz de fazer esse discurso anos e anos a fio, e o resultado é que, no seu espaço político, surgiram forças que começaram a dizer o que a ortodoxia dominante considerava intolerável. O Chega começou a falar da imigração e da insegurança. A Iniciativa Liberal dos impostos e do peso do Estado.
Se fizermos rewind verificamos que quem falou disso primeiro no PSD, mesmo que de forma pontual, foi Pedro Passos Coelho.
E se nos recordarmos de como o “consenso nacional” sobre esses temas foi mudando, se nos lembrarmos de como inicialmente eram temas tabus que as elites bem-pensantes nem admitiam debater, de como nos órgãos de informação era virtualmente proibido dar foz à dissonância nestas matérias, aquilo que também constatamos é que talvez ter tido antenas sensíveis às preocupações dos menos ricos e dos mais jovens (em Massamá e na universidade) é capaz de ter ajudado Passos Coelho a falar dos temas tabu antes de o seu partido sequer se atrever a abordá-los.
Voltando ao princípio: se Passos está ser sincero quando diz que aquilo que o atrai na política é contribuir para termos uma sociedade mais desenvolvida, então as suas intervenções públicas fazem o maior dos sentidos, mesmo que não vá desafiar Montenegro (não será candidato à liderança) ou não tenha querido lutar pela Presidência da República. E fazem o maior dos sentidos quer por colocarem na agenda temas que preocupam os cidadãos (preocupa os cidadãos, por exemplo, que existindo a maioria que existe à direita do PS o PSD parece mais intimidado pelo Chega que determinado em fazer funcionar essa nova maioria), quer por irem ao que sempre considerei ser essencial: para fazer reformas é necessário construir maiorias reformistas, ganhar os tais “hearts and minds” de que tanto falam os anglo-saxónicos (e por isso me preocupa que, por exemplo, se esteja a perder, junto da opinião pública, a batalha pela necessidade de rever as lei laborais).
Reagan passou muitos anos a travar esta batalha antes de ser eleito presidente, programa de rádio a programa de rádio (fez mais de mil, lendo textos que o próprio escrevia), palestra em fábrica a palestra em fábrica. Sem esse trabalho de sapa não teria havido uma “Reagan revolution”. Portugal é outro mundo, mas a política tem regras universais, e Pedro Passos Coelho, o político que não se atrapalha por morar em Massamá, parece tê-lo compreendido.