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(A) :: Leão XIV e a coragem de encorajar ‘COURAGE’ 

Leão XIV e a coragem de encorajar ‘COURAGE’ 

O Papa “falou sobre liberdade, sobre o que é a verdadeira liberdade: não a liberdade desenfreada que o mundo oferece, mas o domínio das nossas paixões”.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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No passado 6 de Fevereiro, segundo informação difundida no próprio dia pela ACIDIGITAL, o Papa Leão XIV recebeu Courage International, nas pessoas do seu director executivo, o Padre Brian Gannon, e do Bispo de Bridgeport, Frank Caggiano. Courage é uma instituição católica que tem a sua sede nos Estados Unidos da América e que, desde 1980, presta assistência a fiéis que sentem atracção por pessoas do mesmo sexo.

Esta audiência pontifícia teve uma especial importância, porque assinalou uma mudança de paradigma em relação à subjacente questão moral. Com efeito, o atendimento pastoral dos fiéis ditos homossexuais tem oscilado entre dois extremos: o da exclusão destas pessoas e o da aprovação eclesial do modo de vida “gay”.

Há quem não distinga o acto de quem o realiza e, por isso, condene as pessoas que sentem essa tendência, porque as acções de natureza sexual entre indivíduos do mesmo sexo são consideradas, pela doutrina católica, como essencialmente imorais: “Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que ‘os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados’.” (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Persona humana, nº. 8; Catecismo da Igreja Católica (CIC) nº 2357).

No extremo oposto, encontram-se os que, como o controverso Padre James Martin, autor de Building a Bridge (Harpercollins Publishers Inc, 2017), não aceitam que, para a Igreja, os actos sexuais entre pessoas do mesmo sexo “não podem, em caso algum, receber aprovação” (CIC, nº 2357). Esta tese, apesar da sua insanável contradição com a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, foi tolerada no pontificado anterior. Com efeito, depois de uma primeira declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, proibindo as bênçãos a ‘casais’ do mesmo sexo (Responsum da Congregação para a Doutrina da Fé a um dubium sobre a bênção de uniões de pessoas do mesmo sexo, 22-2-2021), uma segunda nota desse Dicastério admitiu essa possibilidade (Declaração Fiducia supplicans, 18-12-2023). Dada a contradição entre estes dois textos, ambos emitidos pelo mesmo organismo da cúria vaticana e aprovados pelo mesmo Papa, era grande a expectativa quanto à atitude que Leão XIV iria tomar sobre esta questão moral e pastoral.

Courage, que não realiza terapias de conversão, não se situa em nenhum desses dois extremos, pois não condena os que sentem atracção pelas pessoas do mesmo sexo, nem aprova os actos ditos homossexuais. Courage entende que os que sentem essa atracção “devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se são cristãs, a unir ao sacrifício da Cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.” (CIC, nº 2358).

Mas, por outro lado, precisamente porque não discrimina ninguém, Courage recorda a estes fiéis o que a Igreja a todos pede: devem viver de acordo com os 6º e 9º Mandamentos. Todos os católicos, sem excepção, estão obrigados à observância desses preceitos da Lei de Deus que, se é custosa para os que se sentem atraídos por pessoas do seu sexo, também o é para os que preferem pessoas do outro sexo, sejam ou não casados, e para os solteiros, que estão obrigados à abstinência sexual.

Courage é um instrumento de acção pastoral que ajuda os fiéis que, não obstante a sua inclinação para pessoas do seu sexo, querem, consciente e voluntariamente, viver de forma coerente com a sua fé católica. Essa tendência sexual, “exclusiva ou predominante” (CIC, nº 2357), não é em si mesma um pecado, até porque, muitas vezes, é involuntária: “esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação” (CIC, nº 2358). Mas, mesmo não sendo uma falta, essa atracção requer um atendimento pastoral específico, que nem todas as entidades eclesiais logram proporcionar aos seus fiéis. Neste sentido, trata-se de uma estrutura pastoral especializada, que presta um serviço de acompanhamento espiritual aos fiéis que necessitem e queiram esse apoio.

Segundo o Padre Brian Gannon, em declarações prestadas à EWTN News no ano passado, Courage é um “ministério necessário”, pois “ajuda as pessoas a encontrar a paz”. Como ensina a Igreja, “as pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.” (CIC, nº 2359). Os seus membros entreajudam-se, sobretudo rezando porque, como recorda o Padre Brian, “a oração é absolutamente essencial”. Courage não coage nem desresponsabiliza ninguém, mas anima os seus membros para que, em comunhão com outros fiéis, perseverem no caminho da salvação. Essa união ajuda a sarar, como disse Leão XIV, “as feridas das pessoas”. Um propósito utópico? De modo nenhum porque, como lhes recordou o Santo Padre, “Jesus Cristo está sempre convosco e vocês nunca estão sós”. 

Segundo o Padre Brian Gannon, “Foi um momento marcante poder partilhar com o Santo Padre o nosso apostolado, a nossa oferta de acompanhamento pastoral para as pessoas que se sentem atraídas por outras do seu sexo e que se esforçam por viver vidas castas, bem como acompanhar quem tem um familiar que se identifica como LGBTQ.” Confidenciou também que “o Papa foi muito gentil, um óptimo ouvinte. Conversámos sobre a importância da castidade e de como cura, fortalece e restaura a pessoa. O Papa foi, obviamente, muito encorajador”.

Como já Santo Agostinho tinha ensinado: “A castidade recompõe-nos; reconduz-nos à unidade que perdemos quando deixamos de ter domínio sobre nós” (Confissões, 10, 29). Como religioso agostinho que é, Leão XIV “falou sobre liberdade, sobre o que é a verdadeira liberdade: não a liberdade desenfreada que o mundo oferece, mas o domínio das nossas paixões e a completa entrega à vontade de Deus”.

A primeira audiência de um Papa a Courage significa um “grande impulso moral” para esta organização, que tem filiais em uma dúzia de países e uns 200 capelães. Seria excelente que mais bispos e padres tivessem a coragem de impulsionar Courage, agora que este apostolado foi expressamente abençoado por Leão XIV. Como disse o Padre Brian Gannon, trata-se de uma “grande bênção” para esta organização, pois os seus membros, em todo o mundo, sentiram-se encorajados ao saber “que o Papa concedeu esta audiência, ouviu atentamente e apoia muito tudo o que Courage está a fazer”.