Os Bandidos do Cante venceram a 60.ª edição do Festival da Canção com Rosa. O quinteto de Beja foi o mais votado pelo público e vai representar Portugal na Eurovisão, que se realiza entre 12 e 16 de maio em Viena, a capital austríaca. Foram dos poucos artistas que que não subscreveram o boicote ao festival europeu contra a participação de Israel, “que está, segundo a ONU, a cometer atos de genocídio contra os palestinianos em Gaza”, escreviam num comunicado conjunto em dezembro último.
Sobre isso, disseram apenas, numa breve conferência de imprensa após o fim do Festival da Canção: “De todos os artistas que estiveram aqui… Alguns remeteram-se ao silêncio, nós não nos quisemos remeter ao silêncio. A nossa música fala de paz, de harmonia, de união e é isso que temos de passar a toda a gente. Acho que a nossa música tem muita força, é o cante que vem da terra, que vem dos nossos avós e nós podemos passar para todo o mundo um espírito de união e de partilha. O nosso grande objetivo é representarmos a nossa região e Portugal como deve ser, de uma forma positiva, de uma forma alegre.”
Sublinharam o “orgulho enorme” por levarem o Alentejo e Portugal até à Eurovisão, algo que também se verificou em 2025 na versão júnior da Eurovisão, quando a intérprete Inês Gonçalves cantou uma balada, Para Onde Vai o Amor?, com influências do cante alentejano. O tema foi co-escrito por Buba Espinho, João Direitinho (dos Átoa, manager dos alentejanos Vizinhos) e Miguel Cristovinho (dos D.A.M.A., uns dos principais responsáveis pelo recente crossover desta música tradicional com o universo pop).
https://observador.pt/especiais/alentejo-pop-como-uma-geracao-abriu-as-portas-da-industria-ao-cante-alentejano/
“Crescemos num sítio onde o cante era menosprezado e hoje em dia está na berra, está na moda. Estamos muito orgulhosos e queremos muito agradecer às pessoas que votaram em nós. Antes de nós vieram o Janita Salomé, o Buba Espinho, o Luís Trigacheiro, o António Zambujo, o Vitorino… Nós estamos só a dar seguimento a esse caminho. E o que os NAPA fizeram no ano passado foi extraordinário, trouxeram algo deles, da terra deles, e nós tentámos fazer o mesmo com a nossa terra, as nossas raízes e origens. Tentar passar uma melodia harmoniosa que passe a verdade do que vivemos.”
Sobre aquilo que já pensaram para a performance em Viena, um palco maior onde os artistas são encorajados a fazer uma atuação mais ambiciosa — mesmo que na cenografia — frisam que haverá um esforço nesse sentido. “Aquilo que pudermos fazer para melhorar a nossa prestação em Viena, vamos fazê-lo certamente. Teremos essa oportunidade, de dar mais de nós e do nosso Alentejo. Essa é a nossa vontade.”
Os Bandidos do Cante disseram ainda que, nas suas redes sociais, têm recebido reações positivas dos fãs internacionais da Eurovisão, os que não entendem a língua portuguesa mas que têm mostrado apreço pela canção.
“A música é universal, nós acreditamos muito na nossa canção. Temos tido reações muito boas e isso dá-nos muita força para levarmos a nossa canção para fora do país. Estamos a fazer o máximo para trazer a nossa região, que todos aqueles que não conheciam o Alentejo que o conheçam um bocadinho através das nossas gargantas. É com este pensamento, com esta leveza, com esta tranquilidade, que vamos lá chegar. A primeira vitória foi estarmos no Festival da Canção. A segunda foi passarmos à final. A terceira foi ganharmos. Tudo o que vier a seguir será uma grande vitória para nós.”
A festa no estúdio, as atuações pré-gravadas e o apoio das famílias e amigos
O Observador chega aos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, concelho de Oeiras, por volta das 19h30. As centenas de pessoas envolvidas na produção do Festival da Canção estão a jantar no refeitório. Há uma certa azáfama tranquila nos corredores, portas a bater e muitas pessoas a passar de um lado para o outro, entre os camarins e as restantes zonas técnicas. Cá fora, vários profissionais aproveitam para fumar o último cigarro antes de arrancar a transmissão em direto.

Na lateral do edifício, o público aguarda sereno durante mais de meia hora para entrar no estúdio. São quase todos familiares, amigos ou conhecidos dos artistas concorrentes. “Sou o único com um cartaz?”, pergunta um jovem de sotaque alentejano para o grupo de amigos. Lá dentro, haveríamos de reparar noutros. Corre uma brisa gélida. Na rua, trocam-se comentários futebolísticos e discute-se a recente crónica de Henrique Raposo no jornal Expresso sobre a tendência da música pop alentejana, que incidiu em particular sobre os Vizinhos.
Chegados à porta, cada pessoa tem de dar o seu nome, descer uns degraus e passar pela porta que dá acesso ao estúdio. Passa das 20 horas e ultimam-se os preparativos. Um técnico da RTP aspira o chão, junto das cadeiras na plateia, os operadores vão mexendo nas suas câmaras e afixando a papelada com indicações para a emissão.
No sopé da principal bancada, na retaguarda da sala, outros instalam as mesas da chamada green room — o local onde os artistas se irão sentar e acompanhar a noite após as respetivas atuações. Cabem 17 pessoas de cada lado, bem apertadas, separadas a meio por um conjunto de câmaras. Põe-se o gelo nas taças, servem-se copos de amêndoa amarga e de vinho do Porto. Na bancada, nas entradas e saídas, nos corredores, são muitas as conversas cruzadas de expetativa para esta final do Festival da Canção.
Os minutos vão passando e a agitação é proporcional. Testam-se as luzes por uma última vez, o público é distribuído harmoniosamente pelas bancadas — para que não haja espaços vazios nos planos das câmaras — e dá-se o tudo por tudo antes de a RTP dizer ação. A mãe de um dos músicos dos Nunca Mates o Mandarim insiste uma e outra vez para trocar de lugar com outras pessoas na audiência para ficar nas filas atrás da banda, aparecendo assim nas filmagens quando o grupo portuense estiver em destaque. Vemos passar um Batman e um Flash Gordon — apoiantes do concorrente Gonçalo Gomes, intérprete de Doce Ilusão, que procurou sempre celebrar a aleatoriedade e a cultura de memes durante a sua participação no festival.
Nos últimos minutos antes de a transmissão começar, os apresentadores Filomena Cautela e Vasco Palmeirim preparam o público para alguns dos momentos da emissão. Incentivam os espectadores presentes a cantar e a fazer as coreografias certas, a contribuir para elevar o entusiasmo em cada momento. O ambiente é descontraído e com humor. Filomena Cautela e Vasco Palmeirim apresentam-se iguais a eles próprios, mesmo atrás das câmaras. “Quando o Eusébio, este senhor [profissional da RTP] que é o melhor do mundo, vos disser, vocês levantam-se, batem palmas e podem cantar connosco a Tourada [de Fernando Tordo]”, diz a apresentadora sobre o número de abertura. “Isto só funciona bem se todos cantarem connosco!”
De seguida, vira-se para os apoiantes de Dinis Mota. “Quando o apresentar, vou dizer que ele tem tido a melhor claque do festival! Façam-se ouvir”, incentiva a família e amigos do autor de Jurei, jovem artista natural de Aveiro.
O mesmo aviso acontece em relação à música de apelo ao voto, uma versão de Não Sejas Mau P’ra Mim, emblemática canção de Dora, também parte da história do festival. “Batman, tu não precisas de fazer os cornos”, brinca Vasco Palmeirim ao ensinar a coreografia. São as últimas indicações antes de a transmissão começar.
Todos estão nos seus lugares. Assistir em direto a uma emissão televisiva nos bastidores é como observar um ecossistema do mundo animal. São vários os indivíduos em movimento, cada um a cumprir a sua tarefa, num impressionante caos organizado que inclui assistentes a segurar os cabos dos operadores de câmara, ângulos mortos com pequenas áreas que não serão filmadas, operadores de câmara em carris ou gruas, toda uma coordenação para que ninguém seja apanhado na câmara de ninguém, um rodopio permanente que é o que mantém a engrenagem a funcionar de forma eficaz. Uma produtora vai dando todos os sinais ao público: quando é o momento de bater palmas, quando devem fazer silêncio, quando podem (e devem) ser mais efusivos.

Em geral, o Festival da Canção é um programa sem grandes pausas onde a emissão televisiva não esconde grandes truques de bastidores. Nos segundos de interrupção entre performances, há uma equipa de limpeza (impreterivelmente vestida de preto) que percorre rapidamente o palco para eliminar os vestígios da atuação anterior e para colocar, nalguns casos, uma série de adereços cenográficos. Assim que um novo músico chega ao palco, um técnico indica-lhe a posição exata em que deve estar para que todos os planos o apanhem — e há um operador de câmara em concreto, aquele que vai ao palco e capta imagens a curta distância, que faz autênticos sprints em estúdio para subitamente estar noutro sítio ou não ser apanhado pelas lentes dos colegas. No final da noite, são uns bons metros em corrida rápida.
Sempre que um concorrente conclui a sua performance, é dirigido à mesa onde irá acompanhar o resto da emissão. É um local mais descontraído, os artistas vão-se cumprimentando sempre que chega alguém vindo do palco. Quando Sandrino faz a sua interpretação de Disposto a Tudo, são vários os profissionais da RTP que balançam o corpo em resposta ao samba de sotaque algarvio. Nas bancadas, os aplausos são constantes, mas há concorrentes que levam dezenas de pessoas a levantarem-se e mostrarem o seu apreço através de palmas.
A partir do momento em que os Nunca Mates o Mandarim chegam à green room, fazem jus à fama de maiores boémios desta edição. Trouxeram garrafas e mais garrafas de vinho do Porto com eles e começam a servir e a distribuir copos pelos outros concorrentes; eventualmente, vários copos começam a subir pela bancada acima, tal não é a generosidade. O mesmo aconteceria com os ovos moles da comitiva de Dinis Mota. Um dos seus músicos começou mesmo a atirar ovos moles à distância para todas as pessoas do público que faziam sinal indicando que desejavam um.
A atuação especial que juntou os Throes + The Shine, Samuel Úria, Selma Uamusse e Catarina Salinas — para celebrar o melhor da música pop de 1986, portuguesa e internacional — foi gravada previamente, ao contrário do que aparenta na televisão. É o único momento em que realidade e emissão divergem significativamente (além da performance dos NAPA, que acontece nos mesmos moldes). Ainda assim, a festa de reação ao momento musical que é captada pelas câmaras é bem real. Brindes entre os artistas concorrentes e as suas equipas, copos a multiplicarem-se exponencialmente, pequenas rodas de dança e até um comboio. Filomena Cautela descreveu mesmo o momento como um “dos maiores festões da história do Festival da Canção”. Nuno Galopim, uma das principais figuras da organização do evento, regozija com o momento e é um dos que se juntam aos brindes.
A emissão é então encaminhada para um curto intervalo. São os únicos minutos, durante todo o programa, em que o estúdio fica descomposto. Há dezenas de pessoas que deixam as bancadas para irem abraçar os concorrentes, dizendo-lhes palavras de carinho e força, partilhando um abraço apertado ou um beijo sentido. Outros aproveitam para ir lá fora petiscar algo ou fumar um cigarro, que entretanto já se passaram várias horas e ainda falta algum tempo para se conhecerem os resultados das votações do júri e do público.
Quando a emissão é retomada, o ambiente fica mais tenso e as pequenas conversas cruzadas na bancada praticamente desaparecem. Vasco Palmeirim e Filomena Cautela — que nesta edição contaram com os contributos de outra dupla de apresentadores, Catarina Maia e Alexandre Mesquita Guimarães — já conversam com os porta-vozes dos júris regionais que vão distribuir os seus pontos. A partir daí, tudo é bem visível na emissão televisiva. Os concorrentes ficam subitamente concentrados, aguardando com expetativa os resultados. Na bancada roem-se algumas unhas, mas sempre que são transmitidas as promoções das canções, com os respetivos números telefónicos de voto, há ondas de entusiasmo em que as diferentes claques se fazem ouvir.

Quando os Bandidos do Cante são anunciados como os grandes vencedores da edição de 2026 do Festival da Canção, há uma enorme euforia na sala, com vários dos seus apoiantes a abraçarem-nos pela bancada, tal como quando uma equipa de futebol celebra um golo com os adeptos. Tiram-se selfies, há gritos de felicidade em equipa, e eis que os cantores de Beja estão novamente em palco para uma última interpretação da sua Rosa.
Cantada de forma emocionada, na plateia há pessoas mais velhas de mão dada, a balançar os braços, à moda tradicional. Nos outros artistas e nas respetivas comitivas há alguns olhares de desapontamento, mas o ambiente de comunhão e boa-disposição mantém-se. Assim que as câmaras finalmente param de rolar, há uma pequena explosão de emoção: famílias que abraçam os filhos ou netos, amigos que querem desejar os parabéns ou uma palavra de consolo, mais brindes para se fazer agora num contexto descontraído, já sem tantos nervos.
Pouco depois de os Bandidos do Cante cumprirem o seu dever como vencedores, falando com a imprensa e tirando as fotos oficiais para a RTP, um responsável em nome da produção declara bem alto ao microfone: “vocês foram um público extraordinário, mas peço que agora abandonem a sala e vemo-nos para o ano, aqui ou noutro sítio. Ainda temos muito trabalho pela frente e estamos há dias sem dormir.” The show must go on — e as desmontagens começam no segundo a seguir. “Amanhã entro às sete”, desabafa um dos operadores de câmara por quem passamos a caminho da saída.