(c) 2023 am|dev

(A) :: Escolhas portuguesas em tempo de conflito

Escolhas portuguesas em tempo de conflito

Se o fosso entre EUA e Europa se alargar, os Açores deixam de estar no centro do bloco ocidental e passam para uma zona de fronteira. Se assim for, de que lado é que Portugal fica?

André Abrantes Amaral
text

Aeronaves norte-americanas a caminho de bombardearem o Irão foram reabastecidas com apoio  das Lajes e a importância geoestratégica dos Açores regressou à mó de cima. Infelizmente, o debate em Portugal centrou-se em dois pontos e esqueceu o que é essencial para o nosso futuro. Os dois pontos batidos e rebatidos à exaustão foram a conformidade com o direito internacional e a libertação do povo iraniano do jugo do regime sanguinário dos aiatolas. O esquecido é mais relevante para nós porque se relaciona directamente com Portugal. É um dilema que se põe nos seguintes termos: caso o fosso entre EUA e Europa se alargue, os Açores deixam de estar no centro do bloco ocidental e passam a situar-se numa zona de fronteira. A nova fronteira entre o bloco norte-americano (incluindo todo continente americano, debaixo da Doutrina Monroe) e o bloco europeu. Nesse caso, e se esta maior separação se concretizar, onde é que Portugal fica?

Esta é a pergunta que coloquei há umas semanas neste espaço e que se torna cada vez mais premente. Sem irmos muito longe no passado, os Açores foram um trunfo ponderado na Primeira Guerra Mundial, pela Inglaterra, e apetecido por Washington e Londres no decorrer da Segunda Guerra Mundial. E não foi só pelas bases que britânicos e norte-americanos pretendiam lá instalar. Tratou-se mesmo da possibilidade de as ocupar antes que os alemães o fizessem. Se essa ocupação seria temporária ou permanente é algo que felizmente não temos de saber. Mas é uma questão que se pode colocar no futuro se os conflitos em que já vivemos continuarem e se em vez de pensarmos em questões importantes que nos afectam directamente continuarmos distraídos com assuntos, por certo louváveis, mas que próprios de períodos de paz duradoura. A importância estratégica dos Açores, nas suas diversas vertentes e desde meados do século XV até à actualidade, foi exaustivamente analisada pelo investigador Tomé Ribeiro Gomes, na sua tese de doutoramento, “Small Islands in Grand Strategy: The strategic geography of the Azores (1430-2022)”, pelo que não é por falta de informação que o tema não se discute.

Mas os Açores não são o único desafio que Portugal e a Europa enfrentam. Há outro que está a nascer debaixo dos nossos olhos e que atinge o centro do projecto europeu. Trata-se do rearmamento da Alemanha e das alterações que os investimentos em defesa alemão vão provocar no equilíbrio dentro da União Europeia. A Alemanha investe em defesa desde que deixou de confiar na aliança norte-americana e prepara-se para, daqui a dez anos, se tornar na maior força militar da Europa. A acontecer, a França perde a mais importante das áreas em que, dentro da Europa, ainda era mais poderosa do que a Alemanha. Em 1957, a França assinou o Tratado de Roma com vista à criação da CEE porque, doze anos passados desde o fim da Segunda Guerra Mundial, era cada vez mais evidente que a Alemanha estava prestes a adquirir um predomínio económico no continente. A melhor forma de o conter foi incluí-la no seio de um projecto agregador de vários estados com níveis de desenvolvimento equivalentes, embora com pesos e dimensões diferentes.

Com a CEE, Paris tornou digerível o crescimento económico alemão, bem como a pujança da produção industrial da sua antiga rival ao mesmo tempo que assumiu a liderança política e militar que estava vedada à Alemanha por razões óbvias. Ora, o investimento em defesa que Berlim está a levar a cabo altera este equilíbrio. A França tem todas as razões e mais alguma para não ficar quieta. A decisão de Emmanuel Macron aumentar o número de ogivas nucleares juntamente com o acordo que fechou com Friedrich Merz de estender à Alemanha o guarda-chuva nuclear francês é um reflexo disso. Mas se, daqui a dez anos, a Alemanha se tornar militarmente equivalente à França (ou detiver um poderio superior, derivado de a sua dívida pública face ao PIB ser menor, logo ter mais capacidade para investir em novas tecnologias de cariz militar), Paris vai ter de procurar outras alternativas fora do continente que compensem o desequilíbrio criado no seio da própria Europa. Uma das opções francesas poderão ser os EUA (o que será difícil caso a Alemanha lhe tome a dianteira, como parece estar a acontecer após a visita de Merz a Washington e as boas relações que o chanceler alemão conseguiu estabelecer com Trump). A outra é estranha aos dias de hoje, mas tem fortes tradições na prática francesa e consiste numa aproximação à Rússia. É provável que, nessa altura, a guerra na Ucrânia tenha terminado e um novo equilíbrio se tenha estabelecido na Europa de Leste com o qual os estados terão de lidar. Nada é de excluir porque todos os cenários são incertos, logo possíveis.

O que parece cada vez mais certo é que a União Europeia dificilmente se manterá tal qual a conhecemos. Em 2012, François Hollande defendeu uma Europa a várias velocidades e não foi só para resolver as reticências britânicas a uma maior integração. Macron, defendeu o mesmo num discurso na Sorbonne em Setembro de 2017, depois do Brexit. Nada aconteceu porque Paris e Berlim não estavam em sintonia e porque Macron queria que a França liderasse o processo. Talvez agora a França pondere melhor a sua posição e esteja pronta, enquanto é tempo, para fazer cedências a nível de supremacia militar e incluir a Alemanha numa união defensiva europeia à semelhança do que se fez em 1957, relativamente à economia.

Perante um possível cenário de uma Europa dividida e com os Açores na fronteira com o bloco americano cabe-nos a nós, portugueses, pensar como nos vamos posicionar perante estas alterações no tabuleiro de xadrez internacional. Como país marítimo que somos não nos podemos dar ao luxo de alienar a aliança norte-americana. Também nada ganhamos em perder o contacto com o Brasil e com os PALOP. A presente hostilidade entre os EUA e a Espanha, ainda que lamentável, dá-nos algum crédito porque nos diferencia e alarga a autonomia estratégica de Portugal. Permite, inclusive, que Portugal possa servir de mediador entre Madrid e Washington. Mas o tempo actual não é de respostas. Por enquanto cabe-nos analisar os factos e ponderarmos possibilidades para que nos adaptemos às mudanças quando estas surgirem. Uma piscadela de olho ao passado dá-nos alguma tranquilidade porque, apesar das peripécias, Portugal acabou por ultrapassar desafios que pareciam intransponíveis. Houve sorte, mas também alguma argúcia. Oxalá que ainda tenhamos de ambas um pouco.