O céu de Lisboa abriu-se este sábado para a missa de corpo presente de António Lobo Antunes, que morreu na quinta-feira, aos 83 anos. Ao meio-dia, quando teve início a cerimónia religiosa, a câmara ardente era iluminada não só pelas velas acesas, mas também pelo Sol que coloria os vitrais e entrava pela porta da Igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos. Em frente ao monumento, que é um dos mais visitados do país, as bandeiras de Lisboa e de Portugal a meia haste simbolizavam o luto nacional.
Pela manhã, os preparativos para a missa contrastavam com a música alta de uma caminhada que decorria nos arredores, cortando algumas das ruas ao trânsito. E também pela multidão de turistas, que enquanto formavam uma longa fila para visitar o mosteiro, perguntavam o que ali estava a acontecer. Mas a chegada de personalidades de diversos setores de Portugal — políticos, atores, médicos e escritores — deixou explícito, mais uma vez, que António Lobo Antunes é reconhecido e nunca será esquecido. As memórias e referências ao médico e escritor não foram restritas a apenas uma ou outra das suas profissões, por um ou por outro colega ou autoridade nacional. Entre as coroas de flores recebidas, estavam a da sua editora, Dom Quixote, a da delegação de Portugal junto da OCDE, do bastonário da Ordem dos Médicos, do Benfica (equipa da qual era adepto), entre tantas outras que resumiam o legado multifacetado que Lobo Antunes deixa.
Um legado que inspira diversas gerações de escritores, como Afonso Reis Cabral, de 35 anos, trineto de Eça de Queiroz. Cabral compareceu ao funeral (tal como outros autores, como Rui Cardoso Martins) e disse aos jornalistas que cresceu a admirar as obras de António Lobo Antunes, cuja “leitura e leitores” considera serem a maior homenagem. Margarida Rebelo Pinto, de 60 anos, lembra-se do amigo como uma pessoa divertida, que a incentivou a ser escritora. “Ríamos muito, trocávamos histórias e confidências. Com ele, aprendi que poderia escrever sobre tudo“, disse à saída do Mosteiro, onde estiveram também, por exemplo, as atrizes Maria Rueff e Paula Lobo Antunes (sobrinha do cronista).
O presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, quis “dar um abraço à família” em nome dos lisboetas. O autarca definiu-o como “um homem que escrevia sem ser para agradar, porque escrevia a verdade, mas com uma humanidade única”. E referiu que “até ao fim do ano” deve ser inaugurada a Biblioteca António Lobo Antunes, em Benfica, freguesia em que o homenageado nasceu e cresceu. O autarca foi um dos vários políticos presentes na missa de corpo presente, em que estiveram também não só o Presidente da República, como a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e membros de vários partidos, da esquerda à direita, bem como a ex-primeira dama Manuela Ramalho Eanes.
Marcelo: Lobo Antunes foi símbolo de uma “pátria aberta, fraterna e universal”
Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de sublinhar que estava ali como amigo de Lobo Antunes, o “mestre da portugalidade“, que deu “sentido” à língua portuguesa “e à partilha com os outros”. Porém, “não serôdia” e sim de “quem conhece a história e os seus triunfos e desastres, mas encontra sempre um fio condutor para dar sentido ao que valeu a pena e ao que não valeu assim tanto”.
Sendo esta uma das suas últimas aparições como Chefe de Estado (António José Seguro toma posse na segunda-feira), Marcelo não poupou, num discurso forte, elogios ao escritor “criador das palavras, do modo único de as dizer, conjugar e dar vida, tempo e espaço, como nunca antes visto”, enfatizando o seu “espírito aberto”. Falar do escritor “é evocar a urgência de antecipar o futuro”, salientou Marcelo.
Para “esse António Lobo Antunes, o futuro é estarmos aqui hoje [sábado], nos Jerónimos, com Camões, para agradecermos ao criador das palavras, ao romancista-cronista, ao confidente de cada qual, ao memorialista de uma história que é nova demais para envelhecer, ter sido o génio da sua redescoberta de Portugal, um símbolo mais da nossa identidade pátria”, afirmou o Presidente ao fechar a missa de corpo presente.
Uma pátria, destacou Marcelo Rebelo de Sousa, “aberta, fraterna e universal, onde as caravelas são de um futuro a viver ainda mais do que de um passado a aprender”.
Portugal “pode ser diferente hoje, e melhor, e maior, porque teve um António Lobo Antunes que soube e sabia sonhar esse futuro. Soube e sabia anunciar a urgência de um antecipar. Portugal nunca o esquecerá”, concluiu.
Lágrimas e risos ao recordar o irmão, pai e avô que não sabia perder (ou ganhar) aos matraquilhos
Um dos poucos pedidos para o dia do funeral, revelou uma das três filhas de Lobo Antunes, era estar “aos pés de Luís de Camões, um dos seus ídolos”. “Paizinho, foi o melhor que se arranjou”, comentou, arrancando risos dos presentes, referindo-se ao facto de a cerimónia, que durou duas horas, se estar a realizar no monumento onde está o túmulo do autor de “Os Lusíadas”. Em 2007, António Lobo Antunes foi galardoado com o Prémio Camões, o maior reconhecimento da língua portuguesa.
O outro desejo, também realizado, foi a leitura do soneto Na Mão de Deus, de Antero de Quental, um dos seus favoritos. O poema, em que o escritor oitocentista alude ao coração que “descansou, afinal” na mão direita de Deus, abriu a homenagem.
As memórias dos familiares, na cerimónia que durou cerca de duas horas, deram a conhecer além do escritor, o também avô, pai e irmão e marcaram momentos tanto de lágrimas e emoção quanto de risos, como foi o caso quando uma das filhas lembrou a dificuldade que tinha em evitar que os filhos repetissem os palavrões que o avô lhes ensinava e que vinham reproduzidos “nas capas de jornais” .
Ou quando Manuel Lobo Antunes falou da contradição de ter encontrado numa caderneta de estudante de António, na altura aluno no Liceu de Camões, uma média “nove” na disciplina de língua portuguesa. “O impacto do António foi diferente em cada um de nós”, partilhou o irmão “mais pequeno de uma geração a que chamaram de ínclita”.
O diplomata recordou o período em que o irmão foi combatente em Angola e lhe escreveu uma carta “em português arcaico, como se o ‘Rei António‘ se tivesse armado em cavaleiro”. O gesto foi uma das excentricidades da sua personalidade tal como o cinzeiro que António usava, em forma de um “crânio invertido”, referiu o também ex-político. Manuel Lobo Antunes não esqueceu ainda como, na altura, considerou “embaraçoso” o título de um dos seus primeiro livros, Os Cus de Judas (1979) que, quando mencionado neste sábado na igreja, soou como uma despretensiosa blasfémia cómica. “O dom da palavra sempre lhe pertenceu”, frisou.
O neto mais velho, José Maria, fez a leitura de uma carta escrita para o avô, tratando-o por “tu”, como o autor gostava que o rapaz fizesse. No conteúdo, mencionou a “ternura, amor e paciência” que ensinou à família para que passassem adiante. E também como foram os últimos dias do escritor, cercado pelos filhos a quem gostava de “dar colo”. Uma das suas três filhas viajou de Angola para o funeral, onde, disse o neto na carta, “foi também onde choraste por não a veres nascer” (António Lobo Antunes foi recrutado pelo exército em 1970, para combater na Guerra Colonial em Angola).
Um discurso escrito em nome das três filhas referiu o hábito de “pontualidade extrema” do homem que não usava relógios. Frequentava, enquanto os herdeiros eram pequenos, restaurantes com mesas forradas por toalhas de papel, que eram coloridas com lápis pelas crianças. “O pai conhecia bem os portugueses porque os ouvia, porque se interessava pelas pessoas”. E, enquanto médico, afirmava que “os doentes melhoram mais depressa se os médicos gostarem deles”.
A família confessou “recusar-se” a jogar, por exemplo, matraquilhos e xadrez com Lobo Antunes. “Era insuportável quando perdia, mas muito pior quando ganhava“. As memórias alegres sobre o benfiquista — de bairro e de clube — secaram as lágrimas dos presentes naquela tarde. O silêncio foi quebrado pelo canto, entre sorrisos, do hino do Sport Lisboa e Benfica, que foi entoado já quando a urna coberta pela bandeira de Portugal deixava a igreja.
Dentro do carro, a caminho do Cemitério de Benfica, o corpo de António Lobo Antunes voltou para a freguesia que foi e será agora a sua casa. Isto se o desejo de Marcelo Rebelo de Sousa não se concretizar. O Presidente da República, que disse que iria depositar junto do escritor o grande colar da Ordem de Camões, gostava que ele ficasse no Panteão Nacional, como tantos outros nomes grandes de Portugal.





