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Galãs, rockers, divas e bandidos: a final do Festival 2026, canção a canção

É como se fosse um feriado nunca decretado: Susana Verde senta-se em frente à televisão, toma notas e deixa-nos o relato da noite, passando pelos versos, os vestidos e aquelas rimas mais malandras.

Susana Verde
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Ora então, mais uma voltinha, mais uma viagem. Festivaleira confessa que sou, como podem comprovar em resenhas sobre edições anteriores, este ano resolvi saltar as semi-finais, de maneiras que vou ouvir tudo pela primeira vez em direto. Sou assim, uma aventureira. Copo de tinto de um lado, portátil do outro e aí vamos nós conhecer que o que o júri e o público achou por bem selecionar para esta final. Com menos convidados do que em anos anteriores e mais candidatos por livre submissão, vejamos o que esta sexagésima edição tem para oferecer. Como dizia o outro, “Here we are now. Entertain us”, que bem estamos a precisar.

A cerimónia começa com um piscar de olho dos apresentadores, os vitalícios Filomena Cautela e Vasco Palmeirim, à polémica sobre o não-boicote da RTP, referindo um elefante da sala, que afinal era o facto de ser o sexagésimo nono aniversário da RTP e corta para uma paródia musical. O chamado baralha e volta a dar. Adiante. Sigamos, sem mais demoras, para as cantigas.

“Rosa”

Intérprete: Bandidos do Cante
Música: Duarte Farias, Miguel Costa, Luís Aleixo, Francisco Pestana e Francisco Raposo
Letra: Duarte Farias, Miguel Costa, Luís Aleixo, Francisco Pestana, Francisco Raposo, Kasha, Gui Alface, Gonçalo Narciso e Bluay

https://www.youtube.com/watch?v=8emG9PghYXg&list=PLMedIwg0kZw8pnzH_3CnYyDBhHz_Qb74d&index=15&pp=iAQB8AUB

Para já, isto não é uma canção, isto é um trabalho de grupo. Vocês contaram os nomes aqui na linha de cima? E sim, está lá o bandanas dos D.A.M.A. Enfim… O certame começou com os Bandidos do Cante e vamos já concordar que eles têm o ar menos bandido da história da humanidade, acho meio publicidade enganosa. Aliás, apresentaram-se com look de entourage de noivo à americana. Nem é uma crítica, é só uma constatação. Mais conhecidos como “Não são aqueles da Lisboa que é grande, mas o Alentejo é maior, são os outros”, os Bandidos do Cante trouxeram “Rosa”, uma modinha simpática e bem cantada, a verdade é essa. Se me entusiasmaram? Nem por isso, mas também há-de ser para o lado que eles dormem melhor e fazem eles lindamente. E até acho que têm boas hipóteses de ganhar isto [recordo que isto foi escrito ao vivo e em direto]. Ah! E têm uma violinista que me fez lembrar a Luciana Abreu.

“Canção do Querer”

Intérprete: João Ribeiro
Música: Luís Figueiredo e André Henriques
Letra: Cristina Branco

https://www.youtube.com/watch?v=p4P5nmSBhfo&list=PLMedIwg0kZw8pnzH_3CnYyDBhHz_Qb74d&index=14&pp=iAQB8AUB

João Ribeiro diz que é vocalista apenas em part-time, uma vez que a bateria é o seu lugar natural. Soa a desculpa em adiantado, a atirar a expectativa lá para baixo. João canta a Canção do Querer, lavrada pela pena da maravilhosa Cristina Branco, e trouxe-me um cheirinho a Festival dos idos anos 70, género Carlos Mendes, a que não é alheia a opção de gola alta com blazer. Descobri que o João é do jazz e tem pergaminhos na área, género musical em que sou profundamente ignorante, portanto, não tenho muito mais a dizer. Queriam sabedoria e erudição (e graça), chamavam o Martim Sousa Tavares. Gostei da canção, mas fiquei sempre à espera de um tchanã a determinada altura (o nível do vocabulário musical desta menina). Não que aprecie a gritaria porque sim, mas faltou-me ali qualquer coisa que me arrebatasse. Mas, reforço, é uma bonita cantiga.

“Dá-me A Tua Mão”

Intérprete: André Amaro
Música e Letra: André Amaro

https://www.youtube.com/watch?v=t2FrUSwHawI&list=PLMedIwg0kZw8pnzH_3CnYyDBhHz_Qb74d&index=13&pp=iAQB8AUB

“Se mostras uma arma, tens que a usar.” Este é um princípio fundamental da escrita, tanto na literatura como no cinema, a que se chama a arma de Tchekhov. Isto quer dizer que os elementos que plantas na história (seja um objeto, uma deixa ou uma característica da personagem) devem ter um propósito, senão o público vai-se sentir enganado. Que foi como eu me senti a ver a performance deste querido com uma jaqueta à bailarino de flamenco. Então, planta-me meia dúzia de bombos no palco e não há ninguém que entre por ali adentro e começa a bombar nos ditos, forte e feio? Mais que não seja sempre abafava um bocadinho o timbre do artista que, para ser sincera, não me agradou nadinha. Mas isto sou eu. Que ele até foi o concorrente escolhido pelo público na primeira semi-final, com esta música chata e comprida. São gostos. Eu também gosto do cheiro a gasolina, quem sou eu para julgar?

“Doce Ilusão”

Intérprete: Gonçalo Gomes
Música: Gonçalo Gomes, João Umbelino, Pedro Fernandes e Bernardo Almeida
Letra: Gonçalo Gomes e Pedro Fernandes

https://www.youtube.com/watch?v=7Ic307kW8xg

Ora este querido foi a escolha do público da segunda semi-final e aqui estou de acordo com o voto popular. Não que esteja siderada (está difícil de acontecer este ano), mas gostei desta Doce Ilusão apesar de me soar a título de novela da TVI. O Gonçalo passou pelo The Voice e virou a cadeira do António Zambujo, o que é sempre um selo de qualidade. Apresentou-se em palco com o seu frondoso cabelo coberto de pó de talco e um look de látex branco meio anos 80, mas acho que até rockou o figurino. Foi o primeiro a subir a palco com um corpo de baile composto por quatro guapas, todas elas em látex também, predominantemente preto, envergando uma espécie de chapéus andaluzes e uns óculos que dá a ideia que não deviam ver peva. Não se terem baldado palco abaixo já foi um milagre, quando a mim. A coreografia estava longe de ser extraordinariamente complicada, um pouco sarau de liceu, mas fez um bonito efeito. O Gonçalo tem uma voz bonita e afinada, espantem-se, e entregou com emoção. Mas duvido que chegue para ganhar.

“Chuva”

Intérprete: Marquise
Música: Mafalda Matos, Matias Ferreira, Miguel Azevedo e Miguel Pereira Letra: Mafalda Matos

https://www.youtube.com/watch?v=s7TG5pclZCM

‘Tá de chuva, ‘tá. Lê-se na bio desta banda portuense com nome de crime urbanístico que “Há artistas que carregam o cetro da intemporalidade, que não deixam apagar a chama olímpica, que resistem à sedução do contemporâneo (esse falso amigo com que todas as obras datadas um dia se envolveram).” A taxa de bazófia está upa, upa, lá para cima ou não? Para dizer a verdade, a performance dos Marquise e esta Chuva fez-me lembrar as bandas de garagem dos anos 90, mas sem os consumos recreativos das garagens da altura, não consegui ultrapassar a desafinação da vocalista. Também na bio (que eu acredito que tenha sido escrita pelo agente deles e não pelos próprios, que sou a favor da auto-estima, mas porra), dizem que os Marquise “não precisaram de reinventar a roda para honrar a arte de fazer boas canções”. Concordo que não é preciso, mas apesar do instrumental de Chuva ser competente, mas não chegou para fazer uma boa canção.

Chegados a meio, Catarina Maia da Mega Hits e Alexandre Guerreiro cumprem o habitual enchimento de chouriço na Green Room, o que vai acontecer ao longo da cerimónia sempre for necessário engonhar e os radialistas até o fizeram sem grandes incidentes, apesar do nível de sobriedade entre os artistas se ir degradando ao longo da noite. Guerreiros.

“Sprint”

Intérprete: EVAYA
Música: Beatriz Bronze, Guilherme Firmino e João Valente
Letra: Beatriz Bronze e Guilherme Firmino

https://www.youtube.com/watch?v=SEiybjylcnk

A Filomena Cautela intitulou-a de “Björk do Poceirão” e eu nem sei por onde começar. Talvez por pedir desculpas, que se a Björk mete os olhos e os ouvidos nisto, a Mena vai bater com os costados no banco dos réus. Vou recorrer à bio outra vez, a ver se facilita.“A sua estética desafia as convenções da canção pop, criando um território híbrido onde a natureza se dissolve no digital, entre paisagens sonoras imersivas, pulsos rítmicos envolventes e uma escrita lírica em constante mutação.” Afinal, não ajudou, fiquei na mesma. Olha, EVAYA… É assim mesmo que se escreve, em maiúsculas, não estou a gritar convosco, nem carreguei no Caps Lock sem querer. Mas EVAYA, não leves a mal. Este híbrido, ou o que lhe queiras chamar, não é para mim. Só não digo que é por causa do generation gap, porque acredito firmemente que a arte não é geracional. Pumba, mandei esta filosofada assim de repente, aposto que não estavam à espera. Mas é isso, EVAYA, não és tu, sou eu. Que por algum motivo não gostei da melodia, da voz, da interpretação e achei que se este Sprint fosse mais rápido não se perdia nada. Mas gostei do penteado com vibes de Sailor Moon.

“Disposto a Tudo”

Intérprete: Sandrino
Música e Letra: Sandrino e Francesco Meoli

https://www.youtube.com/watch?v=IKM5y0jDBOY

Obrigada, Sandrino! Aleluia! Estava-me a ir muito abaixo com isto. “Eu viralizei / Fui validado por um monte de pessoas de que nada sei / Se metes gosto eu aposto que nalgum ponto te influenciei” A letra de Disposto a tudo está carregadinha de barras pesadas (olha eu, a tentar ter uma aura super jovem, tipo Salvador Martinha, mas sem descolorar o cabelo). Simpático, despretensioso, a puxar um sambinha no pé que não tenho. Mas se tivesse, sambava. Se o Sandrino exibiu um grande vozeirão? Não, mas serviu bem a música e bem dispôs-me e eu estava precisada. “Ah e tal, não é música para a Eurovisão” Estamos em 2026, atualizem o vosso sistema operativo de crenças festivaleiras, isso já não existe e não é de agora. Além disso, nenhuma música devia sair deste festival para a Eurovisão este ano, mas acho que nem vale a pena ir por aí, porque é constatar o óbvio. Do que ouvi até agora é o tema que com mais probabilidade voltarei a ouvir, por iniciativa própria. E isso, para mim, vale o voto.

“Fumo”

Intérprete: Nunca Mates o Mandarim
Música: João Amorim, João Campello e Manuel Dinis
Letra: João Amorim

https://www.youtube.com/watch?v=w2Gt54mshJk

Olhei para os “Nunca Mates o Mandarim” (já agora, ótimo nome) e pensei “Olha, os Napa deste ano!”. Sim, sou uma pessoa preconceituosa e tacanha que julga o livro pela capa. Depois ouvi este Fumo e pensei “São mesmo os Napa deste ano!” Eis senão quando vou procurar como é que eles tinham sido selecionados e, vai-se a ver, foi por convite dos vencedores do ano passado. Isto é, os próprios dos Napa. Este relambório não tem nenhum tom de crítica, sou só eu a exibir a minha chico-espertice. Agora, se vou conseguir avaliá-los sem fazer comparações? Não vou, porque tenho uma mente fraca e influenciável. Se os Napa soavam de alguma forma a emocional e genuíno, o que era muito likable, Nunca Mates o Mandarim, em particular o vocalista, tem qualquer coisa de nonchalant e poser, que me dá um certo ranço, mas aposto que esta opinião não é consensual e terá muita saída com muito boa gente. “Fumo” não é um “Deslocado”, mas boa malha.

“Não Tem Fim”

Intérprete: Silvana Peres
Música e Letra: Rita Dias

https://www.youtube.com/watch?v=FtyJFkOZ5H0&pp=0gcJCa4KAYcqIYzv

Chamem-me infantil, mas eu quando vejo uma coisa não consigo desver, e o vestido da Silva Peres faz-me lembrar o Demogorgon do Stranger Things. E agora que tirámos isto do caminho, vamos à música. A Silvana fincou o pé no palco com força e alma, entregou cada palavra com intenção e a mensagem passou alto e bom som. Concordo em género, número e grau com o propósito. Adorava amar, mas não foi o caso. Ficou aquém, mas pelo menos disse-me qualquer coisa, que é muito do que posso dizer da maioria.

“Jurei”

Intérprete: Dinis Mota
Música e Letra: Dinis Mota

https://www.youtube.com/watch?v=HYolFqyAIrs

Jurei apresenta-se como um tema cheio de “portugalidade”, até porque as bailarinas tinham daqueles lenços tradicionais com franjinhas que as ciganas vendem em frente ao Pastéis de Belém e que a Joana Amaral Dias usou como isca para os nacionalistas, quando andou em campanha pelo ADN. Já o Dinis Mota deu-se melhor com o plebiscito e foi o autor escolhido pelo público através da “Prova de Acesso”, uma novidade deste ano. O Dinis tem uma voz bonitinha, mas atira-se para fora de pé de vez em quando. A canção propriamente dita parecia ter algum potencial ao início, mas foi progressivamente escorregando para o azeiteiro, assim como quem não quer a coisa. Mas uma coisa ninguém lhe tira: tanto ele, como os músicos que o acompanhavam, pareceram-me os mais contentes de ali estar. O pianista e o guitarrista até deram um pezinho de dança com as bailarinas, acreditam? No mínimo, refrescante, já que a maioria apresentou-se em placo com o entusiasmo de quem está no corredor da morte.

Está feito. Encheu-se mais uma linguiça ou outra na Green Room, até que fui salvo do bocejo que se estava formar com música e da boa. Throes+The Shine, Catarina Salinas, Selma Uamusse e Samuel Úria, o Elvis de Tondela (vão ver o concerto dele no Coliseu na RTP Play. De nada) serviram-nos uma retrospectiva musical inspirada no ano da graça de 86, temperadíssima de africanidade. Foi uma festa. Numa primeira parte, houve Prince, Run-D.M.C. e Beastie Boys. Na segunda, Trovante, Heróis do Mar, G.N.R. e Dora. Sacudiu-se o esqueleto a bom sacudir. Eu cá sacudi, que ainda falta mais de uma hora e estava necessitada desta chapada de ritmo. No intervalo, uma paródia musical de apelo ao voto, porque podes tirar o Palmeirim da Rádio Comercial, mas quem lhe tira uma versão galhofeira, tira-lhe tudo.

Antes da contagem de votos, os vencedores em título — os madeirenses mais amorosos da atualidade, os Napa — trouxeram-nos o Deslocado numa versão bem catita. Soube bem matar saudades, mas deprimiu-me um pouco, porque não temos nenhum tema a concurso que se aproxime a esta malha. Incluindo o vencedor. Sim, ganharam os Il Divo agrobetos, os gangstas da planície, os meliantes do chaparro. Vamos ter a Rosa dos Bandidos do Cante na Eurovisão. Não era a minha escolha, mas quem sou eu na fila do pão?

Sei que as linhas escritas hoje podem fazer parecer o contrário, mas gosto mesmo do Festival da Canção e, normalmente, divirto-me bem. E defendo convictamente que com o pouco espaço que a música tem na televisão nacional, é mesmo importante dar este palco a músicos emergentes e a géneros diversificados. “Se estas eram as melhores, imagina as outras” é a premissa repetida ad nauseam, com uma outra variação, ano após ano. É a coisa mais certa no Festival da Canção, a seguir ao Pedro Granger. Luto sempre contra esta visão apocalíptica e este julgamento bafiento de “que já não se fazem canções como antigamente”. Mas confesso que desta vez não me facilitaram a vida. Para o ano há mais e espero que melhor. Ainda assim, boa sorte aos vencedores.