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(A) :: O Ano da Morte de Lobo Antunes

O Ano da Morte de Lobo Antunes

Os mortos não levam nada consigo, nem as frases, nem as dores, nem as vitórias, e que o que fica é o trabalho sujo dos vivos, ler, lembrar, não mentir, não fazer da literatura uma medalha ao peito.

Nuno Morna
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Chove sobre Lisboa com aquela insistência sem imaginação que é própria das coisas que não precisam de convencer ninguém, chove e não é só água, é a cidade inteira a escorrer, as fachadas como se tivessem febre, o Tejo com cor de estanho sujo, eu a pensar que há dias em que um homem não chega, nem para si, quanto mais para a notícia de outro homem, sobretudo se esse outro homem foi feito de frases como navalhas, e de ternuras como um murro no estômago, e eis que, um toque apressado no telemóvel, lido numa mesa de café que cheira a detergente barato e a copos enxutos por obrigação, lê-se o título que ninguém quer ler e toda a gente lê, Morreu António Lobo Antunes, e com a frase vem logo o coro de sempre, os que fingem que o conheciam, os que juram que o detestavam mas citam-lhe uma linha como quem mostra um troféu, os que perguntam se isto vai dar feriado, e eu, que não sou melhor do que ninguém, sinto primeiro uma irritação miúda, não com a morte, que essa não pede licença, mas com a pressa com que a cidade transforma um escritor em placa comemorativa, e com a facilidade com que o luto se converte em conversa de ocasião, como se a literatura fosse um móvel e alguém tivesse anunciado, Olhe, caiu-lhe a estante, e agora toda a gente comenta a madeira.

O homem que lê a notícia, chamemos-lhe apenas o homem, porque os nomes são sempre um abuso, está hospedado num hotel velho, desses onde a mobília parece ter sido escolhida para não dar ideias a ninguém, e escolheu-o por um motivo ridículo e portanto muito humano, queria um quarto que desse para o rio, não por romantismo, mas para se lembrar que há qualquer coisa que passa sem pedir autorização, entra e sai, sobe e desce, e que nós, com toda a nossa importância, ficamos ali, encostados ao parapeito, a fazer de conta que controlamos alguma coisa; sobe as escadas como quem sobe um pequeno castigo, recebe a chave, sente o metal frio na mão, e a chuva volta a bater no vidro, e então, com a mesma naturalidade com que se abre uma janela, abre-se nele a recordação de quando leu Lobo Antunes pela primeira vez, não foi revelação, foi uma espécie de bofetada bem dada, e o pior é que acertou, e durante anos, sem saber, andou com aquilo no corpo como se fosse uma cicatriz invisível, e agora dizem-lhe que o homem morreu e ele pensa, morreu o homem, e os livros, esses, ficam como ficam as casas abandonadas, com os móveis no lugar, a poeira a acumular-se, e as vozes lá dentro, teimosas, a repetir as mesmas frases a quem entra, como se o tempo não tivesse passado, ou como se o tempo fosse apenas esta chuva a cair em cima da cidade e a cidade a fingir que é nova.

Sai à rua, porque a notícia não se aguenta dentro de um quarto, e porque o corpo precisa de andar quando a cabeça não sabe onde se pôr, atravessa calçadas húmidas, passa por eléctricos que rangem como se tivessem dores antigas, vê os mesmos rostos de sempre, o taxista que olha para ele como quem avalia um destino, o empregado que varre água para lado nenhum, o senhor de gabardina que fuma com raiva, e a cada passo o homem sente uma coisa estranha, não é tristeza limpa, é uma mistura de gratidão e zanga, gratidão por ter havido alguém que escreveu como se estivesse a escavar um túnel com as mãos, zanga porque agora essa mão parou, e a cidade, que é preguiçosa, vai arrumar a morte dele num canto, ao lado de outras mortes, e fazer a vida continuar como se nada tivesse acontecido, e ele sabe, claro que sabe, que é assim que tem de ser, e ainda assim custa, porque nós queremos sempre que a realidade faça uma excepção por nossa causa, que o céu pare, que o rio pare, que as pessoas parem e digam, Sim, isto importa, mas ninguém diz, e o homem não tem direito nenhum a exigir tal coisa.

E é então, num daqueles encontros que só acontecem em cidades velhas e com chuva, que o homem o vê, não o vê como se vê um vivo, vê-o como se vê uma ideia que ganha casaco, chapéu, postura, e a postura é uma coisa fundamental, porque há pessoas que continuam de pé mesmo depois de mortas, e António Lobo Antunes, nesta história que é nossa e não do mundo, caminha ao lado do homem como se tivesse saído de uma esquina da memória, não espectro com lençol, não santo, não estátua, apenas alguém com uma cara cansada, um olhar que não pede desculpa, e uma espécie de impaciência triste, como se dissesse, não me venham com cerimónias, que eu já vi demais, e o homem, que tinha mil coisas para dizer, não diz nada, porque há encontros em que a fala é uma falta de educação, e Lobo Antunes, ou a figura dele, olha para o Tejo e comenta, como quem comenta uma coisa mínima, Está sempre a passar, e nós sempre a fingir que não, e esta frase, tão simples, é a frase que mais dói, porque é verdadeira, e depois seguem, lado a lado, pela cidade que é ao mesmo tempo real e literatura, a cidade como cenário e como desculpa, e o homem percebe que aquele ano, o ano da morte, não é o ano em que um escritor deixa de respirar, é o ano em que os leitores ficam sem o alibi de dizer, ainda está cá, ainda pode escrever mais um, como se o mundo lhes devesse capítulos.

Durante meses, o homem encontra-o em sítios improváveis, no corredor de uma livraria onde ninguém compra nada, numa sala de espera onde a televisão dá notícias que parecem inventadas por alguém sem talento, junto a um banco de jardim onde uma mulher chora ao telemóvel e ninguém olha, e em cada encontro o morto diz pouco, porque os mortos, quando são verdadeiros, não fazem discursos, limitam-se a pôr o dedo onde dói, e o dedo dói por dentro, e o homem começa a notar, com uma paciência que não sabia ter, que a cidade mudou sem mudar, que os jornais continuam a imprimir frases como quem imprime embrulhos, que os comentadores continuam a falar como se a vida fosse um concurso, e que, no entanto, há qualquer coisa de novo, não em Lisboa, que Lisboa não aprende, mas nele, porque começa a ler os livros de Lobo Antunes como quem os lê pela primeira vez, sem a arrogância da juventude, sem a mania de explicar tudo, aceitando que há frases que são apenas feridas e não lições, e que a literatura, afinal, não serve para nos melhorar, serve para nos tornar honestos com aquilo que somos, e isso, convenhamos, já é tarefa ingrata que chegue.

No fim do ano, numa noite em que a chuva abranda e a cidade parece respirar por um segundo, o homem encontra-o pela última vez, não num cemitério, porque isto não é postal ilustrado, encontra-o num cais, um cais qualquer, com o rio a bater devagar, e Lobo Antunes diz-lhe, sem dramatismo, que os mortos não levam nada consigo, nem as frases, nem as dores, nem as vitórias, e que o que fica é o trabalho sujo dos vivos, ler, lembrar, não mentir, não fazer da literatura uma medalha ao peito, e depois afasta-se, não desaparece com luzes, afasta-se como se estivesse simplesmente cansado e fosse para casa, e o homem percebe que o ano da morte não terminou ali, porque estas coisas não terminam quando o calendário quer, terminam quando nós, finalmente, deixamos de procurar o morto para pedir consolo e começamos a usar o que ele deixou como se fosse uma ferramenta, não para enfeitar a estante, mas para abrir caminho no escuro, e isto é o máximo que um escritor pode exigir de nós, e o mínimo que nós lhe devemos, mesmo que a cidade, amanhã, acorde e volte ao mesmo barulho de sempre, como se nada tivesse acontecido, que é, no fundo, a especialidade humana.