(c) 2023 am|dev

(A) :: "Era um inferno". Ex-funcionários do Noma denunciam cultura de agressões, medo e exploração

"Era um inferno". Ex-funcionários do Noma denunciam cultura de agressões, medo e exploração

Ex-funcionários do reputado Noma denunciam que o chef René Redzepi esmurrou, pontapeou e humilhou ao longo de vários anos. Cultura de medo era perpetuada pela equipa: "Criou uma geração de bullies".

Adriana Alves
text

“Ir trabalhar parecia ir para a guerra”. O desabafo é de uma antiga funcionária do reputado Noma, por cinco vezes considerado o melhor restaurante do mundo e que há três anos foi convertido num laboratório de comida. É um de mais de 30 testemunhos recolhidos pelo New York Times sobre um ciclo de abusos físicos e psicológicos infligidos ao longo de anos pelo criador da marca, o chef René Redzepi. “Era um inferno”, relatou outro ex-funcionário.

Segundo os 35 testemunhos recolhidos durante a investigação do jornal norte-americano, entre 2009 e 2017 o chef agrediu dezenas de funcionários — há relatos de murros, empurrões e de agressões com utensílios de cozinha –, intimidou-os e ameaçou usar a sua influência para os impedir de arranjar trabalho.

https://observador.pt/2023/01/09/noma-o-melhor-restaurante-do-mundo-vai-fechar-portas-tornar-se-3-0-e-abrir-um-laboratorio-de-comida/

O NYT relata vários episódios de violência, como o de uma funcionária que disse ter sido agredida depois de Redzepi a ver mexer num telemóvel — algo proibido durante o serviço — para baixar a música a pedido de um cliente. Segundo a mulher, o chef aproximou-se sem dizer uma palavra e deu-lhe um murro nas costelas com tanta força que caiu contra o balcão de metal e cortou o lábio na esquina.

Outro ex-funcionário contou que, quando Redzepi notou que tinha deixado uma pequena marca numa pétala de flor num prato, foi agarrado pelo avental, empurrado contra uma parede e esmurrado no estômago. Há também vários relatos de que, quando havia clientes presentes, o chef se agachava sob os balcões da cozinha aberta e espetava-os nas pernas com utensílios próximos, até com garfos de churrasco.

Os antigos trabalhadores também relataram episódios de violência psicológica. É descrito que uma noite René Redzepi levou toda a equipa para fora da cozinha. Os cerca de 40 cozinheiros formaram um círculo à volta de Redzepi e de um sous-chef, que foi humilhado perante todos. Tudo porque tinha posto música eletrónica a tocar, um género que o chef não gostava. O homem só foi autorizado a regressar depois de dizer em voz alta que gostava de fazer sexo oral a DJ. Também foi esmurrado.

Os antigos funcionários disseram que depois de 2017 Redzepi se tornou mais controlado, mas que a cultura abusiva foi perpetuada pelos chefs seniores, com a sua aprovação. “René criou uma geração de bullies”, denunciou Mehmet Çekirge, que trabalhou como estagiário no Noma em 2008. Apesar dos abusos, muitos contaram que continuaram a trabalhar no Noma porque abria portas no mundo da restauração.

A investigação surge numa altura em que o antigo diretor do laboratório de fermentação do Noma começou a denunciar no Instagram os abusos que presenciou e outros testemunhos que lhe foram chegando por mensagem. “A Noma não é a história da inovação. É a história de um maníaco que cultivou uma cultura de medo, abuso e exploração”, escreveu Jason Ignacio White.

Redzepi já sido tinha filmado a gritar com cozinheiros no documentário de 2008 “Noma at Boiling Point”, o que o levou a fazer vários pedidos de desculpa públicos. Confrontando com a recente investigação, o chef afirmou: “Apesar de não reconhecer todos os detalhes nestas histórias, consigo ver o suficiente do meu comportamento passado refletido nelas para compreender que as minhas ações foram prejudiciais para as pessoas que trabalharam comigo”. “Estou profundamente arrependido e trabalhei para mudar”, garantiu o chef, acrescentando que se afastou do serviço do dia a dia e que fez terapia para “encontrar formas melhores” de lidar com a “raiva”.