Dizem que a guerra é o inferno. Eu digo que é o negócio. E como todo o bom negócio, obedece a uma lógica, tem os seus acionistas, os seus beneficiários e, claro, os seus pagadores de última instância. Dizer que é um acidente, um momento de insanidade coletiva que interrompe a normalidade das coisas, é uma forma elegante de não querer ver. A realidade, como sempre, é mais sóbria e mais sórdida: a guerra não é uma falha do sistema; é o sistema a funcionar na plenitude das suas capacidades. É o momento em que a máquina mostra as engrenagens, sem a lubrificação da retórica humanitária, sem a cortina de fumo dos discursos de ocasião.
O que estamos a testemunhar no tabuleiro que vai da Ucrânia ao Irão, passando por Gaza e pelo Cáucaso, não é um choque de civilizações nem uma luta entre o Bem e o Mal. Isso são categorias para consumo público, para encher telejornais e justificar orçamentos de defesa. O que está em curso é uma operação de engenharia financeira e geopolítica, desenhada com a precisão de um relojoeiro suíço, para transferir riqueza de baixo para cima, de quem trabalha para quem especula, de quem consome para quem produz, de quem morre para quem fatura.
E, como em qualquer operação cirúrgica que se preze, há sempre um bisturi. Neste caso, o bisturi chama-se Estreito de Ormuz e a mão que o empunha pertence a um Irão que há muito percebeu que a sua melhor arma não está nos silos de mísseis, não está nas centrifugadoras de urânio, não está nos discursos incendiários dos ayatollah. A melhor arma do Irão está nos oleodutos. Ou melhor, na possibilidade de os cortar.
Vamos diretos ao que interessa, sem rodeios nem eufemismos: o petróleo. Não o petróleo que sai da terra, esse líquido viscoso e sujo que mancha as mãos dos que o extraem em condições que preferimos ignorar. Falo do petróleo que existe nos ecrãs dos traders, esse espectro financeiro que vale mais do que a molécula física, essa entidade etérea que sobe e desce ao sabor do medo, da especulação e da informação privilegiada.
Quando o Irão ameaça fechar o Estreito de Ormuz, e já o fez, em gestos e palavras, nos últimos dias, não está apenas a brincar com a logística dos petroleiros, não está apenas a testar a paciência da marinha americana. Está a carregar no botão da impressora de dinheiro de meia humanidade. E fá-lo com a frieza de quem sabe exatamente onde aperta.
Vejam o que aconteceu nos mercados. O barril disparou para máximos de quase dois anos. Depois recuou. Depois voltou a subir 8% numa manhã. Depois estabilizou, como quem toma fôlego para o próximo salto. Esta dança macabra não reflete a escassez real de crude, os stocks, garantem os analistas da Fitch e da Goldman, até estão confortáveis, a oferta até supera a procura, os silos até estão cheios. Reflete, isso sim, o medo da escassez. E o medo, meus caros, é o combustível mais rentável que existe no mercado. Porque o medo não precisa de matéria-prima, precisa apenas de imaginação. Precisa apenas de uma imagem, de um título, de uma ameaça.
A isto chama-se, na linguagem técnica dos mercados, prémio de risco geopolítico. Mas não nos deixemos enganar pela tecnicidade. O prémio de risco é apenas o nome bonito que damos à capacidade de transformar ansiedade em dinheiro.
Funciona assim: os fundos de investimento, esses senhores do universo que gerem mais dinheiro do que o PIB de metade dos países do mundo, olham para o Médio Oriente e pensam: “Se o Estreito fechar, se os tanques americanos entrarem no Irão, se Israel responder aos mísseis, o petróleo vai a 100 dólares. Ou a 120. Ou a 150.” Então compram futuros a esses preços, empurrando as cotações para cima hoje, neste exato momento. O petróleo sobe não porque faltam barris nos porões dos navios, mas porque se acredita que vão faltar. É uma profecia autorrealizável, uma aposta coletiva no pior cenário possível, um concurso de pessimismo onde ganha quem tiver a visão mais apocalíptica.
E quem ganha com isto? Essa é a pergunta que nunca fazemos, porque a resposta é demasiado incómoda.
Os “novos donos do petróleo” de que falava no início desta conversa são exatamente estes: os especuladores que transformam a incerteza em lucro, os Estados que veem as contas públicas equilibrarem-se graças ao sangue alheio, os fabricantes de armas que faturam com a instabilidade que ajudaram a criar. É um ecossistema perfeito, um ciclo vicioso onde a guerra alimenta a especulação e a especulação alimenta a guerra, num abraço de morte que aperta sempre quem está por baixo.
Mas voltemos ao Estreito de Ormuz, porque é lá que esta história ganha contornos físicos. Este pedaço de água entre o Irão e Omã, com 200 quilómetros de comprimento e 50 de largura no ponto mais estreito, não é apenas um ponto no mapa. É o coração do sistema circulatório da economia global. É a aorta por onde passa o sangue que mantém viva a civilização industrial.
Os números falam por si, mas é bom repeti-los para que não os esqueçamos: por ali passam, em média, 20 milhões de barris por dia. Isto representa um quinto de todo o petróleo que o mundo consome. Representa 30% de todo o crude transportado por mar. Representa, em valor, qualquer coisa como mil e quinhentos milhões de dólares por dia, a preços de mercado. É a artéria principal do sistema.
Quando este corredor fecha, e já fechou, em momentos de tensão, em guerras passadas, em crises que julgávamos esquecidas, não é só o petróleo iraniano que fica retido. Isso seria o menor dos problemas, porque o Irão já está sancionado até ao tutano, já vende o que pode por canais paralelos, a preços de desconto. O que fica retido é o petróleo da Arábia Saudita, do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos, do Catar. É o petróleo dos aliados dos americanos, dos países que supostamente garantem a estabilidade dos mercados. É a oferta que sustenta a China, a Índia, o Japão, a Europa.
O Irão sabe disto melhor do que ninguém. Sabe que fechar o Estreito é o seu trunfo máximo, a sua “bomba atómica” geopolítica, a sua garantia de que ninguém o pode simplesmente apagar do mapa sem pagar um preço insuportável. E sabe também, esta é a parte mais inteligente da estratégia, que não precisa de o fechar realmente. Basta ameaçar fazê-lo. Basta disparar um drone na direção errada, numa base americana no Iraque. Basta que um navio da marinha iraniana aborde um petroleiro com bandeira de conveniência. Basta que as seguradoras retirem a cobertura aos navios que se aventuram na região.
Vejam a genialidade da jogada: o tráfego cai 75% antes de um tiro ser disparado, antes de um míssil atingir o seu alvo, antes de um navio ser efetivamente danificado. Cai porque o risco, uma vez instalado na mente dos decisores, é como uma erva daninha: alastra sem precisar de adubo, ocupa todos os espaços, não dá tréguas. Cai porque ninguém quer ser o primeiro a testar a sorte, ninguém quer ser o herói que arrisca um carregamento de 100 milhões de dólares numa passagem que pode estar minada.
A retaliação iraniana aos últimos acontecimentos tem sido, neste aspeto, uma obra-prima de dissuasão distribuída. Uma coreografia ensaiada ao longo de décadas, que agora se desenrola diante dos nossos olhos.
Não se limitaram a responder com mísseis contra Israel, fizeram-no, claro, para mostrar que têm capacidade e não hesitam em usá-la. Não se limitaram a atingir bases americanas no Golfo, no Bahrein, no Catar, no Kuwait, para lembrar que os soldados estão ao alcance. Foram mais longe. Ativaram o Hezbollah no Líbano, essa milícia que é um Estado dentro do Estado, para atacar o norte de Israel com rockets e criar uma guerra por procuração que desgasta o inimigo em múltiplas frentes sem que o Irão assuma formalmente a responsabilidade.
E, no golpe de mestre, atacaram com drones a embaixada dos Estados Unidos em Riade.
Percebem a jogada? Percebem a beleza macabra da estratégia?
Ao atacar a Arábia Saudita, o Irão não está apenas a ameaçar um inimigo tradicional, não está apenas a vingar-se de décadas de rivalidade regional. Está a enviar uma mensagem a todos os produtores do Golfo: “Se colaborarem com os americanos, se aumentarem a produção para compensar a nossa ausência, se pensarem que estão a salvo atrás das vossas muralhas e dos vossos sistemas antimísseis, lembrem-se: chegamos-vos a casa. Chegamos-vos à embaixada. Chegamos-vos ao palácio.”
É um aviso dirigido não só a Riade, mas a Pequim, a Nova Deli, a Tóquio, a Seul. A todos os que dependem do petróleo do Golfo para manter as suas fábricas a funcionar, as suas casas aquecidas, os seus carros a andar. É o Irão a dizer, em linguagem que os mercados entendem perfeitamente: “Este fogo não se apaga com discursos na ONU. Não se apaga com resoluções de condenação. Apaga-se com cedências. Apaga-se com negociações. Apaga-se com a aceitação de que, nesta região, temos tanto direito a existir como qualquer outro.”
E é aqui que entramos no território das segundas e terceiras intenções. Porque neste tabuleiro global, ninguém joga apenas uma partida. Jogam-se todas ao mesmo tempo, em múltiplos níveis, com múltiplos adversários e múltiplos aliados que mudam de lugar conforme a conveniência do momento.
Vejamos, com a frieza de quem dissecava cadáveres nas aulas de anatomia:
Os Estados Unidos jogam a curto prazo, mas jogam também a longo prazo. A curto prazo, precisam de conter o Irão, proteger Israel, garantir a estabilidade do Golfo, manter a hegemonia numa região que já foi o centro do seu poder global. Mas a longo prazo, a guerra na Europa e no Médio Oriente é o melhor negócio que lhes podia acontecer desde a Segunda Guerra Mundial. É o melhor negócio para o seu complexo industrial-militar, que vende armas como quem vende pão quente num inverno rigoroso. É o melhor negócio para o seu gás natural liquefeito, que agora abastece a Europa a preços de ouro, substituindo o gás russo que durante décadas aqueceu os lares alemães. É o melhor negócio para a sua indústria, que vê os concorrentes europeus a pagarem o dobro pela energia.
Não se iludam com as declarações de princípio. Os discursos sobre a democracia e a liberdade são para consumo interno. A realidade é que os EUA saem reforçados de qualquer conflito que não lhes toque diretamente no território.
A Rússia observa de longe, esfregando as mãos calejadas pelas sanções. Quanto mais o preço do petróleo sobe, mais a sua máquina de guerra se alimenta, mais o rublo se fortalece, mais o orçamento do Kremlin se equilibra. Quanto mais o Médio Oriente arde, menos olhos estão virados para a Ucrânia, menos munições ocidentais sobram para os soldados de Kiev, menos atenção mediática recebem os crimes de guerra que vão sendo cometidos. A Rússia não precisa de vencer no terreno, precisa apenas de sobreviver, de resistir, de esperar que o cansaço ocidental faça o seu trabalho.
A China calcula, como sempre calcula, com a paciência de quem joga xadrez enquanto os outros jogam damas. Depende do petróleo do Golfo para alimentar a sua economia, a maior do mundo em paridade de poder de compra. Mas depende também da sua aliança estratégica com a Rússia, que lhe fornece energia por terra, segura, sem passar por estreitos perigosos. O seu dilema é simples e complexo ao mesmo tempo: como apoiar Moscovo sem hostilizar Riade? Como garantir o abastecimento energético sem se meter numa guerra que não é sua? Como afirmar-se como potência global sem se colar demasiado a regimes que o Ocidente considera párias?
A resposta, como sempre, está no meio-termo: discursos de paz, negócios com todos, compromissos com ninguém.
A Arábia Saudita, esse aliado incómodo que financia mesquitas em todo o mundo enquanto compra armas aos americanos, vê-se entre a espada e a parede. Protegida pelos EUA desde a Guerra do Golfo, mas alvo preferencial do Irão. Produtora de petróleo com capacidade sobrante para estabilizar mercados, mas refém do Estreito que os iranianos controlam. Modernizadora tímida sob o comando de MbS, mas ainda uma teocracia feudal onde os direitos humanos são uma miragem. O ataque à embaixada em Riade foi um lembrete doloroso: “Tu podes ter o dinheiro, podes ter os arranha-céus, podes ter o PIF a comprar clubes de futebol europeus, mas eu tenho a faca. E a faca está sempre mais perto do que pensas.”
E o Irão, o “eixo do mal”, o “rival regional”, o “patrocinador do terrorismo”, tudo etiquetas que cabem nos cabeçalhos dos jornais, joga a sua sobrevivência. Nada mais, nada menos. Sabe que não pode vencer uma guerra convencional contra os EUA, sabe que a sua economia está exausta por décadas de sanções, sabe que a população está cansada de promessas não cumpridas. Mas sabe também que pode tornar essa guerra tão dolorosa, tão imprevisível, tão cara para o sistema global que os americanos preferirão negociar a continuar a escalar.
O seu objetivo não é destruir Israel, isso é conversa para consumo interno, para manter as massas alinhadas e os ayatollah no poder. O seu objetivo é manter-se no poder, exatamente como o objetivo de todos os outros regimes da região. E para isso precisa de mostrar que, se o apertarem demasiado, se o levarem ao limite, o preço do petróleo vai a 150 dólares, a inflação dispara no Ocidente, as eleições perdem-se, os governos caem, e o caos que se segue será responsabilidade de quem começou o jogo.
É a lógica do equilibrista: quanto mais alto se sobe, mais se depende da rede. O Irão construiu a sua rede ao longo de décadas, com paciência de ourives, e agora mostra-a a quem quiser ver.
Agora, a pergunta que nunca fazemos nos debates televisivos, a pergunta que falta nos editoriais dos grandes jornais, a pergunta que os políticos evitam como a peste: quem paga isto tudo?
Não pagam os generais, que reformam-se com mordomias e escrevem memórias onde explicam como venceram guerras que ninguém venceu. Não pagam os especuladores, que contam os lucros em paraísos fiscais enquanto o mundo arde. Não pagam os sheiks do petróleo, que construíram cidades no deserto com ar condicionado e campos de golfe. Não pagam os acionistas das petrolíferas, que veem os dividendos crescerem a cada nova crise.
Pagamos nós. Os comuns mortais. Os que enchem o depósito do carro todas as semanas e notam que o preço subiu 20 cêntimos de um dia para o outro. Os que vão ao supermercado e descobrem que o pão, o leite, a carne, tudo está mais caro porque o frete aumentou, porque o gasóleo subiu, porque a guerra chegou aos preços antes de chegar às casas. Os que recebem a fatura da luz, do gás, da água, do transporte público, e ouvem explicações técnicas sobre mercados internacionais e custos de produção, sem perceber que estão a pagar o preço do medo alheio.
A guerra é, acima de tudo, um imposto disfarçado. Um imposto que não precisa de ser votado nos parlamentos, que não precisa de ser justificado aos cidadãos, que não precisa de passar pelo escrutínio da opinião pública. Um imposto que entra pelas casas das pessoas sem pedir licença, sem aviso prévio, sem possibilidade de recurso. Um imposto cobrado à porta de casa por cobradores que nunca vemos, mas que estão sempre lá, sempre prontos a exigir o seu quinhão.
E o mais irónico? Nós, os pagadores, somos também os justificadores. Somos nós que aplaudimos os nossos líderes quando prometem “defender a democracia” na Ucrânia ou “apoiar os aliados” no Médio Oriente. Somos nós que aceitamos, resignados, que o preço da gasolina suba porque “há uma guerra e temos de fazer sacrifícios”. Somos nós que interiorizamos o discurso do esforço nacional, da solidariedade internacional, da defesa dos valores, sem perceber que o sacrifício é sempre nosso e o proveito é sempre de outros.
Há um mecanismo psicológico fascinante nisto: a capacidade de transformar custos materiais em virtudes morais. Pagamos mais pelo petróleo e chamamos-lhe “apoio à resistência ucraniana”. Pagamos mais pelos alimentos e chamamos-lhe “solidariedade com os refugiados”. Pagamos mais por tudo e chamamos-lhe “preço da liberdade”. Como se a liberdade tivesse um preço e esse preço fosse pago apenas por alguns.
Não tenho nada contra a liberdade, atenção. Tenho é contra a fatura ser apresentada apenas a quem não tem lugar à mesa das decisões.
Há quem veja conspiração em tudo isto. Há quem imagine uma sala escura onde meia dúzia de homens de fato caro decidem o destino do mundo enquanto fumam charutos cubanos. Não é assim. A realidade é mais banal e mais assustadora ao mesmo tempo.
O que existe é uma convergência de interesses. Interesses económicos, interesses geopolíticos, interesses estratégicos, interesses eleitorais. Uma multidão de atores, governos, empresas, grupos de pressão, burocracias, que, na sua interação quotidiana, produzem este resultado previsível e devastador. Não há um cérebro central, um “deep state” a puxar os cordelinhos. Há, isso sim, uma multidão de jogadores racionais a maximizar as suas vantagens num tabuleiro onde as regras são feitas por quem tem mais poder.
Chamemos-lhe, se quiserem, engenharia social. Engenharia económica. Engenharia de poder. Engenharia do mundo.
Não é conspiração. É mais simples que isso. É a natureza do sistema: a guerra é um péssimo negócio para a humanidade, mas é um excelente negócio para quem vende armas, para quem vende petróleo, para quem especula com a incerteza, para quem governa com o medo. E enquanto este modelo se mantiver, enquanto o lucro falar mais alto que a vida, enquanto o preço do barril for mais importante que o preço do sangue, o ciclo continuará.
Não se iludam com as tréguas, com os cessar-fogos, com as conferências de paz. Isso são parêntesis, pausas para rearmamento, momentos de respiração antes do próximo assalto. A guerra não acaba quando a razão triunfa, acaba quando os custos superam os benefícios para quem tem poder para a continuar. E enquanto houver petróleo no subsolo e armas nos arsenais, enquanto houver acionistas à espera de dividendos e eleitores à espera de discursos, os custos serão sempre empurrados para baixo, para quem não tem voz.
A paz não é lucrativa. A guerra, essa, dá sempre dinheiro. É só uma questão de saber quem está a receber o cheque.
E, mais importante, quem o vai descontar.