Nuno Morais Sarmento, de 65 anos, morreu esta madrugada, avançou a CNN e confirmou o Observador. Advogado, foi ministro da Presidência nos governos de Durão Barroso e Pedro Santana Lopes, entre 2002 e 2005. Morais Sarmento foi encontrado morto em casa.
O último cargo público que ocupou foi o de presidente da FLAD — Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, para o qual foi nomeado em 2024. A 7 de janeiro deste ano, antes do final do mandato, renunciou a essas funções afirmando “não poder, neste momento, garantir as condições pessoais e de saúde necessárias à sua completa realização”.
A última intervenção num congresso do PSD aconteceu em Almada, em novembro de 2023, onde discursou como apoiante de Luís Montenegro. Numa intervenção muito aplaudida, chamou Montenegro para lhe colocar na lapela um pin do PSD que Francisco Sá Carneiro utilizou quando venceu as eleições de 1979.

Anteriormente, tinha apoiado a liderança de Manuela Ferreira Leite, que aceitou ajudar sem se envolver na direção, ficando apenas a liderar o Conselho de Jurisdição Nacional, e tinha estado ao lado da candidatura de Paulo Rangel, que perdeu contra Passos Coelho. Crítico do passismo, voltaria ao partido para ser vice-presidente de Rui Rio, cargo que também ocupara nas presidências de Durão Barroso e Pedro Santana Lopes.
No Governo de Durão Barroso, Morais Sarmento tinha a tutela da comunicação social, tendo defendido nesse período que deveria ser o Governo a definir o modelo de programação da RTP. Foi também durante a sua tutela, em 2003, que avançou a reestruturação financeira da RTP e se reduziu a publicidade na estação pública para seis minutos por hora. Recentemente, Morais Sarmento manifestou-se contra o plano do Governo de Luís Montenegro de acabar com a publicidade na RTP. Revelou que chegou a acompanhar estudos sobre esse tema, concluindo que avançar com a medida seria “voltar a uma televisão a preto e branco”.
A maior polémica que viveu no Governo aconteceu após uma viagem a São Tomé e Príncipe, já no Governo de Santana Lopes. Morais Sarmento chegou a pôr o lugar à disposição depois de, em janeiro de 2005, numa deslocação à ilha do Príncipe, não ter havido programa oficial, tendo o então ministro participado num programa de mergulho, o que levou a oposição a acusar o então governante de gastar milhares de euros do erário público para “fazer férias”. A demissão não foi aceite por Santana Lopes.
Nuno Morais Sarmento nasceu em Lisboa em 1961. Era licenciado em Direito pela faculdade de Direito da Universidade Católica. Foi membro da Comissão Nacional de Proteção de Dados Pessoais, representante de Portugal na Autoridade de Controlo Comum do Espaço Schengen e vogal do Conselho Superior do Ministério Público, eleito pela Assembleia da República. Foi ainda assessor jurídico do Gabinete do Alto Comissariado do Programa Nacional de Prevenção da Toxicodepêndencia. Em 2002, antes de tomar posse como ministro, assumiu, numa entrevista televisiva, ter sido ele próprio consumidor de drogas.
Após abandonar as funções políticas, foi comentador na RTP e na SIC Notícias.
Nuno Morais Sarmento lutou contra um cancro no pâncreas, período durante o qual passou cerca de dois anos internado no hospital e fez 12 cirurgias, como chegou a revelar em entrevistas.
Marcelo lembra “militante de todas as horas pela democracia e a liberdade”. PSD lamenta perda de “um homem de convicções”
Numa nota publicada no site da Presidência, o Presidente da República lamentou a morte de Nuno Morais Sarmento. “Deixou-nos Nuno Morais Sarmento. Militante de todas as horas pela democracia e a liberdade, muito inteligente, brilhante, político, governante, sempre em busca de novas pistas, sendas e mais vastos horizontes”, lê-se na nota.
“Marcou um tempo no seu partido, ensaiou reformas na informação, liderou uma fundação dedicada às relações luso-americanas. Mas foi sempre maior do que os cargos que desempenhou. Desapareceu cedo demais para o muito que sempre sonhou fazer”, destaca Marcelo.
Já Luís Montenegro reagiu na rede social X. O primeiro-ministro destacou a “sensibilidade política” e “capacidade de análise” de Nuno Morais Sarmento.
https://twitter.com/LMontenegro_PT/status/2030236557563589109
O seu partido de sempre, o PSD, emitiu uma longa nota, na qual lamenta a perda de “um homem de convicções” e de “uma das vozes mais firmes na defesa da liberdade, da tolerância e do espírito cívico”.
Segundo a nota, Morais Sarmento “tinha três grandes paixões: o PSD, tendo iniciado militância ainda jovem, na JSD; o Direito, a ciência e arte que escolheu para abraçar a profissão de jurista e advogado de causas; e, por fim, o mergulho – era um apaixonado da natureza marinha (do silêncio e da profundidade do mar)”.
Durão Barroso, que teve Morais Sarmento como ministro do seu Governo, sublinhou a “enorme amizade e cumplicidade política” que manteve com o advogado. Nos últimos anos, lembra Durão Barroso, Nuno Morais Sarmento “enfrentou uma doença muito grave que pôs à prova a sua resistência. Foi conseguindo, com coragem, atravessar os muitos obstáculos que lhe foram surgindo, até ao dia de hoje”, realçou o antigo primeiro-ministro que em janeiro sucedeu a Morais Sarmento na liderança da FLAD.
Também o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, reagiu ao desaparecimento, lembrando, em declarações à RTP Notícias, Nuno Morais Sarmento como um “bom amigo” de “há muitos anos” com “um percurso político extraordinário” que começou “ainda muito jovem”. “A primeira característica que queria [destacar] era, para além da sua grande lealdade para com os amigos — e eu julgo poder encontrar-me entre eles —, a sua inteligência fulgurante”.
“Era um homem de uma inteligência e de um brilhantismo totalmente fora do comum”, com uma capacidade de análise política “invulgar” que teve o seu “auge durante a liderança de Durão Barroso”. “Tinha uma grande causa, o país. Era um patriota em todos os sentidos, uma figura maior da nossa democracia”, acrescentou Paulo Rangel.
O governante destacou a resistência do antigo ministro que atravessou, nos “últimos anos”, “um sofrimento enorme”, fruto de várias doenças. “Esteve no limite entre a vida e a morte”, mas mantendo sempre “o seu espírito de inteligência muito aguçada e de atenção para com os amigos”. “Foram momentos muito difíceis”, rematou Rangel, que transmitiu, condolências “a toda a família”.