Desde o final de fevereiro que o entra e sai de aviões reabastecedores militares norte-americanos da Base das Lajes devido ao conflito no Irão é notícia internacional. Os locais sentem “mais reboliço do que o habitual”, mas “a vida segue perfeitamente normal”. Aliás, na ilha Terceira diz-se que no verão é fácil perceber quem é natural de Angra do Heroísmo e quem é da Praia da Vitória, os dois concelhos da ilha. Se um avião que faça mais barulho passar por cima de uma qualquer zona balnear, os angrenses vão levantar-se e olhar o céu, enquanto os praienses vão continuar com a cabeça enterrada na toalha ao sol.
São dezenas de anos a ouvir o entra e sai de aviões de guerra na Base das Lajes. As paragens dos reabastecedores KC-46 norte-americanos, motivados pelo início do conflito no Irão em fevereiro, não amedrontam ninguém. “Até as vacas estão habituadas a isto”, explica Manuel Ormonde enquanto olha para a pista a escassos metros de distância do terreno em que tem os animais.




O ruído não incomoda o lajense de 73 anos, nem os netos que moram ali perto junto à vedação. “Ninguém acorda de noite por causa disso”, explica. Estranho só mesmo o alvoroço mediático que a guerra trouxe. “Nunca vi tanta gente na beira da pista para ver os aviões como agora. Até para filmar é por cima das paredes. À gente não faz diferença nenhuma”, conta. Ainda assim, admite que “há muito ano que não se viam tantos aviões americanos” na ilha. Desde a guerra no Iraque, cuja cimeira nas Lajes com George W. Bush (EUA), Tony Blair (Reino Unido), José Maria Aznar (Espanha) e o anfitrião Durão Barroso teria um papel fundamental no conflito. E Manuel Ormonde remata: “Enquanto houver guerra, ninguém sai daqui”.
“Não há que ter medo absolutamente nenhum”
A Valentino Silva, a guerra só meteria medo “se fosse Portugal a fazer”. Antigo combatente em África, acredita categoricamente que “não há país maior do que a América”. Por isso, “não há que ter medo absolutamente nenhum” em morar junto à base militar. “Porque é que a gente há de estar com medo aqui na Terceira? Eles não haviam de saber quando viesse um rebuçado [um míssil] para cá? Eles vão botá-lo em baixo antes de ele chegar cá”, acredita.
Valentino concorda que nas últimas semanas tem havido mais movimento de aeronaves, mas nada como outrora se viu. Explica que a época da guerra no Vietname foi a mais movimentada na Base das Lajes. “Era todo o dia e toda a noite a levantar e aterrar”, recorda.
Era impossível a casa que foi construída pelos avós ser mais próxima da pista. A vedação da base é o que limita o seu quintal. “Esta rede era mais lá para baixo”, explica. Mas “eles vão puxando, vão puxando”, desabafa. “Mas eu já explico o que eles nos devem de terrenos”, antecipa. Ainda assim, dá para semear umas batatas e manter umas galinhas, das quais cuida diariamente embora os 79 anos já pesem.
A tipologia das aeronaves que têm passado pelos Açores, contudo, traz consigo um receio específico para alguns habitantes. Do quintal em que consegue contar um a um os quinze reabastecedores estacionados na placa, Elmano Nunes expõe o contexto. Em 1976, lembra, caiu numa zona de vinha ali perto um avião venezuelano que vitimou os 68 passageiros. Depois foi um avião de correio búlgaro. Uns anos depois, outro “ficou com o focinho colado a uma casa na Canada dos Remédios”. O filho terá gritado “Mãe, anda aqui que está um avião na nossa porta”. Ainda mais um caiu na Caldeira. “O piloto ejetou-se e o avião foi à vida”, explica Elmano, sargento reformado da Força Aérea Portuguesa. “Eu lembro-me perfeitamente desses acidentes”, recorda. E é daí que vem o receio. “Aquilo de que eu e algumas pessoas aqui na zona têm medo é que algum desses marmelos que saem e aterram aí tenha um desvio ou uma falha e bata perto de nós”, desenvolve, lembrando que “um avião daqueles carregado de combustível, se cai nem que seja na beira da pista, seria o pandemónio”.


Apesar disso, acredita que “há uma desconexão entre o que as pessoas lá foram pensam” e o sentimento que se vive na Vila das Lajes. Há algum receio, sim, mas “nada que tire o sono”. A vida segue normal. Os três homens, assim como tantos outros terceirenses, têm ligações muito fortes à base militar dos norte-americanos. Manuel trabalhou lá durante 23 anos enquanto canalizador.
O pai de Valentino foi chauffeur e a mãe empregada de limpeza. Já Elmano, militar da Força Aérea Portuguesa de 1962 a 1997, esteve ligado à base durante toda a carreira. Todos viram a mudança de paradigma quando se foram embora os ingleses — que estabeleceram os primórdios da estrutura durante a Segunda Guerra Mundial — e a progressiva instalação dos norte-americanos. Lembram-se de a pista ser feita de chapas de metal que eram colocadas peça a peça para que os aviões pudessem aterrar. Um dos que tinha esse trabalho árduo era o avô de Tânia Santos. Anos mais tarde, a neta viria a defender a tese de doutoramento “O impacto social da presença norte-americana na ilha Terceira, Açores, durante o período do Estado Novo (1933-1974)”.
O trabalho na base “mudou as nossas vidas”
Enquanto preparava o trabalho académico, era frequente o avô dizer-lhe: “Tu não fales mal dos americanos! Eles foram muito bons para a gente. Eles salvaram-nos”. É essa perspectiva que ajuda a justificar a forma como a comunidade lajense em particular e terceirense em geral vê a presença norte-americana na ilha. O avô de Tânia “vendia fruta descalço pela freguesia” da Agualva, na Praia da Vitória, quando aos 19 anos lhe perguntaram se queria ir trabalhar na base. “Foi isso que mudou as nossas vidas e fez com que tivéssemos uma qualidade de vida muito melhor”, conta a neta.
Os olhos académicos de hoje interpretam a ajuda dos estrangeiros como uma forma de soft power para ajudar a deslumbrar os locais, tentando fazer esquecer algumas consequências mais negativas da sua presença. “Os americanos deram muito à gente! Eles mudaram completamente esta ilha!”, vinca Valentino Silva. Dá o exemplo das garrafas de petróleo que eram muito difíceis de encontrar, contava-lhe a avó, e que depois da vinda dos americanos “até já se mandavam sacas dessas garrafas para as outras ilhas, incluindo São Miguel”.
Muitas crianças da ilha tiveram as suas primeiras ofertas de Natal devido aos programas de apoio à comunidade que chegaram de fora nessa altura. Os mais velhos “ainda se lembram do cheiro das ofertas”, conta Tânia, e ela própria se recorda da “forma e da cor da caixinha da boneca” que lhe ofereceram quando era criança na Agualva, uma freguesia na Praia da Vitória onde também foi instalada uma base norte-americana, embora de dimensão muito diferente da das Lajes.
Numa altura em que Portugal vivia o Estado Novo, os Açores eram vistos como “portugueses de segunda”, lamenta Valentino. A pobreza, a censura e os brandos costumes esbarraram contra a modernidade que chegava do outro lado do Atlântico. O casamento era “um dos sinais mais evidentes” desse conflito de emoções, explica Tânia. À medida que os soldados norte-americanos se habituavam a percorrer as ruas da Vila da Lajes, foram surgindo casamentos com raparigas terceirenses. “Os americanos eram um bom partido e eram o nosso passaporte para a América. Tinham a possibilidade de proporcionar uma melhor qualidade de vida quer para a rapariga com quem casavam, quer para a própria família com as cartas de chamada para a América que depois chegavam”, explica a doutorada. Ajudava a fechar os olhos aos pais mais conservadores.
A própria Igreja Católica terá ajudado. Por toda a ilha é conhecida a história de um padre que, precisando de ajuda para a paróquia, terá convencido os fiéis de que “roubar no Serrado Grande (Base das Lajes) não é pecado”. “Se tínhamos a bênção do padre, então podia-se roubar”, afirma entre risos Tânia. De facto, lembra-se de todos os dias esperar o avô e ver o que chegava a casa trazido da base naquele dia. “Todos os dias é preciso trazer alguma coisa, nem que seja um prego”, lembra-se de ouvir entre as mais de 60 entrevistas que fez para construir a tese. O combustível, hoje tão importante para os reabastecedores, era roubado pelos portugueses de forma “louca”.

Pastilhas elásticas, Coca-Cola e Levi’s
Se normalmente são os emigrantes que se habituam aos locais para onde se mudam, neste caso “foi a Terceira que se adaptou aos americanos”. Os americanos trouxeram consigo a manteiga de amendoim, os discos de vinil e as pastilhas elásticas — as “gamas”, de “gum”, como ainda são conhecidas hoje em todos os Açores. Até trouxeram a Coca-Cola, algo que no continente português só se conheceu na década de 1970, como se recorda Elmano falando das idas a Sintra durante o serviço militar. As calças Levi’s são outro marco no imaginário da comunidade. “Ui, tantas que eu levei comigo para fora”, recorda o sargento reformado. “Tenho pena que o meu filho já não viva esse deslumbramento como eu vivi. Eles hoje têm tudo, já não se deslumbram com manteiga de amendoim”, confessa Tânia. Outrora, nomes como Frank Sinatra e Amália Rodrigues animavam militares e locais nas noites da Base das Lajes, com uma presença muito forte dos Clubes de Sargentos, Oficiais e Praças, que ainda hoje deixam saudades. Os primeiros semáforos da ilha foram instalados no meio da pista e serviam para indicar quando se poderia atravessar para ir, por exemplo, ao cinema e ao bowling.
“A Base das Lajes era o nosso sonho americano”, sublinha a funcionária da Câmara Municipal da Praia da Vitória. Como “não havia nada” na ilha, os americanos “construíram tudo”. Com isso vieram os tão importantes empregos para a comunidade. Ainda hoje a base é vista como “o melhor empregador da ilha” e alicia muitos. Nas décadas de 1960 a 1980 esse impacto era ainda maior. Numa altura em que muitos soldados — chegaram a ser três mil estacionados mais os que passavam em trânsito — vinham com as famílias e a estrutura residencial militar não conseguia comportar o alojamento de todos, as ruas enchiam-se de estrangeiros, explica Elmano Nunes. Ainda agora, com o atual conflito, explica, “muitos hotéis estão lotados com americanos” devido à redução da estrutura residencial na base. Nos “tempos áureos”, as mulheres limpavam as casas, os homens cortavam as relvas dos quintais dos militares. Muitos dos locais mais tarde emigrariam para os Estados Unidos da América para trabalhar com as mesmas famílias com quem tinham trabalhado na Terceira. A convivência entre as comunidades era “absolutamente pacífica” — tirando uma “zaragata ou outra em noites de copos”, recorda com um sorriso Elmano de 81 anos.
As histórias das bebedeiras dos militares fazem parte do imaginário terceirense desde a Segunda Guerra Mundial, quando os britânicos se instalaram no aeródromo construído pelos portugueses. O “empreendedorismo terceirense”, como escolhe colocar Tânia Santos, levou a que dezenas de homens com carroças percorressem a ilha a recolher soldados alcoolizados e devolvê-los à base em troca de algumas moedas. Salazar escolheu os britânicos em vez dos norte-americanos no seio da pressão que se fazia sentir durante a guerra nos anos 40, argumentando com a histórica aliança luso-britânica, mas desde cedo Churchill e Roosevelt chegaram a um acordo que fez com que os norte-americanos se instalassem na base como técnicos de apoio. Com o final da guerra, a base passou para as mãos da superpotência do outro lado do Atlântico.



O “downsizing” do contingente militar norte-americano a partir do início do milénio deixa muitas saudades aos terceirenses. “Eles fazem muita falta à ilha. Gostava muito de ver a base como ela já foi”, lamenta Manuel Ormonte. Também Valentino confessa saudades daqueles tempos. “Essas guerras pequenas que há para aí não fazem com que venham os americanos como havia antigamente”, confessa. “Foram os tempos áureos”, recorda Elmano Nunes. Hoje já não se acredita que esses tempos regressem. Mas, à boa maneira portuguesa do sebastianismo, “há sempre aquela esperançazinha de que isto um dia volte a ser como era antes”, confessa Tânia, a quem entristece chegar à vedação ver o estado de degradação de alguns edifícios. Parte das antigas moradias dos bairros norte-americanos estão a ser recuperadas pelo Governo Regional dos Açores com a alavanca do PRR, mas até a rede elétrica é preciso mudar, já que a voltagem utilizada pelos norte-americanos não é a mesma usada em Portugal.
“Quando começa a haver mais movimento, já sabemos que pode vir aí guerra”
Outro dos anseios da população está ligado às rendas que são pagas pela utilização dos terrenos. A Base das Lajes está construída em cima de terrenos que são propriedade de moradores locais. Valentino Silva volta ao assunto do início e diz que tem três alqueires e meio de terra (cerca de quatro quilómetros quadrados) no local onde hoje aterram os abastecedores. Elmano Nunes também tem quatro alqueires. O pagamento anual de ambos chega nas contas bancárias em Novembro. Pouco mais de 100 euros. Não por alqueire, mas no total. “É uma miséria”, confessa Valentino. “Nós queríamos que eles nos comprassem os terrenos de uma vez, mas não há maneira” acrescenta Elmano.

Enquanto isso, o “barómetro” da geopolítica internacional continua a funcionar na Base das Lajes. “Quando começa a haver mais movimento aqui, já sabemos que pode vir aí guerra”, explica Tânia Santos, que hoje mora “no sítio onde os aviões começam a descer” para aterrar. Esse barómetro funcionou, por exemplo, na guerra da Ucrânia. No início do conflito provocado pela invasão russa, vários caças norte-americanos passaram pela ilha “com um ruído tremendo”, recorda Elmano. Esse ruído voltou a ouvir-se estas semanas com o conflito no Irão. “Esses a gente ouve logo” afirma. Os locais estão habituados a saber distinguir de ouvido os tipos de aviões norte-americanos, mas também os “da SATA pequena”. Mas “isso é quando a gente se lembra de ouvir”, remata Valentino.
Apesar da normalidade que se vive, não há apatia relativamente à guerra. “Não somos diferentes dos outros. Ficamos apreensivos por haver guerra no mundo e passar por aqui, sermos a alavanca para ir para a guerra”, assumo Tânia Santos. Porém, “é mais um dia”: “Há muitos anos que estamos habituados a esta movimentação”.
Questionados sobre a ameaça iraniana aos países que não se oponham à missão “Fúria Épica” lançada por Donald Trump e Israel, ninguém tem medo de um ataque direto. “Está certo que isso às vezes é gente que não se confessa”, ironiza Elmano Nunes, mas a vida segue. “É mais um dia normal na Base das Lajes”.








