(c) 2023 am|dev

(A) :: Entre o limite de velocidade e o limite da paciência

Entre o limite de velocidade e o limite da paciência

A mobilidade é, de facto, uma das questões mais prementes na vida de Lisboa. Podia dar muitos exemplos, mas fico por um que toda a gente conhece: as escadas do Chiado

Francisco Camacho
text

Na última terça-feira, o PS resolveu trazer para a Assembleia Municipal de Lisboa o tema da sinistralidade rodoviária.

A pergunta impunha-se: porquê agora? Que dados tinha o Partido Socialista para justificar a urgência do assunto? E que podia o PS acrescentar, se a base eram apenas os dados distritais disponíveis, demasiado abrangentes para discutir Lisboa com rigor? Um debate nestes termos seria, apenas e tão só, uma ociosa e estéril troca de impressões.

Foi assim, num misto de expectativa e apreensão, que se aguardou pelo início dos trabalhos.

Eis então que surge Luís Coelho, o deputado municipal encarregado de conduzir a intervenção do PS. Seguiu-se um amontoado de banalidades e considerações genéricas: frases que serviriam para Lisboa, como para Odivelas ou Vila Nova da Barquinha. Dados? Nenhuns. A montanha pariu um rato. E o PS fez o que o PS faz melhor: navegou em abstracções, desligado da vida quotidiana dos lisboetas, tentando torcer a realidade para caber numa tese pré-fabricada; a de que existe uma relação causal directa entre diminuição de velocidade e diminuição de sinistralidade rodoviária. Ora, com os dados disponíveis, essa conclusão não podia ser demonstrada.

Ainda assim, Luís Coelho encerrou com a solenidade do anúncio de uma verdade inédita, numa frase tão segura quanto vazia, e cito: “Regra geral, a sinistralidade rodoviária está associada ao excesso de velocidade”. Foi isto.

O debate prosseguiu, então, segundo a agenda previsível da esquerda: a utopia do transporte individual, o terror climático, e o desenho de uma cidade que, na prática, ignora famílias e todos quantos precisam de circular em Lisboa com celeridade e eficácia. Sem dados concretos, sobrava a cartilha moral. Coisa que dispensa estatísticas.

Os dados chegariam mais tarde, pela mão do Vice-Presidente do Executivo, Gonçalo Reis. Não vos aborreço com números, mas a sua intervenção (elogiada pela própria bancada do PS pelo carácter pedagógico) deixou um facto relevante: no quadriénio 2022-2025, a sinistralidade no município de Lisboa baixou 23% em relação ao quadriénio anterior. Não são notícias perfeitas. Mas são boas notícias.

Mais: o relatório apresentado não estabelecia nexos de causalidade que permitissem sustentar, com rigor, o ponto do Partido Socialista. Talvez porque esses nexos não existam. Talvez porque a condução sob efeito de álcool, o uso do telemóvel ao volante, ou até a proliferação de ecrãs publicitários de grandes dimensões, ainda da responsabilidade do executivo de Fernando Medina, sejam distracções igualmente determinantes, embora menos convenientes para quem prefere uma política feita de proibições “pedagógicas”.

Ainda assim, se o debate pecou por abstracto, não pecou no tema: a mobilidade é, de facto, uma das questões mais prementes na vida de Lisboa. Podia dar muitos exemplos, mas fico por um que toda a gente conhece e que, curiosamente, raras vezes entusiasma os indignados profissionais: as escadas rolantes do Chiado.

Para quem não sabe, a estação do Chiado é uma das mais profundas de Lisboa, a cerca de 45 metros abaixo do solo. Para chegar à superfície, no lado do Largo do Chiado, é preciso vencer quatro lanços de escadas rolantes. Quando funcionam. Quando não funcionam (e estão cronicamente avariadas), o resultado é simples: novos e velhos, turistas e trabalhadores, artistas e empregados de café, floristas e advogados, todos sobem a pé, degrau a degrau, como se a mobilidade em Lisboa tivesse uma componente de treino físico obrigatório. Em Outubro de 2022 anunciava-se que o concurso público para a reparação seria lançado em 2023, para ficar concluído em 2024. Até hoje.

Pergunto-me por que razão a esquerda não se ocupa disto com o mesmo entusiasmo com que se ocupa de teses genéricas. Por que razão prefere navegar na maionese de conclusões feitas, quando o munícipe só quer uma coisa muito pouco ideológica: chegar a casa e ao trabalho a horas e, de preferência, sem a transpiração de subidas estóicas.

Seja qual for a explicação, há algo em que a esquerda é realmente talentosa: chutar a bola da agenda política para a frente. E quando, após a intervenção contundente de Gonçalo Reis, se apercebeu de que o debate estava perdido, o deputado Miguel Coelho, do PS, como quem não quer a coisa e completamente a despropósito, tirou um coelho da cartola. Disse coelho? Perdão: queria dizer comissão. Dentro da cartola socialista há sempre uma comissão pronta a saltar cá para fora. Desta feita, a propósito do acidente com o Elevador da Glória.

Como já tive ocasião de afirmar, neste momento encontra-se a decorrer o inquérito judicial e aguardam-se os resultados de uma auditoria externa. É esse o caminho adequado para uma matéria tão sensível. Sobretudo para as famílias das vítimas. Não estaremos disponíveis para participar em encenações políticas cujo objectivo é criar ruído suficiente para fazer esquecer derrotas de circunstância.

Lisboa tem, sem dúvida, muito por onde melhorar no que à mobilidade diz respeito. Mas não será com abstracções e teses “científicas” de pacotilha. Será com contacto com a realidade concreta de quem, todos os dias, faz da circulação na cidade um desafio permanente, e precisa menos de paternalismos e mais de soluções.