Quase 40 anos depois, o Irão vai ter de escolher um novo líder Supremo do Irão, após a morte de Ali Khamenei durante os ataques de Israel e dos EUA em solo iraniano. Nove dias depois do início da guerra que não dá sinais de acalmar, a decisão está mais perto do que nunca.
Na última semana, o país foi liderado por um conselho de transição que integrava Masoud Pezeshkian, o Presidente do Irão, Gholamhossein Mohseni Ejei, procurador, e Alireza Arafi, líder dos Basij, Força de Resistência. No entanto, a decisão de escolher um novo líder, que não passa diretamente pelo povo, não foi exclusiva deste pequeno grupo. Quem decide o sucessor de Khamenei e, antes dele, de Khomeini, o aiatola que formulou as regras político-religiosas que ainda hoje decidem o destino do país?
Este domingo, as questões que se têm somado sobre o próximo líder do Irão ficaram mais perto de serem respondidas. O aiatola Mohammadmehdi Mirbaqeri revelou, citado pela Sky News, que um consenso foi “mais ou menos” alcançado, estando preso por “alguns obstáculos” processuais que deveriam ser resolvidos entretanto. Este aiatola tem informação privilegiada por ser um dos 88 elementos responsáveis, precisamente, por escolher o novo líder supremo. Mais tarde foi noticiado que o nome estava escolhido, mas não foi ainda revelado.
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Estes 88 homens compõem a Assembleia de Peritos, um dos órgãos da hierarquia política iraniana que conta ainda com um Presidente, o Parlamento, o Conselho dos Guardiões e no topo, claro, o Líder Supremo. Esta assembleia é composta por juristas (e também clérigos) mandatados pela constituição para supervisionar o Líder Supremo — no entanto, as reuniões são secretas, pelo que não é claro se nos últimos anos têm dissecado de forma significativa o poder de Khomeini ou de Khamenei.
Desde que foi estabelecida a República Islâmica, em 1979, esta é apenas a segunda vez em que esta assembleia se reúne com este objetivo. De acordo com a constituição, o novo líder deve ser um homem, clérigo, com experiência religiosa, competência política, autoridade moral e lealdade ao Islão — há, segundo recorda a organização de relações internacionais CFR, alguns requisitos informais.
Esta assembleia é eleita pelo povo, mas analisada parcialmente pelo Conselho de Guardiões — órgão que avalia candidatos para a Assembleia dos Peritos, para a presidência e para o Parlamento, o que lhe dá grande poder na política iraniana. Em 2016, por exemplo, o conselho aprovou apenas metade dos candidatos ao Parlamento e um quinto dos candidatos à Assembleia dos Peritos. Este órgão tem a responsabilidade de avaliar as leis aprovadas no Parlamento à luz da constituição e dos ideais religiosos. Metade dos 12 membros do conselho são clérigos escolhidos pelo Líder Supremo e a outra metade são juristas escolhidos pelo Parlamento.
O parlamento, de 290 lugares, tem membros eleitos para mandatos de quatro anos por correspondência geográfica dos eleitores. Nos últimos anos, o número de clérigos no Parlamento, tem diminuído; em sentido contrário, tem aumentado o número de parlamentares relacionados com a Guarda Revolucionária.
Antes da votação, há contactos pessoais dos ‘peritos’ com vários candidatos
Segundo o artigo 170 da constituição iraniana, citada pela agência turca Anadolu Ajenci, a “escolha do líder assenta nos peritos escolhidos pelo povo”. Antes da votação, os potenciais candidatos são vetados ou aprovados pelo Conselho dos Guardiões. Só os candidatos que passem esse processo são elegíveis.
É normal que, antes das votações, haja contactos pessoais dos ‘peritos’ com os vários candidatos para conhecer melhor as opiniões políticas e religiosas. Apesar de serem sessões privadas, com poucos detalhes a escaparem para público, há imagens da eleição, em 1989, de Khamenei que mostram o aiatola visivelmente emocionado quando foi escolhido. O líder morto na semana passada num ataque dos EUA e de Israel venceu a eleição com 60 dos 74 votos.
De acordo com a agência turca, a sucessão não é improvisada e decidida em contrarrelógio. Ao longo dos anos, os ‘peritos’ vão-se preparando e há comissões, dentro da assembleia, que mantêm listas de candidatos mais fortes.