(c) 2023 am|dev

(A) :: Ter filhos dá felicidade?

Ter filhos dá felicidade?

A felicidade advinda dos filhos não é uma mera “satisfação” ou “qualidade de vida”, é um contentamento permanente e profundo

António Pimenta de Brito
text

Já escrevi aqui que os números da natalidade tão baixos não se prendem com motivações financeiras das pessoas, mas de prioridades. As pessoas pura e simplesmente já não querem ter filhos. Os estudos e o caso que trouxe do humorista que dizia “ter filhos não me parece divertido” demonstram que as pessoas preferem mais qualidade de vida a descendência. De resto, até os países que tradicionalmente eram os campeões da natalidade, como a Índia, China e países árabes, seguem a mesma tendência. Chega então com o papão da “invasão islâmica”. Esqueçam. Até esses já reduziram os seus filhos. Há casos gritantes como o da Coreia do Sul que ameaça acabar com a sua população. Esta crise demográfica está a criar bastantes problemas à nossa sociedade e ultrapassa a questão da renovação das gerações. Vão das consequências sociais às económicas e políticas. Não é catastrofista pensar que avançamos para a extinção da espécie.

Mas, afinal, ter filhos dá ou não felicidade? Foi feito um estudo em trinta países europeus que procurou responder a esta questão. O estudo concluiu que ter filhos está associado a níveis menores de satisfação, mas a um maior sentido de vida. No estudo “uma relação entre parentalidade e sentido na vida é semelhante entre grupos socioeconómicos e contextos nacionais: em média, as pessoas que têm filhos sentem que as suas vidas têm mais significado e valor”.

Ter filhos dá muito trabalho, mas também dá muito sentido à vida. É do psicólogo humanista Viktor Frankl, o mestre do “sentido”, uma frase que me tem guiado na vida: “a vida não se trata de obter, mas edificar.” (Livro “Um homem em busca de sentido”).

A felicidade advinda dos filhos não é uma mera “satisfação” ou “qualidade de vida”, é um contentamento permanente e profundo. As minhas filhas gémeas muitas vezes tiram-me do sério com as coisas que fazem e o que exigem, mas há muitos outros momentos em que olho para elas e me sinto verdadeiramente cheio e completo. Outros momentos são semanas de uma sensação de ternura, contentamento e gratidão em poder contar com a sua presença cheia. É esta felicidade de que falo, que não é grátis e não é imediata nem fácil, mas perdura no tempo. Fico triste que deixemos de investir nisto que mais interessa, uma dádiva para nós e para o mundo, e o troquemos por “qualidade de vida”.

Absolutizamos a “qualidade de vida” e a satisfação. Estudei este fenómeno nos trabalhadores e percebi que é bom estar satisfeito no local de trabalho, mas também é bom estar desafiado e sentir que se cresce e contribui. E isso não é uma sensação confortável em todos os momentos. Não defendo a permanente saída da zona de conforto, isso não é crescimento, mas instabilidade. Devemos ter um lugar seguro e estável em que possamos crescer, mas sem desafios e serviço, nunca nos desenvolveremos como pessoas.

Esta sociedade avalia-nos pelo conforto que experimentamos no imediato e não pelo que alcançamos, e isso é uma falácia. O ser tem uma insustentável leveza, como dizia Kundera. Se não levanta um peso qualquer, “lift a load”, meu ou de outro, como dizia Jordan B. Peterson, cai numa vida fútil e vazia, sem sentido. É nisso que estamos a cair como sociedade, muito “satisfeita”, mas cheia de comprimidos.

Quem construiu uma fortuna ou uma carreira com “qualidade de vida”? E que maior fortuna do que a vida humana?