O partido Rastriya Swatantra (RSP, na sigla em inglês), liderado pelo ex-rapper Balendra ‘Balen’ Shah, venceu as eleições no Nepal, garantindo uma maioria suficiente para formar Governo, impulsionado pela “Geração Z”, que derrubou a “velha guarda política”. Balen, aos 35 anos, será o mais novo primeiro-ministro do Nepal.
Balendra ‘Balen’ Shah, de 35 anos, tornou-se um rapper reconhecido em 2013 e uma década mais tarde, em 2022, tornou-se político, com a conquista, como independente, da câmara de Katmandu. Foi um dos apoiantes dos manifestantes no ano passado que protestaram contra o governo do primeiro-ministro Sharma Oli. Agora conquista o lugar, depois de uma campanha fora dos meios de comunicação tradicionais. Opta, antes, pelas redes sociais. Tem 3,5 milhões de seguidores no Facebook, 1 milhão no Instagram, 400 mil na rede X, e 1 milhão no Youtube, onde se podem ver os vídeos com as suas músicas.
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É o mais novo de quatro irmãos. Nasceu em 1990 em Katmandu. O seu pai, que morreu em dezembro, era praticamente de ayurveda, medicina alternativa. Balen licenciou-se em engenharia civil pelo Himalayan Whitehouse International College e pós-graduado em engenharia de estruturas. Segundo a Al Jazeera. Balen chegava, quando foi eleito presidente da câmara, por volta das 10 horas da manhã ao escritório, no seu tradicional fato preto e óculos de sol escuros, que retirava. Preferia almoçar em casa, tendo direito a um alojamento oficial por ser presidente da câmara. Chá e café são “vícios” que lhe são atribuídos e não dispensa a prática de desporto no ginásio.
Não ficou livre de polémicas. Com uma mensagem contra a corrupção não foi apreciada a sua paixão por carros, tendo sido notado quando foi visto a conduzir um Land Rover Defender avaliado em 40 milhões de rupias nepalesas (mais de 270 mil euros) em janeiro, em plena campanha eleitoral.
Mas, agora, de acordo com os votos contabilizados até a manhã deste domingo, segundo a comissão eleitoral do país, a nova formação política já garantiu 106 dos 165 assentos resultantes da eleição direta e lidera a contagem em outros 19 círculos eleitorais.
A estes resultados, acresce que o RSP (Partido Nacional Independendente, formado em 2022) detém mais de 50% dos votos no bloco de representação proporcional (110 lugares), o que lhe garante ultrapassar confortavelmente a barreira dos 138 lugares necessários para a maioria absoluta num Parlamento de 275 membros.
Com o governo já garantido, as projeções apontam que o partido de Balen Shah poderá alcançar 190 cadeiras assim que a contagem for concluída nos próximos dias, o que lhe dará uma maioria de dois terços, algo inédito no Nepal desde as eleições gerais de 1959.
Desde a abolição da monarquia em 2008, o Nepal tem estado mergulhado em instabilidade política, marcada por uma dança incessante de alianças entre os mesmos líderes tradicionais, que têm trocado o poder sem conseguir completar uma única legislatura.
A “Geração Z” e os eleitores urbanos utilizaram as plataformas digitais para contornar os meios de comunicação tradicionais e organizar uma mobilização em massa, transformando a mensagem anticorrupção do ex-rapper num fenómeno viral que, no ano passado, expulsou do poder os partidos clássicos, deixando a nação dos Himalaias sob um governo interino.
A ascensão do RSP deixa o Congresso Nepalês, a formação mais antiga do país, com apenas 15 representantes diretos, mas sobretudo destaca o revés do ex-primeiro-ministro e líder do Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado ou CPN-UML), K.P. Sharma Oli, que perdeu o seu lugar direto para o próprio Shah. A peneira nas urnas também expulsa do Parlamento o presidente do Congresso Nepalês, Gagan Thapa, e o único multimilionário do país que se tornou político, Binod Chaudhary.
Entre a “velha guarda”, apenas o ex-líder maoista e antigo primeiro-ministro Pushpa Kamal Dahal, também conhecido como “Prachanda”, parece manter o seu lugar, com seis representantes garantidos para a formação.
O ex-chefe da Comissão Eleitoral Bhoj Raj Pokharel declarou ao jornal local Kantipur que o resultado representa uma “erupção da frustração pública há muito reprimida” e atribuiu o colapso dos líderes a décadas de um “jogo de cadeiras” no poder.
“O Nepal está a passar por uma onda de mudanças para se afastar do controlo dos antigos partidos. A verdadeira questão é se os novos líderes serão capazes de compreender esta onda e sustentá-la”, avaliou, por sua vez, o especialista constitucional Bipin Adhikari, citado pela agência EFE.