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(A) :: Vigilância apertada, agentes em Teerão e a 'luz verde' dos EUA. Morte de Ali Khamenei começou a ser preparada pela Mossad há 24 anos

Vigilância apertada, agentes em Teerão e a 'luz verde' dos EUA. Morte de Ali Khamenei começou a ser preparada pela Mossad há 24 anos

Israel começou a desenhar, em 2002, plano de matar aiatola. Em 2025 teve tudo a postos para o fazer, mas Trump não terá dado luz verde a missão que foi concluída agora.

Miguel Pinheiro Correia
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No Antigo Testamento, Haman era descrito como um dos mais importantes membros da corte do rei Assuero, da Pérsia. O soberano queria que todos os funcionários da corte se ajoelhassem diante dele, como sinal de respeito. Todos o faziam, menos um, Mordecai, um judeu. Talvez por isso, lê-se no Livro de Ester, Haman fez do seu objetivo perseguir e matar todos os judeus. Mas Haman acabou enforcado na forca que o próprio construiu para matar Mordecai.

O relato bíblico é recuperado pelo jornal El Español, a propósito da missão que surgiu, no seio da Mossad, com o objetivo tão claro quanto complexo de matar Ali Khamenei. O plano, que exigia uma dedicação especial, obrigou à criação de uma unidade especial secreta dentro dos serviços de inteligência de Israel. O nome? Unidade Haman, claro está. Foi criada pelo então primeiro-ministro israelita Ariel Sharon em 2002. 24 anos depois, cumpriu o objetivo.

Líderes israelitas foram mudando, mas plano manteve-se. Com Netanyahu, missão foi reforçada

A morte do aiatola começou a ser preparada um ano depois de Ariel Sharon ter assumido o cargo. Nessa altura, chamou para a sua residência, em Jerusalém, vários altos cargos da Mossad e dos serviços de inteligência de Israel. Delegou em Meir Dagan, então diretor da Mossad, a função de criar e liderar a unidade Haman. Tinha nas mãos a responsabilidade de cumprir uma tarefa que se avizinhava difícil: seguir, exaustivamente, Ali Khamenei. Queria que o seu destino fosse o mesmo que o de Haman, a morte.

A partir daí, todos os passos do aiatola passaram a ser seguidos. Mas a vigilância da Mossad estendia-se a familiares, colaboradores próximos e membros do seu corpo de segurança. Todos os círculos que o rodeavam eram seguidos ao detalhe, sempre com o objetivo, em pano de fundo, de matar o líder supremo do Irão, que assumiu o cargo em 1989 — depois de já ter sido Presidente do país do Médio Oriente entre 1981 e 1989.

Os anos foram passando, os líderes israelitas mudaram e os responsáveis pela Mossad também. A missão não foi esquecida e todos os primeiros-ministros demonstraram essa intenção, alguns com maior ou menor fulgor. Benjamin Netanyahu foi um dos chefes do Governo de Israel que, segundo o El Español, mais manifestou essa vontade.

Não se ficou pela intenção. Em 2022, quando ‘Bibi’ chegou novamente ao cargo de primeiro-ministro, a unidade foi reforçada: mais dinheiro e mais meios. Terá dito ainda a David Barnea (diretor da Mossad desde 2021) que a morte de Khamenei era uma das suas maiores prioridades. Quis ter uma data limite para cumprir esta missão e classificou-a com a categoria ‘Ain Efes’ — uma missão que não admite o fracasso.

Com a intenção de Netanyahu traduzida em ações, foram reforçados os ‘Katsas’ no Irão (assim se designam os informadores da Mossad no terreno) e as equipas responsáveis por intercetar sinais e decifrar códigos. Os agentes israelitas em Teerão começaram a seguir ainda mais de perto a equipa do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica responsável pela proteção dos líderes iranianos.

Em dezembro de 2024, recorda também o jornal espanhol, Ali Younisi, antigo ministro da Informação do Irão, destacou a influência e a infiltração da Mossad em solo iraniano e alertou todos os funcionários iranianos para que estivessem atentos à segurança do país e do aiatola. De facto, quatro anos antes, tinha morrido um dos guarda-costas mais próximos de Khamenei. O próprio Irão dividiu-se na explicação sobre esta morte: a Guarda Revolucionária disse que tinha sido vítima de um “defeito técnico na sua arma”; mas os serviços de inteligência relataram que tinha sido envenenado por agentes israelitas.

https://observador.pt/especiais/a-informacao-da-cia-que-mudou-tudo-como-o-ataque-a-khamenei-foi-ajustado-para-apanha-lo-em-plena-luz-do-dia/

Mossad tinha tudo pronto para matar Khamenei em 2025, mas Trump não terá dado ‘luz verde’

Independentemente do motivo, os iranianos ficaram (ainda mais) em alerta. A Mossad estava cada vez mais perto e também estava atenta, por exemplo, a Hassan Mashrou’i-Far, responsável pela segurança do complexo Motahari — complexo de alta segurança que abriga gabinetes relevantes do regime iraniano, incluindo a sede de Khamenei. Esta infraestrutura foi reduzida a cinzas no ataque do último sábado.

A vigilância de décadas deu frutos quando o diretor da Mossad, em maio de 2025, ligou a John Ratcliffe, diretor da CIA, e a Marco Rubio. Tinham o aiatola na mira, bastava premir o gatilho. Mas não queriam dar esse passo de gigante sem a ‘luz verde’ dos Estados Unidos da América — bastava o ‘sim’ de Donald Trump. O Presidente dos EUA achou que ainda não era a altura e terá dito isso mesmo a Netanyahu.

O líder norte-americano terá acreditado que ainda era possível sentar-se a negociar com Teerão. Mas convenceu-se que estava enganado. Desde maio até à morte de Khamenei, apertou-se o cerco da Mossad à cúpula do poder do Irão. Nada escapava aos agentes, que centravam grande parte da vigilância nas câmaras de semáforos de avenidas perto do complexo por onde passa todo o núcleo do poder iraniano.

A 26 de fevereiro, o líder da unidade no terreno deu o alerta. Os ‘Katsas’ tinham percebido que, dois dias depois, o aiatola iria reunir-se com a maior parte dos líderes políticos, incluindo da Guarda Revolucionária, no complexo. O relógio estava a contar. O diretor da Mossad reuniu de emergência com Netanyahu, que pediu a Barnea para falar com o homólogo da CIA. Ele mesmo falaria com Trump; o primeiro-ministro israelita, que há muito tinha o desejo de matar Khamenei, saberia que uma oportunidade daquelas não se repetiria tão cedo.

A Casa Branca só deu o aval na sexta-feira, 27 de fevereiro. Com a decisão tomada, o plano de ataque foi colocado em marcha, com o apoio de caças F-35, F-15, F-16 — todos equipados com bombas guiadas por GPS ou laser, com muita precisão e munições com capacidade de atingir os bunkers.

O ataque iniciou-se no dia seguinte, na manhã de 28 de fevereiro. A caravana de carros oficiais entrou no complexo iraniano pelas 8h45 e, uma hora depois, começaram a cair as primeiras bombas. Em poucos minutos, o complexo ficou reduzido a escombros. Entre a destruição, claro, estava o corpo do aiatola e de largas dezenas de líderes do Governo de Israel. 24 anos depois do início da missão, o aiatola teve o mesmo destino que Haman.

https://observador.pt/2026/03/01/quem-sao-os-lideres-iranianos-mortos-na-guerra-e-quem-vai-assumir-o-poder/